O segredo de Mary Câmara
A luz do poste acende o lado externo do velho casebre no suburbano bairro do interior paulista. Mary Câmara dependura em seu pescoço de mulher gostosa, uma possante e moderna câmera Yashica. Antes de sair para a viela, a mulher ajeita os espartilhos por debaixo do vestidinho justíssimo. Remexe suas partes a sentir na pele das coxas uma dorzinha prazerosamente provocante e suportável. Ela geme baixinho para não despertar a avó Enriqueta que dorme no cômodo ao lado da sala.
Nos pés, os sapatos de salto-alto, tão afiados feito dois punhais. Sob inquietudes Mary remexe, ajeita o sutiã que aperta seus seios saltitantes. Parecem duas mangas-rosa maduras a balançar sob a ação dos ventos. Dois melões de carne amotinados sem promessa de fuga do sutiã que tenta aos fracassos cobrir partes privilegiadas do harmonioso corpo da mulher morena.
Mary liga a câmera, maquia-se diante do espelho, filma o seu rosto assimétrico de traços que remetem ao gélido semblante de um hambriento conde drácula. A mulher dobra os joelhos, agacha-se e geme baixinho de uma dor mais forte causada pela pequenez da calcinha que justifica a voluptuosa comissão de trás. Atributos em maiúsculas dos quais só poderiam ser escritos naturalmente por páginas femininas. Ela passa batom nos lábios, sorri um sorriso enorme de boca inteira para a lente da câmera. Os cabelos longos deveriam ocultar seus belos ombros. No entanto, com perdão por toda redundância válida, tudo que o véu negro pôde, foi seguir suas curvas de paisagem generosa sustentada por pernas roliças.
Já passa da meia-noite, horas certeiras marcadas em um enorme relógio de parede dos anos cinquenta. Mary abre a porta movida dos cuidados próprios de quem não pretende ser notado. Conduzida de passos leves, ela caminha de modo desajeitado, confessa através das passadas a péssima intimidade que tem com àquele tipo de sapatos. A mulher fecha os olhos, se agacha e geme baixinho de uma dor suave. Sorri comedidamente antes de encostar-se no muro da casa de número setenta e sete. Ela posiciona a câmera ao chão antes de lançar uma pedra ao telhado do velho imóvel abandonado. Em poucos segundos surgem gatos de todas as direções. Mary simula um voo livre, beija o chão sob violento impacto. Abre a um pequeno pacote contendo fígados de galinha frescos e os espalha por sobre as partes do corpo, para que os gatos tenham um contato imediato com sua pele febril.
Os bichanos não demoram muito tempo para lambê-la da cabeça aos pés. Os animais agem de maneira tão voraz que arrancam pedaços inteiros do vestidinho ensanguentado. Aos poucos os animais vão desaparecendo junto às tais dores das intimidades corpóreas de Mary. Os felinos a lambem até que o seu corpo fique sem vestígios do fígado das penosas. Só então, Mary, de franga solta, levanta-se do chão a gemer como uma gata no cio. Empunha a sua velha câmera e filma a dispersão dos muitos gatos os quais tumultuam o telhado da casa de número setenta e sete. Mary filma a lua cheia que enfeita perfeitamente o céu estrelado da madrugada. Ela geme com a corrente de vento que chicoteia sem danos toda a extensão de sua pele relaxada, arrepiada de bem-estar cumprido. Mary filma a sombra de seu corpo projetada nas pedras do calçamento e se autocontempla desfigurada e despida das curvas características da mulher brasileira.
Os cães dormem, toda a vizinhança parece dormir àquelas alturas da madrugada. Mary sorri para o meio silêncio que envolve a viela. Ela irá dormir como se houvesse a certeza de ter sido contagiada com a sina de viver mais seis vidas além daquela. Pacifica e interiorana vidinha humana de solidão propositada. Nada de companheirismos, nem meninos, nem meninas. Na verdade, o que Mary queria é ser um bicho solto, povoar os telhados do mundo de bichanos sem dono. Vociferar gemidos estridentes pelas madrugadas sem a vergonha da qual os humanos produzem em si quando o outro arregala olhos e escancara ouvidos para colher dos podres que o alheio agrega a si mesmo. Tudo em nome da infeliz munição, proposta de apontar resquícios de que o pior do mundo se esconde por manias vizinhas.
Uma fantasia de mulher
Nossa Frank,
que conto, li-o de um folego só
Mary, uma gata, ou melhor uma felina,
desprovida de falsos pudores em busca de prazer,
afinal, os animais são autênticos e a povo é ignaro.
bjs
Maravilhoso!!! Daria belas cenas para um filme... Que mulher! Uma
gata no cio, gemendo de prazer, despudorada e pura como os animais. Fiquei aqui imaginando... se no lugar de gatos fossem cães... Votado
Beijos
Doroni,
querer é poder... ter. E a mulher é tudo que quiser ser.
Débora,
bom que aceitou ler. Gosto de escrever sensualidades, pois são elas que provocam reviravoltas...
;o
Ah, Greta! rsss Cães... É! Vou escrever algo assim pra ver no q dá.
Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 20/5/2009 13:01
Sereia gata...
Gostei, criação das tuas mais interessantes
e gostosas de se ler
bjubju
Sereia! vc disse, eu aceito.
bjo, bonita.
Vania, que bom q gostou do texto.
O prazer é meu.
Sem palavras duas ovas: eu tava escrevendo que eriçada fico de pêlo em pé e rabo baloiçante, quando esse pecê da piorra mandou meu retrato adiantado feito uma retardada que sou, mas não admito em público. e falava que rupiei porque si lembrei que as gatas na janela da vovó dão de dez nos gatos que lá se achegam e cantam... eu creio que aquilo é canto, tanto encanto é, a noite inteira.... um alarido de meu deus e minhas deusas, que sacode até a fé dos ateus e a toas como eu.... gostei di bolão e di botão, querido amigo Franck.
Feliz por voltar a ler tu.
E tomado da mais pura mulherice, que nem fêmea faria tanto por nós mesmas, ou poucas fazemos, eu sei.
E viajo.
Küsse.
Juli, até seus repetecos são bem aceitos poraqui, visse? Acho originalmente lindo, esse seu jeitinho de menina mulher sapeca. Né retardada de jeito nenhum, nem nunca será. Pelo contrário, é sempre inteligente e agradável prakaramba.
Juli, gosto tanto de mulher, que o meu lado feminino gosta de meninas. Quanto as fêmeas que fazem, digo: Existem algumas que não precisam dizer muito. É só ser quem são com a espontaneidade e a força terna e nada frágil que lhes são beckground.
De seu fã,
Franck
Sérgio Franck contista de primeira...
Muito bom... vi a o corpo da fêmea sendo acariciada pela lingua dos gatos...
Me vi sendo um delesss...
abs
Pra ler de um fôlego e sentir cansaço com a Mary.
Regina - poesia em volta · Volta Redonda, RJ 25/5/2009 10:39
Marcelo,
Valeu a lida. Agradecido. Eu também vi. Eu era um dos gatos e, aquele que lambeu por último. Prefiro gosto de pele ao sabor das visceras galinosas.
Regina,
É assim mesmo que é bom. Direto, fôlego só. Sobra mais oxigênio pra construir as imagens.
Du,
Que ótimo sÔ! Acabei de abrir seu blog. Vou revirá-lo.
a gente vai lendo ...se empolgando a cada linha.....
que louuuuuucura.
que deliiiiiicia de ler um conto assim.
me conta mais?
bjssssssssss;) felinos e fodam-se os vizinhos!!!
Conto, sim, Cláudia. Quantos queira.
Kkkkkkkkkkk..... gostei.
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