Aos sábados, a campainha tocava às 08h45min. Ivan, sozinho no apartamento, demorava-se. Esperava o segundo toque, às 08h46min. Então se levantava vagaroso e abria lentamente a porta. Após os cumprimentos e mesuras, dizia, como sempre, há 15 anos:
“— Desculpe, Sr. Clayton estava terminando o banho”.
Isto não sem antes molhar bem os cabelos, despenteá-los e os ir enxugando enquanto falava. Em seguida, cintava mais o roupão de banho, toalha em volta do pescoço e mãos na cintura, um charme verdadeiramente. Ivan era um sedutor irresistível, seus belos cabelos negros semilongos, as costeletas bem definidas, retangulares, finas e compridas, o que fazia um contraste com o corte casual, sutilmente desordenado, flou.
Ele, o síndico, esboçava um gesto não se sabe de irritação contida, neutralidade ou indiferença ou todas, aliadas a certo olhar de lampejos rápidos, maléfico. Tudo veladíssimo. Era um homem derrotado. Em grande parte por não aceitar o seu próprio desígnio, seu desígnio de dentro e o que lhe viera com a vida. Ele vivia - como diz meu sábio pai - serrando serragem. Pena. Sua falta de resignação diante da falência de sua empresa de construção civil era amarga e contaminava todos os seus atos, por óbvio sua vida doméstica e a de sua vizinhança.
E então Ivan lhe dizia:
“— Sr. Clayton, não quer entrar um pouco?”.
Com aparente naturalidade, Ivan fazia esta pergunta. Sua corrosiva ironia dançava nos olhos vivos e pensava em como o síndico era ridículo com suas preocupações comezinhas. E aquela gestualidade enrustida! E a postura teatral! Queria o Clayton exibir uma superioridade da qual não dispunha nem por personalidade nem por história de vida.
Às vezes o síndico dava um ou dois passos soleira adentro. Jamais se sentara, em 15 anos, quando das suas visitas formais, olheiras, o rosto e o cabelo ensebados e o cheiro de gasolina (fazia manutenção do seu Fiat Uno, já bem sambadinho, aos sábados pela manhã). 52 sábados por ano durante aproximadamente 10 minutos de pé à porta de Ivan, incluindo os rituais todos, 780 sábados em 15 anos. Horas, de pé! Ele pensava que iria humilhar Ivan com essa atitude que se queria cerimoniosa e fria. Ivan percebia uma faísca de maldade cortante no olhar de uns olhos verdes feios, de sapo, e no beiço caído.
“— O senhor precisa entender, Sr. Ivan, que não trabalhamos com previsões, mas com provisões. A situação do condomínio é preocupante”.
Nada exclamativo, tudo dito com desídia. Entretanto, Ivan gostava dele. Havia algo de comovente no Sr. Clayton. Talvez o seu desejo de ser correto em tudo.
O síndico rolava na boca aquilo que ele considerava um achado verbal :... previsões... provisões.
Ivan se ria ao me relatar isso. Dizia-me:
“ - Olha aí, meu amigo, o tópico de tantas das nossas conversas: tudo é palavra! La vida es sueño. Calderón de la Barca grafou e fixou definitivamente o óbvio, e por isso é universalmente citado O que vale mesmo é a convicção de quem fala. Ou o modo como se escreve. O resto é com quem ouve. Ou lê”.
A bem da verdade, o Ivan, culto que fosse, possuía idéias com as quais eu não anuía. Mas nas questões de linguagem quase sempre concordávamos. E nada mais direi que deponha contra sua saudosa memória. Amigo meu não tem defeito. Muito menos amigo morto, que passa ao Olimpo, pura veneração. E, depois, ele fora um excelente jornalista, o melhor que já conheci, o que já é uma imensa vitória da lucidez contra a mediocridade da esmagadora maioria de seus confrades.
Mas foi assim que Sr Clayton ia mesmo em busca da taxa condominial – expressão que, particularmente, detesto. Detesto, aliás, qualquer taxa. Detesto tanto, que nem tomo táxi, pela semelhança da primeira sílaba com o morfema de base tax-. Apesar do quê, não se pode confundir /ch/ com /ks/. Mas isto é a verdade da língua, seus sons. Todo o resto é arbitrariedade. Com a linguagem é assim. Sou lingüista, diga-se logo, para evitar mal-entendidos ou mal-entendimentos.
Ivan sistematicamente atrasava o pagamento de suas contas, porém as pagava. Condomínio incluído. Não atrasava porque queria. Havia uma pessoa muito doente em sua família e com ela gastava quase todo o seu capital líquido, uma sobrinha querida e órfã, que vivia numa clínica particular em São Paulo, há anos. Esquizofrenia. Além do mais, as despesas de viagem, pois ia visitá-la com freqüência, sentia a sua falta e queria dar-lhe todo o seu carinho e atenção. Era como uma filha mesmo. Ivan tinha, além disso, dois filhos casados, todos dois fora, realizando seu Ph. D. na Universidade de Nova York com bolsa da Fullbright. Claro que havia, a despeito da bolsa, grandes despesas. E havia a pensão de sua ex-mulher, que padecia, pobrezinha, de transtorno bipolar do humor, compradora compulsiva na euforia, tragicamente paralisada na depressão, necessitava de medicação caríssima. Em qualquer dos pólos, Ivan despendia altas quantias, que a pensão não poderia dar conta.
Foi então que o Sr. Clayton resolveu convocar uma reunião de condomínio para que se deliberasse sobre o ônus fixo de um fundo de reserva. Isto é muito conveniente, acho eu. O Ivan também achava. O síndico comunicou a reunião extraordinária verbalmente.
Os demais condôminos? Incluíam uma mulher judia, cosmopolita, sensível, a Dona Sarah Beckmann; um Secretário de Estado, depois Ministro, o Dr. Ranulfo Taurino (um dos 12 obás de Xangô na casa de mãe Stella de Oxossi, yialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá); Marcus Vinícius Abrantes, que só aparecia nos fins-de-semana, para receber seus amigos, namoradas e ficantes; uma criaturinha amarga com ares de mulher exemplar, mas bem maluca, a Hannah Serena, que de serena não tinha nada - embora vivesse dizendo “eu estou sempre bem, Ivan, eu estou sempre bem”. Fora casada com um diretor de empresa financeira, o Marco Godinho. A sub-síndica era a mulher do Clayton, D. Arlete, uma portuguesa de meia-idade, bem labreguinha e mal-educada, bonitinha, engraçadinha, neurotiquinha. Acordava todos, nos finais de semana, com suas ordens ao zelador sobre a limpeza e os jardins.
O prédio: era “Jardim Atlântico”, situado num desses excepcionais morros da Bahia, capital. De um lado o Oceano Atlântico, com a imagem do Cristo baiano, o do Sermão da Montanha. Do outro, o U da Bahia de Todos os Santos. Um escândalo de beleza. Por isso Ivan permanecia ali.
Em conversa com a encantadora D. Sarah, desabafou:
“ - D. Sarah, não me importo com fofocas do “nó duro” deste prédio a meu respeito, sei que existem. Mas os atos arbitrários da corja terrorista, tirando Ranulfo, Marcus Vinícius e Dulcinéia (esta era a mulher do Ranulfo, em segundas núpcias, uma graça de pessoa) é insuportável. É pura mediocridade, falta de respeito, de educação doméstica mesmo, tudo banhado a paranóia claytoniana”.
Ela respondeu calmamente:
“ - Tenha paciência com eles, Ivan. Não são más pessoas. Uns e outros são traumatizados por perdas graves, das quais nunca se refizeram, perdas materiais, inclusive, como o Clayton”.
“ - Não se justifica, D. Sarah, todos nós sofremos perdas, a senhora então! E não ficamos amargos nem aborrecendo os outros”.
“ - Procure colocar-se no lugar deles, meu filho: você é bonito, bem nascido, culto, refinado, cabe a você perdoar, sem jogar a primeira pedra, como vocês mesmos, católicos, dizem”.
Ivan não agüentava mais a pressão. O Sr. Clayton deu de ir à casa de Ivan diariamente, com choramingos, o gogó instável e tremendo, os olhos vermelhos, excessivamente irrigados pela soturna irritação contra Ivan que o acometia então. Ivan quieto, olhar distante, lacônico, “não se preocupe, Sr. Clayton, afinal sempre pago”.
Um dia o síndico disse que, se pudesse, pegava uma metralhadora e matava todos os negros da Bahia! Estes mesmos negros salvaram o edifício de ser incendiado por completo devido a um curto-circuito no apartamento da Hannah, a ressentida.
E Arlete? Diante de um problema normal com os filhos de Ivan quando crianças, traquinagem de meninos, disse que “teve de levar Clayton para a varanda do fundo e acalmá-lo”, pois dissera que ia resolver no revólver. Isto foi em um São João, quando as crianças colocaram bombinhas numa lata e as explodiram na frente da porta de serviço de Clayton. Os dois detestavam crianças. Podavam todas as brincadeiras que estas arquitetavam com as do prédio vizinho, o “Morada Ipiranga”.
O fato é que com uma dívida já alta de condomínio, Ivan ainda teria de pagar o fundo de reserva. Decidiu levantar dinheiro no banco, com um empréstimo, para sanar a situação. Pronto, decisão tomada.
Foi quando resolveu tomar todas num certo sábado. O que era simples agastamento, tomou proporções cada vez maiores.
Na madrugada de 1º de dezembro de 1999, dia dos 15 anos de sua sobrinha, a Walkíria. Ivan certificou-se se D. Sarah, Marcus Vinicius, Ranulfo e Dulcinéia estavam fora (passavam fora o fim-de-semana com freqüência). Estavam.
Neste mesmo dia, escreveu um poema sobre anjos, que jogou pela janela como aviãozinho para a casa da vizinha da esquerda, Dona Maria da Assunção.
Colocou uma bomba-relógio na garagem do prédio para as 3:00h e foi dormir.
O seguro pagou regiamente aos familiares.
A mídia se deliciou durante dias.
Tenho muitas saudades do Ivan.
...um charme verdadeiramente. Ivan era um sedutor irresistível, seus belos cabelos negros semilongos, as costeletas bem definidas, retangulares, finas e compridas, o que fazia um contraste com o corte casual, sutilmente desordenado...
...Às vezes o síndico dava um ou dois passos soleira adentro. Jamais se sentara, em 15 anos, quando das suas visitas formais, olheiras, o rosto e o cabelo ensebados e o cheiro de gasolina (fazia manutenção do seu Fiat Uno, já bem sambadinho, aos sábados pela manhã). 52 sábados por ano durante aproximadamente 10 minutos de pé à porta de Ivan, incluindo os rituais todos, 780 sábados em 15 anos. Horas, de pé! Ele pensava que iria humilhar Ivan com essa atitude que se queria cerimoniosa e fria. Ivan percebia uma faísca de maldade cortante no olhar de uns olhos verdes feios, de sapo, e no beiço caído. ...
ótimo texto, parabéns.
depois eu volto.
Brida,
É por essas e por outras que ser sindico não vale a pena,
é só dor de cabeça,.
Ainda mais quando se tem inquilinos que gostam de
viver só de aparências.
E esse Ivan é pra lá de esperto.
bjs
Uau .......
O caraera meu "tocaio"
Um Ivan ligeiro...
beijo
Que dizer deste conto? GENIAL?
Não, ainda não. O elogio fácil, sem comprometimento, apenas para agradar, é uma hipocrisia e um pecado contra a autora. Então sejamos comedidos. Vejamos por que diríamos que este O SÍNDICO, da BRIDA, é genial,
A autora não pinta seus personagens: usa um buril. Não os descreve: esculpe-os, quase que com crueldade, com indiferença até, como convém a artistas do porte dela. Então, não me contenho, nada de ser comedido:
Um escândalo de beleza ESTE CONTO!
Conto excelente. Imagens várias se engalanam de forma bela. Bj
Juscelino Mendes · Campinas, SP 8/3/2009 00:04
W.Marques, volte sim, querido. Se possível - o que peço a todos, exceto a Doroni, talvez o mano tocaio ( xará, xarapa, xarapim, xera, xero, tocaio) - JULGUE o Ivan, este meu desconhecido... Beijo.
Xará, muito grata mesmo. Fale-me da "ligeireza" se possível. Beijo.
Ô, Onivaldo, obrigada! Que aleegria ler sua leitura! Grande abraço.
Ju mano, se tiver tempo, pode se deter um pouquinho mais? Eu gostaria muito! Beijo, filósofo inspirado!
Doroni, querida, observe abaixo. Particularmente, simpatizo mais com o Ivan:
O SÍNDICO:
Sua falta de resignação diante da falência de sua empresa de construção civil era amarga e contaminava todos os seus atos, por óbvio sua vida doméstica e a de sua vizinhança.
...ridículo com suas preocupações comezinhas. E aquela gestualidade enrustida! E a postura teatral! Queria o Clayton exibir uma superioridade da qual não dispunha nem por personalidade nem por história de vida.
Ivan percebia uma faísca de maldade cortante no olhar de uns olhos verdes feios, de sapo, e no beiço caído.
Um dia o síndico disse que, se pudesse, pegava uma metralhadora e matava todos os negros da Bahia!
IVAN:
Ivan sistematicamente atrasava o pagamento de suas contas, porém as pagava. Condomínio incluído. Não atrasava porque queria. Havia uma pessoa muito doente em sua família e com ela gastava quase todo o seu capital líquido, uma sobrinha querida e órfã, que vivia numa clínica particular em São Paulo, há anos. Esquizofrenia. Além do mais, as despesas de viagem, pois ia visitá-la com freqüência, sentia a sua falta e queria dar-lhe todo o seu carinho e atenção. Era como uma filha mesmo. Ivan tinha, além disso, dois filhos casados, todos dois fora, realizando seu Ph. D. na Universidade de Nova York com bolsa da Fullbright. Claro que havia, a despeito da bolsa, grandes despesas. E havia a pensão de sua ex-mulher, que padecia, pobrezinha, de transtorno bipolar do humor, compradora compulsiva na euforia, tragicamente paralisada na depressão, necessitava de medicação caríssima. Em qualquer dos pólos, Ivan despendia altas quantias, que a pensão não poderia dar conta.
todos nós sofremos perdas, a senhora então! E não ficamos amargos nem aborrecendo os outros”.
... escreveu um poema sobre anjos, que jogou pela janela como aviãozinho para a casa da vizinha da esquerda, Dona Maria da Assunção.
Brida,
Eu devia ler o texto uma segunda vez.
Nosso Ivan até que não é o IVAN, "O Terrível" e sim o IVAN,
" O Magnifico", sobrou pro sindico amargo e besta, sem noções de cortesia e solidariedade.
bjs
Seu conto e principalamente a descriçao do Ivan,me lembraram muito as historias de BARBARA CARTLAND que lia muito qdo adolescente e adorava
Parabéns Brida,amei
Brida, linda escritora poetisa, i sabe que é.
Seu texto é um espelho que nos ajuda a entender a vida e a nós mesmos. Somos todos sindicos e inquilinos nesse planeta ainda azul, e ha alguns que ate a morte se poe de luto.
às vezes em que da medo viver... entender o outro é tão complexo.
“ - Procure colocar-se no lugar deles, meu filho: ..."
não é facil. Tenho saLdades de mtos IvanS.
bjssssssss;) belo dia, bela mulher.
Esse texto é o embrião de um romance minha cara! a CONTRAMÃO DA DIREÇÃO!
raphaelreys · Montes Claros, MG 8/3/2009 19:13
Doroni linda, obrigada por sua atenção! Beijo.
Claudiiiiinha! Você é D+. Parabéns pelo seu / nosso dia. Beijo.
Raphael, obrigada. Vou pensar no próximo romance. Tenho 2 inacabados: Os Escombros da Cidade e Meu Pé de Pau-Brasil. Vamos ver... Beijo.
Brida
Parabens
Andre Luiz Mazzaropi
O Filho do jeca
www.andreluizmazzaropi.com.br
Ngm merece ter um inquilino assim!!!
Belissimo conto; rico em detalhes que saboreei com prazer!!!
Bjoss e votos!!
Querida,
eu tive enorme prazer em ler o seu texto; degustei-o; senti-o na linha dos contistas extraordinários. Todavia, infelizmente, não tenho tempo para expressar toda a sua beleza por aqui.
Um bj
cheguei um pouco tarde, mas deu tempo para degustar mais uma vez das maravilhas que vc escreve, vc é minha inspiração, doce inspiração. Como você é boa no que escreve e pelo jeito também como pessoa
Ecila Yleus · Recife, PE 11/3/2009 14:43Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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