Fazia duas horas que eu estava parado na República com a João Alfredo. Um copo de cerveja na mão. Todo mundo a minha volta já não fazia mais sentido, todos só giravam, riam e falavam coisas que não entendia e nunca entenderei. Saí em busca de um sonho, o sonho porto-alegrense. Sem pensar no sentido disso tudo. Fui atrás, eu e meu irmão - na verdade, ele só é alguém muito parecido comigo - pelos bares, pelos bordéis, pelas ruas e pelas pessoas. E como fomos acabar assim, selvagens e beirando o retardamento mental? E, ainda por cima, nem perto de sonho algum.
O relógio nem marcava três horas, o sol forte, e eu já sentado num bar, na Rua Riachuelo, sozinho. Esperando meu suposto irmão, irmão para aquela tarde, noite e madrugada, para qualquer coisa, por uma simples semelhança. Tomando uma cerveja e ouvindo. Ouvindo se escutava o sonho, atrás de pistas, de respostas. A atendente, simpática e com um olhar um pouco vesgo, me serviu mais um copo, e paguei os cigarros de antes. Um grupo de homens; velhos na verdade, sentados a minha frente tinha um jornal largado no canto da mesa. Eu pedi emprestado. Talvez se eu me informasse um pouco mais, se eu soubesse o que está acontecendo em Porto Alegre eu achasse o sonho rápido. Li boa parte do jornal. Nada. O preço do feijão tinha subido 185%, um monte de gente que eu não conhecia tinha morrido, e agora não as conhecerei e nada de sonho algum. Nada. Algo gritava dentro de mim, algo berrava. VAMOS BEBER.
Um outro homem chega, e se aproxima dos que estavam ali. “Olha só, comprei esse pepino. Foi só três reais e noventa e cinco centavos. Tá trinta centavos mais barato que semana passada. Eu queria levar um carrinho cheio, mas não tenho mais espaço no porta-malas”. E na mesma sacola do pepino havia uma garrafa de vodka, que retirou e entregou pra dona do boteco. Aqueles velhos senhores devem vir muito aqui. Não eram os donos, com certeza. O que estranhava é que eles não pareciam decadentes. Usavam bons ternos, sapatos novos e celulares que nem imagino tocar. Talvez estes só fossem bêbados comuns, com grana, e sem muita alma. O Mano chegou, terminamos a cerveja, comprei mais uma carteira de cigarros, só pra garantir, e partimos.
Descemos até à Salgado Filho e continuamos pela Senhor do Passos. No meio do caminho paramos num sebo, o Mano tinha um livro escolar velho e queria vendê-lo. A atendente olhou, virou, conferiu a data, olhou para sua colega com uma cara de interrogação, riu para nós. Ela não parecia saber o que estava fazendo. Passou mais um tempo, e disse: “Três reais”. Vendido. Pegamos o dinheiro, dava para mais uma cerveja. Alfredo, o meu suposto irmão, me olhou e sugeriu que fôssemos a um puteiro, o sonho podia estar por lá. E foi o que fizemos. Chegamos a uma casa de dois andares, com uma fachada vermelha e preta, o La Bohéme. Ficamos na frente por uns minutos, com vergonha de entrar. Havia muita gente passando e nenhum de nós queria ser o primeiroa se aventurar. E nenhum de nós estava bêbado da maneira como queríamos. Criamos coragem, o mano foi na frente, e entramos. O andar de baixo estava fechado, então subimos a escada. O lugar era totalmente deprimente, putas de calcinha e sutiã desfilavam com suas barrigas caindo. Sentamos numa mesa no canto e pedimos uma cerveja. Na nossa frente um homem negro meio gordo e com um bigode enorme nos encarava. Ele era um delegado de polícia, com certeza. Ou pelo menos era o que eu achava. Talvez fosse nossa risada lisérgica, nosso olhar desvairado ou nossa selvageria. Ele não poderia fazer nada, estava tão errado quanto nós. Isso era uma sensação boa, me sentia bem, feliz. Então, o Mano me olhou e disse: “Acho que estamos mais perto do sonho”. Não sei o porquê, mas rimos feitos dois idiotas diretos de um filme de Lars Von Trier, nossas gargalhadas ecoavam pelo lugar, e só eram abafadas pelo som tenebroso da banda Calypso.
Achei que iríamos ser expulsos. Na verdade, tinha certeza, e estava adorando a idéia. Tudo foi frustrado quando um homem chegou junto à mesa do delegado e junto de mais um homem comum e sem graça na nossa frente. Ele usava um jeans tão desbotado que estava branco, e uma camisa azul com uma estampa indecifrável com três botões abertos, aparecendo os pêlos do peito. Gritava sem parar. “Querem uma cerveja?”. “Cadê as gostosas?”. E caminhava de um lado para outro. Ficava no bar e a cafetina local tentava manda-lo sentar, sem sucesso, sempre. Ele usava um mullet, e tinha o cabelo encaracolado. Parece o Erasmo Carlos, comentou meu irmão. Parecia mesmo. O Tremendão atacava novamente. Ele dava seu show, dançava, e a cada passo um botão se abria. Dançava somente para as putas. Era só ele e elas que estavam lá, ocasionalmente lembrava de seus amigos e gritava: “Querem uma cerveja?”. Eles nunca queriam, estavam envergonhados. E ele trazia mais uma mesmo assim, nem sempre gelada. Girava e rodopiava. Parecia saber de algo, de algum tipo de sonho, mas era impossível chegar perto do Tremendão, ele só queria a mulheres. Não havia mais nada para nós lá. Exceto se ele trouxesse uma cerveja para nós, podia ser quente. Nós não teríamos vergonha, de modo algum. Não seria possível, eram muitos pares de tetas balançando para ele notar nossa terrível sede. Tremendão só viu nossas costas saindo pela porta.
Caminhamos mais um pouco, agora em direção a outro prostíbulo, um não, um prédio cheio deles. Entramos logo no primeiro. As mulheres ficam na grade das portas como animais no zoológico, chamando todos que passavam, só que aqui era não só permitido, como obrigatório alimentar os animais. Sentamos num banco duro e desconfortável, um cheiro estranho entrava nas narinas e roubava os pensamentos. Uma mulher loira, gorda, com um lingerie uns três números menores que o dela, sentou-se a nosso lado e começou: “Vocês são irmãos, não é?”. Olhei para o Mano, e ele retribui com um gesto de total indiferença para o que eu fosse fazer, então, com a mão dela em minha coxa e o olho no meu irmão, mentimos. “Olha a gente pode fazer uma orgia, trinta por garota, e os dois podem fazer as duas. É uma boa, não?”. Não, aquela não era uma boa idéia, e na verdade, não conseguia pensar em idéia pior do que aquela. Engoli a seco o nojo, com um poço de cevada, claro, e resolvi abrir o jogo, mas pedi pra ela trazer outra cerveja antes, é claro. Foi, voltou e nos serviu. Tomei um gole e comecei a explicar que nós éramos jornalistas fazendo uma matéria, estávamos em busca do sonho porto-alegrense. Não sei se ela fingiu ou não – nunca soube dizer quando as mulheres fingem – mas demonstrou um grande interesse. Ficou uns dez minutos falando conosco. “A população precisa se revoltar, ir para as ruas e reclamar de tudo isso que ta acontecendo”. Ela não parecia ter muita noção do que dizia, mas dizia com paixão e com um jeito sexy, ou pelo menos, o que ela acreditava ser sexy. Era nossa puta revolucionaria, não muito diferente de Che Guevara. Esse não era um bom lugar para estar, não porque as mulheres eram feias, isso até era bom. Mas o ambiente estava me sufocando.
Fomos subindo as escadas, o prédio tinha quatro ou cinco andares, cada andar uns três bordéis. Todos pareciam jaulas. Nenhum dava vontade de entrar, além do mais a cerveja era muito cara: sete reais. Chegamos até o último andar, e na porta havia uma faixa: “HOJE, 6H DA TARDE, SEXO AO VIVO!”. Entramos. Logo na entrada havia um som e junto dele mais música ruim. Eu procurei pelo gerente. Apontaram um sujeito com cara de novo, inocente, imaginava um velho com sérios problemas de dinheiro e saúde ou uma velhinha com jeito de quem já foi gostosa e só gostosa, nunca teve nada e o nada que teve perdeu, mas não. Ele usava aparelho e tinha um olhar perdido. Seu nome era Alex. Fui falar com ele. Cheguei e pedi licença e disse que tinha que fazer umas perguntas para ele. “Já sei o que é... Quer cocaína? Não tem agora”. Não, eu não queria cocaína agora, por mais interessante que a proposta parecia ser. Eu queria um desconto na cerveja e foi o que consegui. Um real, nada muito exagerado, mas eu não estava em condições de lutar por mais. Sentamos num sofá velho, e pedimos um cinzeiro. Eu e meu irmão fumávamos um atrás do outro, e isso que ele não fuma regularmente, esse era um ocasião especial, esse era o dia do sonho. As meninas pareciam dementes feitas para o sexo. Qualquer objeto elas esfregavam na sua boceta e olhavam para os que ali estivessem com uma cara de tarada demente, na verdade era só tudo muito patético. Uma televisão na parte superior da parede mostrava um filme pornô. Um homem e uma mulher. Normal. Um cuspia no outro e sussurravam: “Me fode gostoso”, “rápido”, “devagar”, “fundo”, e não mudavam disso. Horrível. Faltava meia hora para o show, o Mano perguntou que horas iria começar e responderam que só começaria se lotasse. Não estávamos com sorte. Só o mano, um louco que não falava coisa com coisa e eu, só três retardados sem vida para estar ali. Não havia muitas esperanças que o show realmente acontecesse. Pedi mais uma cerveja. Sentei para esperar o show, ou qualquer coisa parecida.
Seis horas e nada. Apenas uma vendedora de produtos de beleza chegou com uma sacola cheia de diversão para as meninas. As prostitutas olhavam, cheiravam, liam os rótulos, trocavam entre si e, é claro, esfregavam tudo o que podiam no meio das pernas, com suas caretas assustadoras. Era hora de ir embora. Fazia muito tempo que essa hora tinha chegado.
Não havíamos comido nada desde o meio-dia, e como nenhum de nós – eu e o Mano – somos, exatamente, magros a fome estava batendo. Descemos a Alberto Bins, em direção à Independência ( bonito isso, mas é somente uma rua), mas no meio do caminho meu irmão quis ir ao banheiro. Estávamos na frente do Hotel Plaza São Rafael, parecia um bom lugar para se dar uma mijada, com certeza seria limpo. Entramos com um pouco de vergonha. No bar alguns tomavam café, outros vinho e pouquíssimos bebericavam champanhe com classe. O contraste com o ambiente anterior era enorme, não havia nenhum sinal de sonho, todos eram corretos e contentes demais. Enquanto Alfredo urinava, eu, já bem mais a vontade, sentei numa poltrona confortável, folhei uma revista que nem vi sobre o que era, tirei um telefone, que estava ao lado da poltrona, do gancho e disquei para minha namorada. O telefone não funcionava, não consegui linha, mas, na verdade, eu não funcionava mais, estava selvagem, doente. Notei alguns olhares de reprovação de um gerente ou algo do tipo. Desviei o olhar e esqueci daquele sujeito com o nariz tão grande que quase cobria o lábio superior. A atividade no banheiro estava completa. Fomos embora, e aquele olhar de reprovação ficou cheio de lágrimas. Era a felicidade, não haveria luta no saguão. Pelo menos, não com dois homens grandes, bêbado e com pupilas do tamanho de uma bola de golfe.
Nossa barriga ainda roncava, e chegando à Independência (ou morte) fomos atrás de um supermercado, comida barata e sem gosto. Não chegamos lá, o Bambus chegou antes. Sentamos e pedimos uma cerveja. “A mais barata, por favor”. A sensação de tomar uma cerveja por três reais, após tantas de seis ou sete, foi como ganhar uma Olimpíada, só que um pouco melhor. Só tomamos uma, a fome nos venceu. Chegamos a um mercado, na mesma rua, daqueles meio vagabundos. Chegamos e fomos direto à prateleira dos vinhos, graças a Deus, nós não fomos fracos. Pegamos o mais barato, um litro e meio, garrafa de vidro. Aquele vidro poderia trazer problemas, alguém poderia morrer ou se ferir gravemente, então fomos sensatos o suficiente para ir atrás de um vinho com garrafa de plástico. Sem contar, é claro, que o preço não estava justo. Passamos por um stand de provas. “Olha, provinha, comida de graça”, gritou Alfredo. Era iogurte de ameixa. Muito saudável, muito ruim. Fizemos cara de nojo e fomos embora acompanhados das caras de nojo de todos os clientes e funcionários. Na saída uma senhora com uma cara simpática e cheia de compras nas mãos disse: “Vocês são gêmeos?” – concordamos com a cabeça – “Que legal que vocês andam juntos. Que amor”. Aquela velha que parecia a avó do Homem-Aranha e tinha o mesmo apelo sentimental, merecia uma ajuda. Eu agarrei as sacolas de um lado e o Mano de outro. “Nós te ajudamos”. A expressão dela mudou, achou que fosse um assalto ou algo assim. É fácil entender, estávamos com os olhos esbugalhados, exalando álcool por cada poro do nosso corpo e andando feito dois pingüins com gastrite. Andamos mais rápido e sumimos.
Descemos em direção do Zaffari do bairro Bom Fim. No meio do caminho achamos um armazém que devia ter uma grande coleção de vinhos baratos. Procuramos bem e achamos. Eu tentei um desconto, mas o atendente ficava dizendo que não tava na mesma viaje que a minha, mas eu retruquei. Disse que jamais contaria para ele onde estava, nem o que era o sonho porto-alegrense. Abrimos a garrafa, tomei um gole e depois o Mano, que disse que aquele vinho devia durar umas três ou quatro horas, caso contrário estaríamos perdidos. Fomos caminhando e encontramos o supermercado. Sentamos no banco do ponto de táxi. Taxistas sabem o caminho para todo o tipo de lugar, desde as melhores mulheres até as melhores drogas. Eles podiam saber onde estava o sonho. Então perguntei. Um por um riu de mim, ou perguntou se era uma boate, um bar, mas nenhum sabia. Uma senhora estava passando pelas nossas costas e meu irmão a questionou sobre nosso sonho. Ela sentiu medo, apertou o passo e dobrou a esquina. Bebíamos nosso vinho como se nunca tivéssemos bebido nada na vida, como dois animais. Logo ele acabou. Menos de meia hora. Era hora de reabastecer, fizemos o caminho inverso e compramos outra garrafa, e fomos bebendo até o mesmo ponto de táxi, até que Alfredo derrubou um pouco na camisa, e começou a gritar enfurecido. Duas meninas passavam e ele perguntou se dava pra ver o vinho na camisa dele. Responderam que não. Então ele apontou. “Aqui, olha!”. Agora sim elas viram e confirmaram o que ele suspeitava e, no fundo, sabia: estava sujo. Segurou os cabelos com a mão e os puxou para cima num gesto desesperado. Não tive o que fazer, só ri, ri até não poder mais, ri tanto que ele começou a rir comigo. Rimos até um senhor, com uma camiseta do Jornal Oi, passar. “Onde fica o sonho porto-alegrense?”. Ele sorriu e, pela primeira vez, alguém que não fosse obrigado, nos escutou. Ele disse que não sabia direito o que era, mas que vivia ele todo o dia. Ganhava a vida pela internet. Disse que ganhava muito dinheiro e que em dois anos compraria uma caminhonete Volvo. Ele parecia saber das coisas. E começou a nos explicar como fazia o seu trabalho. Digitava num teclado inexistente à sua frente, com onomatopéias e tudo. Explicou por horas, mas era só mais uma pessoa louca que nós encontrávamos. Nada fez sentido, e o pouco que pudesse fazer não tínhamos a capacidade de entender. Nós também poderíamos fazer o que ele faz. Quatro horas por dia, era só acessar web empregos e pronto. Nada faz sentido. Não éramos só nós dois os loucos nas ruas de Porto Alegre.
Não entramos no Zaffari. Não comemos. Somente continuamos a caminhar. Toquei num interfone de um prédio, um número qualquer, e perguntei pelo sonho. Desligaram na minha cara. Resolvi repetir em todos os edifícios, mas dizendo que eu era um jornalista sério a trabalho. Nada. Só desligaram na minha cara. Ninguém mais respeita o jornalismo, será que eu mencionasse meu vertente gonzo adiantaria? Acho que não.
Caminhamos pela Rua João Telles até o bar Ocidente. Eu fiquei um pouco atrás e meu irmão viu um grupo que parecia saber algo, eles olhavam dvd’s e discutiam sobre eles. Cheguei junto ao grupo, expliquei que aquilo não passava de uma matéria jornalística, e que nosso estado deplorável era pura imaginação da cabeça deles. Eles riram alto e de um modo muito afetado, não sei se de mim, o que não fazia a mínima diferença. Um deles, de cabelo encaracolado, óculos, e uma cara de nojo, que estava na minha frente disse: “Este aqui é o artista plástico famoso Cho. C-H-O, Cho”. Eu ri, mas ri deles. Era uma conversa animadora, de um lado eu os achava ridículos, do outro eles me achavam patéticos. Cho, o grande artista, disse que achou o sonho dele, que realizou muitas coisas que queria e um monte de coisas que não fazem a menor diferença. Ele era legal e tudo mais, só não precisava de apresentações calorosas. E eu não precisava deles.
Atravessamos a rua e fomos sentar para relaxar, beber, fumar numa pastelaria. Pedimos uma cerveja para ajudar o vinho a descer. Meus cigarros acabaram e comprei outro. O garçom era um sujeito legal, ninguém iria querer dois tipos como nós num bar, ainda mais, no início da noite. Eu entrei para ir ao banheiro e me dei conta: era hora de comer. Gritei para meu irmão se queria um pastel também, ele concordou e gritou de volta que queria de carne. Fiz o pedido. E mais, sugeri que ele não nos cobrasse, pois aquilo era uma reportagem jornalística muito séria e que o nome da pastelaria dele iria aparecer na matéria. Ele não concordou. Eu ainda insisti mais um pouco e nada de ele ceder. E eu tentei mais. “Imagina a publicidade que é o nome do teu estabelecimento numa matéria tão grande e importante como essa”. Ele perguntou sobre o que era. “Estamos atrás do sonho porto-alegrense”, respondi. Ele riu e me mandou sentar para esperar os pastéis. Eles estariam debitados na conta.
Estávamos sentados sem objetivo, a noite ainda estava por começar. Até que uma ligação nos salvou. Conseguimos entrar de graça num bar. Chegamos à frente do bar como linhas brancas e rápidas pela escuridão porto-alegrense. Podíamos entrar, mas como iríamos beber? O dinheiro era um problema, não podíamos ficar sem beber. O último gole do vinho eu acabara de derrubar sobre minha camisa numa comemoração ridícula. Mexemos alguns pauzinhos e pronto, poderíamos beber algumas cervejas de graça. Entramos, havia um show cover de Chico Buarque e a platéia era clássica para esse evento. Um mar de tênis All-Star, camisas xadrez e listradas, as mulheres com maquilagem excessiva e tudo que Chico tem de direito ou de fardo. Comecei a perguntar a todos sobre o sonho porto-alegrense, alguns riam, outros me davam bebidas – os que eu mais gostava – e um me disse: “O sonho porto-alegrense é um grenal empatado em oito a oito. Todo mundo sairia feliz”. Tomei um gole da cerveja dessa pessoa e virei as costas. E a música rolava no fundo, e idas periódicas ao banheiro atraiam um multidão, e todo mundo parecia se sentir bem, riam, bebiam, fumavam, cheiravam, era uma vida boa, talvez, até, uma pequena parte de um sonho. E roda viva; roda-gigante, e todo mundo rodava a minha volta, roda moinho; roda pião, roda o mundo todo comigo num só gozo bêbado, como moscas de bar, o tempo rodou num instante, e eu rodava junto com tudo sem saber o porquê, nas voltas do meu coração, e eu me perdi.
Cansei de tudo aquilo, de todas aquelas pessoas e caminhei para outro lugar em busca de uma carona para casa. Ainda tinha um pouco de dinheiro, não sabia como. Queria comer mais alguma coisa. Queria sair desse sonho. Queria cair na cama. Parei numa esquina e peguei uma cerveja. Fiquei com este copo, e muitos outros falando, com pessoas estranhas, mesmo as que eu conhecia.
Fazia duas horas que eu estava parado na República com a João Alfredo. Um copo de cerveja na mão. Todo mundo a minha volta já não fazia mais sentido, todos só giravam, riam e falavam coisas que não entendia e nunca entenderei. Saí em busca de um sonho, o sonho porto-alegrense. Sem pensar no sentido disso tudo. Fui atrás, eu e meu irmão - na verdade, ele só é alguém muito parecido comigo - pelos bares, pelos bordéis, pelas ruas e pelas pessoas. E como fomos acabar assim, selvagens e beirando o retardamento mental? E, ainda por cima, nem perto de sonho algum.
E tudo que senti foi como uma mosca de bar.
Reportagem sobre o sonho porto-alegrense com um grande vertente gonzo.
Raphael,
Li com toda atenção essa reportagem sobre o sonho-portoalegrense, na esperança que vcs. o tivessem encontrado.
Fiquei curioso sobre o que na verdade vcs. pensavam que fosse esse sonho.
Muito bom!
Abraços
Bom, na verdade nem sei se existe esse sonho.
E se existir... sei lá...
Obrigado,
abraço!
Raphael,
Sempre existe um sonho, não importando onde nem quando.
Abraço,
Votado!
Mas O sonho, nunca...
essa é a graça de tudo...
Abraço.
Ps: Por favor, comentem, bem ou mal... Não me importo com crítica alguma!
é de um bela e de luz própria.votei.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 24/7/2008 12:10A conclusão é de que não existe sonho? Que acordados só sonham os poetas e não chegam a lugar nenhum senão à dúvida e à insatisfação? Uma narrativa quase buckovisquiniana.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 24/7/2008 17:17
Rafael,
Interessante!
Enfim, cade o sonho?
Me parece que esse sonho foi uma cochilada de bebado,
tão comprido que quase desisto de ler na metade.
Mosca de bar não sente nada, só fica voando. Isso! vc estava voando!
bjssssss
Vale a pena falar de um sonho.
Um bj
com o VOTO CERTO.
Sílvia.BH.MG.Brasil
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