O SAL DE CADA DIA...

Galeria de Sublime inPurple
1
Benny Franklin · Belém, PA
19/2/2008 · 141 · 14
 

Fotografia: Anilson Teixeira

I

Perdoem-me a espada da fala
— o sal de cada dia —,
ás do não-insosso, barro que emoldura a palavra
e que repousa irrequietamente
nos bolorentos poemas
de mim.

Protejam-se do vômito!
Desviem os olhos da mesmice verborrágica.
Ah! Cuidado com as falsas sombras poéticas,
que se apresentam como árvores de descanso,
mas por dentro são ferinos verdugos...
Tomem cuidado!... Afastem-se de mim
todos vocês que amam o açúcar!
Os poemas que continuamente vos deflagro,
são lâminas e não partilhas, são cortes e não harmonia;
porque sabe o dia, que não arredarei um palmo de mim
até que meu canto saia da pecaminosa
clausura do silêncio.

II

Perdoem-me as mãos calejadas
— ânsia do tempo, calefação da poesia —,
perdoem-me a falta de inspiração: ternura, poeticidade, piedade,
saimento, mansidão... Ai! Que vontade de ser compreendido!
Se vós sois órfãos da ávida inspiração,
afastai-vos então deste instante redivivo.
Removê-los do inconsciente não vos afastará
da masturbação das feridas,
dos não-beijos – escoras das palavras.
Perdoem-me o corpo prostituído...
Perdoem-me o olhar tão soluçante...
Perdoem-me a ganância que coagula o poema...
Contudo... Se vós sois órfãos do papel,
revê-los cintilantes ante as sobras
das famintas palavras...
Ai... Bem sabe a flor,
não vos afastará do vazio e nem da injustificada fome
que assola gavetas e laudas marginalizadas
— crueza nua da esperança que aparta...
Ai... Vida! Vida!
Quer afável, quer abominável;
quer eloqüente, quer insuportável,
a chama não se moverá iludida ao eterno cansaço,
e não me afastará (jamais!) daquilo que penso.

III

Perdoem-me as frases destroçadas,
as estrofes defenestradas.
Perdoem-me os versos descartados,
perdoem-me os poemas inacabados...
Mas... Tomem cuidado! Afastem-se de mim
todos vocês que não perdoam as letras ejaculadas!
Os poemas entretêm-me e agem pela força da palavra:
quer indizível, quer Intolerável...
quer indigente, quer sistemática...
Ai... Perdoem-me os acentos bestiais,
inexoráveis e trôpegos...
Não tentar esmiuçá-los na solidão do poeta
e na cólera dos vendavais humanos não deserdá-los,
requer certeira retaliação
a florir nos remelosos olhos do instante,
urro irrequieto da Paranatinga inspiração,
Max/Age/Rubeniana do sêmen-verbo.

IV

Perdoem-me a parca grafia,
o rebolo afiado da véspera...
Perdoem-me o insosso tão suntuoso e desusado,
e por sabê-los “gumes” da nossa errante poesia.
Perdoem-me...
São tantos os poetas que admiro
(velhos e novos),
E crer nas suas nítidas parições
É crer nas suas fodas, porque são como gozos poéticos
que desvirginam a madrugada!
Ademais,
Perdoem-me, se, neste momento,
a emoção toma-me conta por inteiro...
Perdoem-me, se, escrevendo a vocês neste instante,
eu não consigo deixar de salgá-los...

Perdoem-me!
Sob um céu de doidas nuvens
vivo do que cunho e galo.
O dia está livre,
mas preferi a solidão.

Benny Franklin

Nota do Autor
a) Paranatinga – do poeta paraense “Rui Paranatinga Barata”;
b) Max - do poeta paraense “Max Martins”;
c) Age – do poeta paraense “Age de Carvalho”;
d) Rubeniana – do poeta sulmatogrossense “Rubenio Marcelo”.

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informações

Autoria
Benny Franklin
Ficha técnica
Fotografia digitalizada de autoria de "Anilson Teixeira" (um dos mais brilhantes fotógrafos brasileiros, adepto do clique em preto e branco), que gentilmente me cedeu esta pérola para ilustrar "O sal de cada dia..."
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Cintia Thome
 

Concordo Poeta Benny...Suas palavras bennyanas tem a navalha que delata a verdade de nós, mas outros Poetas as têm, como Rubenio Marcelo. Fico encantada com esta parceria, este rol de amigos e viva estes , todos como você diz de "fina estampa" ; Max, Age e Rui!Salve!

Protejam-se do vômito!
Desviem os olhos da mesmice verborrágica.
Ah! Cuidado com as falsas sombras poéticas,
que se apresentam como árvores de descanso,
mas por dentro são ferinos verdugos...
Tomem cuidado!... Afastem-se de mim
todos vocês que amam o açúcar!
Os poemas que continuamente vos deflagro,
são lâminas e não partilhas, são cortes e não harmonia;


"São cortes e não harmonia"
Quero merecer toda essa leitura! OS HF

Cintia Thome · São Paulo, SP 16/2/2008 20:07
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André Teixeira
 

Emocionas caro poeta!!!

De sua palavras colho verdades que, muitas vezes, vestem-me sentimentos e aflições... dos teus 'bolorentos poemas' tentar um fungo alucinógeno que se apresentam nas nossas idéias, agora incendiadas.

GRANDE abraço!!!

André Teixeira · Aracaju, SE 17/2/2008 13:54
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Regina Lyra
 

Benny,
Poema que traça o desegano com palavras, gestos...
Poema que reflete a desmotivação do ser humano.
Poema que grita e clama.
Parabens!
".....
Contudo... Se vós sois órfãos do papel,
revê-los cintilantes ante as sobras
das famintas palavras...
....."
Grande abraço,
Regina

Regina Lyra · João Pessoa, PB 18/2/2008 01:39
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Nydia Bonetti
 

Mais uma joia bennyana... Verde, frita e salgada...
bjo.

Nydia Bonetti · Piracaia, SP 18/2/2008 12:41
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Paulo Esdras
 

Joia nem um pouco rara para Benny. Abraços amigo

Paulo Esdras · Brumado, BA 18/2/2008 16:49
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Cintia Thome
 

maravilhoso sal nosso de cada dia...

Perfeito e mais que perfeito sempre

OS HF

Cintia Thome · São Paulo, SP 18/2/2008 22:29
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Cintia Thome
 

Tomem cuidado!... Afastem-se de mim
todos vocês que amam o açúcar!
Os poemas que continuamente vos deflagro,
são lâminas e não partilhas, são cortes e não harmonia;
porque sabe o dia, que não arredarei um palmo de mim
até que meu canto saia da pecaminosa
clausura do silêncio.


Poeta decidido, Tipo: Eu aconteço!

Fera Benny!

Cintia Thome · São Paulo, SP 18/2/2008 22:31
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Lígia Saavedra
 

Amado Benny, a tua poesia é impar e eu te amo por isso.

Bj

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 19/2/2008 20:36
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Adriana Costa
 

O dia está livre,
mas preferi a solidão.


Magnífico, Benny, como sempre!
Beijos e flores perenes @>--

Adriana Costa · Brasília, DF 19/2/2008 21:55
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Adriana Costa
 

PS: Rui Paranatinga Barata, Age de Carvalho, Max Martins (amoooooo), poetas que conheci a obra na nossa terrinha e Rubenio Marcelo: merecida homenagem a mestres @>--

Adriana Costa · Brasília, DF 19/2/2008 21:59
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Lili_Beth*
 

Querido Benny:

"O Sal de cada Dia..."

Muito bom!

Beijos_Meus*
*

Lili_Beth* · Rio de Janeiro, RJ 29/2/2008 15:21
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soninha porto
 

Benny prazer enorme conhecer este poeta de extrema profundidade, uau quando crescer quero ser igual a vc, belos poemas!

soninha porto · Porto Alegre, RS 1/3/2008 11:55
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Clóvis Luz
 

Benny, grato deveras por teu comentário sobre a III margem da vida; li esse poema e o declaro puro, no sentido de haver nele a angústia própria dos que buscam nas palavras a essência dos sentimentos. Se tens um blog, manda o endereço pra mim e adiciona o meu http://poesiamarginal-osapodavizinha.blogspot.com/.

Clóvis Luz · Ananindeua, PA 3/12/2008 10:31
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Clóvis Luz
 

Desculpe-me a falta de clareza. Li o teu poema (é o quis dizer quando afirmei: li esse poema. Abraços fraternos.

Clóvis Luz · Ananindeua, PA 3/12/2008 10:32
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