Somos paisagens. Somos árvores, paredes, céu, chão. Somos aquelas luzes amarelas noturnas que o viajante se depara ao longe, na estrada, olha para elas pela janela de seu carro e passa, indiferente.
Somos o trabalhador que anda pela rua, o velho sentado à porta de casa, a criança de pés no chão que esse mesmo viajante vê, igualmente indiferente, enxergando a todos apenas como elementos daquele cenário passageiro. Todos anônimos, iluminados pelas luzes amarelas.
E, para o trabalhador que anda, para o velho sentado e para a criança, também o viajante é apenas mais um elemento cenográfico - apenas um vulto pos trás do brilho da janela do automóvel. Mais um, entre tantos viajantes que passam todos os dias, sem nome, sem expressão, sem origem e sem destino conhecido.
Para o outro, todos somos paisagens, mas não aquelas dos cartões postais. Não estamos retratados junto aos monumentos, às praias e praças. Compomos as imagens do cotidiano. Somos o tocador de zabumba moldado por Mestre Vitalino, o mulato da colheita de café imortalizado por Portinari, a criança que solta pipa num quadro naiff, o trabalhador sem-terra de braços erguidos e foice na mão do retrato de Sebastião Salgado. Todos anônimos, elementos de um cenário, figuras de seu espaço e de seu tempo.
Somos uma peça, um adereço, como a cama, o guarda-roupa e a samambaia que compõem um lar. Somos o lugar que ocupamos. Rua, número, bairro, cidade, estado e CEP nos servem como uma segunda identidade. Diga-me onde mora e te direi quem és, o que pensas e como vives.
Nossas referências estão presas a quadrados. O quadrado de uma casa, de uma cidade, um Estado e, quiçá, de uma região. Somos as nossas bandeiras, quadradas. Somos o elemento-notícia do jornal local, igualmente quadrado.
Não, não encha o peito para dizer que somos cidadãos do mundo. Somos cidadãos da nossa comunidade, da sala quadrada dos nossos empregos. Podemos até mudar, mas só de um quadrado a outro, ou então ampliá-lo.
Estamos fechados, não em círculos, mas em quadrados, dividindo experiências e valores, entre as mesmas árvores e paredes, sobre o mesmo chão e sob o mesmo céu. E somente para aqueles que estão fincados no mesmo pedacinho de chão, dividindo conosco água, pão e ideias, é que somos seres individuais - com nome, história, personalidade e sentimentos - e não apenas elementos dispersos na paisagem.
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