Quando a gente deita, a cabeça na grama, ouvidos atentos à conversinha das formigas, acaba descobrindo segredos maravilhosos. Foi assim que conheci a história de amor do Chico Formigo e a elefanta Elefonice.
Tudo começou às margens daquele famoso rio que ele, tão pequenininho e sem saber nadar, não podia atravessar. Sentava-se pensativo num talo de matinho procurando solução para seu problema quando a terra começou a vibrar em ritmo de rock balada.
Era Elefonice, dançarina emérita ensaiando novos passos que se aproximava. Como todos os dias, vinha tomar seu banho, florzinhas enfeitando a cabeça, perfume de alecrim e macela nova enchendo o ar à sua volta.
Claro que ele a enxergou primeiro, nesse caso tamanho é documento. Precisou gritar:
- Hei! Olha aqui embaixo! Ó, de cimaaa!! Olha eu aqui, não erra o passo!
Por fim, entre uma música e outra, ela fez uma pausa mais prolongada e escutou a vozinha de elástico esticado, olhou o nanico tão diferente do Chico Elefante Buarque, seu sonho de fantasias românticas. Esse era pretinho, cheio de perninhas e antenas, mesmo assim atacou na hora a música mais melosa do Roberto Carlos (meio cafona a Elefonice, afinal, fugida de circo, dá-se um desconto). Pimba! Paixão súbita e avassaladora, contra tudo e contra todos, ficou roxinha de amor na hora. Quando ele pediu carona, não vacilou, fez da tromba um elevador e colocou-o nas costas.
O rio era largo, elefantes andam devagar, elefantes dançantes ainda mais e balançam, às vezes dão um passinho para trás, para dar um breque. Elefantas apaixonadas aumentam os volteios, fazem arabesque e tudo que tem direito. Formigas são ligeirinhas, não têm muita paciência, só param para conversas rápidas e de serventia através de sua linguagem antenal.
Ficou assim: embaixo, elefanta bailosa, em cima, andante formigo e com espaço até para fazer cooper. Elefonice começou a suar suor de amor ao sentir a carícia leve e pontilhada dos pés do Chico. Ele foi envolvido pela nuvem cor-de-rosa da transpiração apaixonada da elefanta. Não deu outra: paixão também.
A partir deste dia foram conversas compridas à luz de vaga-lumes, teatros, cinemas e, principalmente longos passeios do Chico no lombo da Nice, ele abreviara para esse apelido carinhoso que fazia cócegas no ouvido dela.
A paixão foi crescendo, se retorcendo e virou amor, daqueles batutas, amor para o que der e vier. Resolveram que, apesar das fofocas das cotovias e dos pardais, dos gritos de – Escândalo! – da siriema, se casariam.
Conselhos ouviram muitos, avisos que tico de formigo jamais satisfaria elefanta e que a traição seria iminente. Tudo em vão. Eles fecharam os ouvidos e puseram mão na mão sem essa nem aquela. Juntaram os trapinhos, da Elefonice eram trapões, ao som do "Bolero de Ravel".
Na noite de núpcias, batalhões de mosquitos espiões postaram-se junto à casa dos nubentes. Encontraram tela em todas as entradas nem uma frestinha esquecida, assim, ninguém viu, mas todo mundo ouviu o gozo em si bemol da Nice.
Nunca puderam entender, nem em se passando vinte anos, nas noites que o si bemol enchia o ar, como isso podia acontecer. Só o Chico e a Nice sabiam que ele cabia direitinho dentro dela, caminhava por lá com seus pezinhos de veludo, fazendo cosquinha que terminava no infalível si bemol.
Mas, e para o Chico? Como era?
Quer coisa mais gostosa que bater punheta dentro da elefanta amada?
Vana Comissoli
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!