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O TELURISMO EM OVÍDIO SARAIVA A PARTIR DE “POEMAS”

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Cláudio Carvalho Fernandes · Teresina, PI
24/1/2011 · 8 · 0
 

Amostra do texto

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS
DISCIPLINA: SEMINÁRIO III
ALUNO: CLÁUDIO CARVALHO FERNANDES


O TELURISMO EM OVÍDIO SARAIVA A PARTIR DE “POEMAS”


UFPI
Teresina – 2002

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS
DISCIPLINA: SEMINÁRIO III
ALUNO: CLÁUDIO CARVALHO FERNANDES


O TELURISMO EM OVÍDIO SARAIVA A PARTIR DE “POEMAS”

UFPI
Teresina – 2002

SUMÁRIO


INTRODUÇÃO
I - UMA POSSÍVEL INJUSTIÇA HISTÓRICA E LITERÁRIA 6
1. Dados sobre a vida e obra do autor 6
1.1. Cronologia Biográfica 6
1.2. Bibliografia 6
II - CONTEXTO HISTÓRICO: ENTRE A CRUZ E A ESPADA 8
2. O desenvolvimento político que levou à Independência do Brasil 8
2.1. O Brasil pós-Independência 9
III - CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A POÉTICA DE OVÍDIO SARAIVA
OU COMO SOBREVIVER COM A PRÓPRIA ARTE 10
3. O estilo de época 10
3.1. Características 11
CONSIDERAÇÕES FINAIS

SINOPSE

Este trabalho fornece subsídios para uma leitura heterodoxa da poética de Ovídio Saraiva, relacionando aspectos que a crítica tradicional não tem levado em consideração na análise da obra do primeiro escritor piauiense com livro publicado. Neste sentido, faz-se uma apreciação de elementos configuracionais que determinariam uma noção positiva da ligação do autor de “Poemas” à sua terra natal, o que tem sido até então minimizado pela maioria dos que se têm ocupado com publicações relativas ao trajeto histórico da literatura no Piauí

INTRODUÇÃO

O presente trabalho trata da observação da obra literária de Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, considerado o primeiro poeta piauiense, objetivando a identificação de elementos caracterizadores da influência ou reminiscências da nacionalidade brasileira na obra deste escritor, acusado sempre como alguém que teria relegado a sua condição natural em troca de concessões lusitanas. Na evolução primeira desse aspecto, pretende-se, também, fornecer informações sobre a poética do autor, em consonância com seu contexto histórico e ambientação literária, uma vez que tal é ainda um ilustre desconhecido no próprio meio piauiense. Tais considerações literárias são reconhecidas através do estudo conexo de diversos autores acerca dos seus fundamentos teóricos, permitindo a identificação de semelhanças e singularidades na obra de Ovídio Saraiva, a partir de seu primeiro livro, evidenciando-se suas características específicas.

Divide-se tal trabalho em duas partes: na primeira, dá-se ênfase ao aspecto teórico-histórico que envolve as diversas apreciações relativas ao aspecto contextual geral e literário da época em que se insere a obra do poeta, considerando-se as análises pertinentes de renomados autores sobre as temáticas da evolução do quadro político luso-brasileiro e árcade, e privilegiando-se, em paralelo, a posição pretensamente crítica adotada no curso deste estudo. Em seguida, aborda-se a atividade de observação direta de elementos que, extraídos dos próprios textos de Ovídio Saraiva, possam configurar a hipótese de trabalho que se operacionaliza segundo a leitura em conjunto da obra, relacionando-se o aspecto prático à evolução teórica anterior.

Este trabalho contou com o preliminar levantamento bibliográfico disponível, seguindo-se de leitura e observação da atividade literária do autor em foco, selecionando-se suas intervenções na direta relação com o tema constante nesta pesquisa e confrontando-se as perspectivas críticas dos autores envolvidos, além de aportes suplementares diversos, como pesquisa na internet e anotações em sala de aulas.

A importância de se estudar a participação poética de Ovídio Saraiva encontra-se patente no desenvolvimento teórico de uma reconceituação de sua expressão literária que procure situar os aspectos positivos e as limitações deste autor, para habilitar à compreensão das condições e exigências do processo histórico-literário que envolve a sua obra.


UMA POSSÍVEL INJUSTIÇA HISTÓRICA E LITERÁRIA

Para a perfeita observação da hipótese de trabalho que adiante se vai expor, é importante que se relacionem as seguintes informações:

1. Dados sobre a vida e obra do autor

1.1. Cronologia Biográfica:

1787 – Nasce, na vila de São João da Parnaíba, Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, filho de Antonio Saraiva de Carvalho e Margarida Rosa da Silva.
1793 – Aos seis anos de idade teria sido enviado, pelos pais, para iniciar seus estudos, em Portugal.
1805 – Matricula-se no curso de Direito na Universidade de Coimbra.
1808 – Publica, em Coimbra, na Imprensa da Universidade, seu livro de estréia, Poemas.
1811 – Conclui o curso de Direito em Coimbra.
1812 – Retorna ao Brasil, sendo nomeado juiz da cidade de Mariana, em Minas Gerais.
1821 – Eleito representante do Piauí junto às cortes constitucionais de Lisboa, renuncia ao mandato, assumindo o suplente, Pe. Domingos da Conceição.
1852 – Falece, a 11 de janeiro, na cidade Barra do Piraí, Estado do Rio de Janeiro.

1.2. Bibliografia:

1808 – Poemas. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra.
1808 – Ode pindárica e congratulatória ao Príncipe, à Pátria e à academia, pela restauração do governo legítimo, Coimbra.
1809 – Narração das marchas feitas pelo corpo militar acadêmico desde 21 de março em que saiu de Coimbra, até 12 de maio; sua entrada no Porto.
1812 – O patriotismo acadêmico.
???? – Os sucessos da restauração do Porto (s/d)
1812 – O pranto americano.
1821 – O amigo do rei e da nação.
1826 – Às saudosas cinzas do Sr. João do Canto Mello, Visconde de Castro, elegia.
1831 – Ao grande e heróico 7 de abril de 1831, hino.
1837 – Considerações sobre a legislação civil e criminal do Império do Brasil.
1840 – Heroides de Olímpia e Herculano.
1872 – Defesa de João Guilherme Ractclif.

São importantes, segundo a visão deste trabalho, as datas de 1793 e de 1805 a 1811, que configuram o aspecto modelar externo, a aparência (não a essência) da obra de Ovídio Saraiva, objeto de más interpretações de críticos que não lhe souberam associar as perspectivas conjuntas de ambientação político-ideológica e coerção social do meio em que vivia, além de subestimarem a própria poética do autor.

CONTEXTO HISTÓRICO: ENTRE A CRUZ E A ESPADA

2. O desenvolvimento político que levou à Independência do Brasil

Em 1799, Napoleão Bonaparte assumiu o poder na França. Seus projetos industrialistas e expansionistas o levaram ao confronto direto com a Inglaterra. Por isso, em 1806, determinou o Bloqueio Continental: o continente foi proibido de manter relações com os britânicos. Isto afetou diretamente Portugal. Ameaçada de invasão, a Corte do Regente D. João retirou-se atabalhoadamente para o Brasil. Pressões inglesas e brasileiras o levaram assinar a abertura dos portos, em 1808, pondo um fim no Pacto Colonial. Era o domínio inglês. A vinda da Corte para o Rio de Janeiro teve como uma das suas conseqüências principais, além da submissão portuguesa à Inglaterra, a precedência do Brasil em face de Portugal, o que despertou ciúmes na antiga Metrópole.

Por essa época conturbada, Ovídio Saraiva publicava o seu primeiro livro, Poemas, em terras portuguesas, tendo que conviver com a possível ojeriza a brasileiros por parte dos lusos. Tal conjuntura talvez explique o porquê de algumas publicações do poeta piauiense, manifestando apoio às causas portuguesas, como forma de equilibrar sua situação face a eventuais hostilidades.

Mas os Tratados de 1810 selaram de vez o domínio inglês. E o Brasil foi elevado a Reino Unido de Portugal, em 1815. Esta submissão de D. João a Londres irritou profundamente a burguesia lusitana, pois a independência do Brasil em relação a Portugal parecia inevitável. Mesmo a repressão joanina aos republicanos da Revolução Pernambucana de 1817 não bastou para aplacar a ira de Lisboa.

Assim, em 1820, a Revolução do Porto implantou a monarquia constitucional e D. João VI voltou a Portugal. Aqui deixou o Príncipe D. Pedro como Regente. Formaram-se duas agremiações rivais: o Partido Português, desejando a recolonização do Brasil, e o partido brasileiro, da aristocracia, da qual fazia parte Ovídio Saraiva. Em 1822, por duas vezes, D. Pedro foi intimado a retornar: em 9 de Janeiro deu a decisão do “Fico” e a 7 de setembro, o “Grito do Ipiranga”. Nascia o Império.

2.1. O Brasil pós-Independência

A monarquia brasileira consolidou-se de forma crítica. A marca do 1º Reinado foi a disputa pelo poder entre o Imperador Pedro I e a elite aristocrática nacional. O primeiro confronto deu-se na outorga da Constituição de 1824. Durante o ano anterior as relações entre o governo e a Assembléia Constituinte foram tensas. Enquanto a maioria “brasileira” pretendia reduzir o poder do Trono, os “portugueses” defendiam a monarquia centralista. O desfecho foi o golpe da “noite da agonia”: a Constituinte foi dissolvida. D. Pedro, então outorgou a Constituição que seus conselheiros elaboraram e fortaleceu-se com o Poder Moderador.

A reação veio na revolta da Confederação do Equador, em 1824. A repressão custou a vida de expoentes liberais, como Frei Caneca. Neste mesmo ano os E.U.A. reconheceram o Brasil livre. Mas o reconhecimento português e inglês só vieram após intricadas negociações que geraram a dívida externa. Em seguida, Pedro I envolveu-se na questão sucessória portuguesa e na Guerra Cisplatina, perdendo o Uruguai.

Em 1830, as agitações resultaram no assassinato do jornalista de oposição Líbero Badaró e na “noite das garrafadas”, entre lusos e brasileiros. Foi a crise final: no dia 7 de abril de 1831, a abdicação de D.Pedro encerrou o 1º Reinado.

Para esta data, Ovídio Saraiva compôs o hino Ao grande e heróico 7 de abril de 1831. O clima que então reinava no Brasil era francamente lusófobo e manifestava-se, na expressão trabalhada de Ovídio Saraiva, que compôs a primeira letra da música que seria o Hino Nacional do Brasil (Anexo A), a comoção popular que de igual inspiração fez surgir os versos finalizadores do Anexo B

CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A POÉTICA DE OVÍDIO SARAIVA OU COMO SOBREVIVER COM A PRÓPRIA ARTE

3. O estilo de época

O estudioso Afrânio Coutinho, comentando sobre o movimento arcádico, informa que, além de um caráter democrático, a Arcádia, o cenáculo intelectual que deu origem ao termo Arcadismo, teve uma tendência supernacional. É importante relacionar, neste ponto, tal aspecto à então futura poética de Ovídio Saraiva. O movimento de reforma literária e lingüística irradiou-se em filiais pelos diversos reinos e cidades da Itália e em numerosos países estrangeiros, que se denominaram “colônias”. O domínio da “Última Flor do Lácio” foi uma delas.

Da Itália, o movimento arcádico passou a Portugal e ao Brasil. Empenhado que estava Portugal , no séc. XVIII, numa reação anti-castelhana, inclusive como reação paralela à restauração da independência, o movimento arcádico encontrou boa acolhida, instalando-se com a Arcádia Lusitana (1756-1774) que reuniu escritores de renome como Antônio Dinis e Correia Garção. Houve, ainda, a Nova Arcádia, no final do séc. XVIII, de que foram membros Bocage e José Agostinho de Macedo.

Lígia Cademartori diz que, como tendências da produção literária da época, além do próprio Neoclassicismo e o Iluminismo, acrescenta-se o Arcadismo, evocando a vida pastoril como alternativa saudável para uma vida que o desenvolvimento das cidades tornou intranqüila.

Ainda segundo a mesma estudiosa, a fantasia poética da época devia regular-se, sempre, pelo entendimento racional e pelas regras da natureza, entendida como cosmos, ou seja, como a relação harmônica de todos os elementos, modelo de equilíbrio que a arte deve reproduzir.

A originalidade, que será tão valiosa para o romântico, não tem valor para esse poeta para quem a conformidade com o modelo antigo constitui-se em motivo de orgulho, pois os clássicos são considerados vencedores de uma prova infalível: a admiração da posteridade.

Na época, os temas clássicos, mitos e histórias antigas constituíam uma linguagem universal, com ressonância assegurada por parte de um público que, sendo leitor, tinha recebido uma formação humanística constituída por elementos da cultura greco-latina.

A tônica da obra neoclássica é o decoro, o que implica ausência de profundidade. O estilo é elegante e superficial. Tanto em relação à ambientação externa – como a paisagem – quanto à interna – sentimentos e emoções – o neoclássico não desce a profundezas. A paisagem é aberta e tranqüila; a alma humana não apresenta surpresa nem mistérios. A natureza, entendida na acepção ampla de cosmos, que tudo engloba, é o próprio equilíbrio.

O Neoclassicismo é o estilo de uma burguesia que está surgindo na Europa setecentista, como fruto de transformações econômicas, políticas e sociais. Classe em ascensão, a burguesia começa a se apoderar dos meios de cultura, pois, enquanto no século anterior significava uma parcela muito pequena do público interessado em arte e cultura, passa a ser, no século XVIII, a classe que mantém a cultura.

3.1. Características

A hipótese de trabalho do presente texto é a de que, premido pelas circunstâncias de se encontrar em um país e sociedade que se mantinham numa postura de ascendência política sobre a sua pátria, o poeta Ovídio Saraiva não pôde expressar abertamente seus vínculos afetivos para com esta, mas o fez de forma subliminar, transferindo para a imagem da mulher toda a caracterização simbólica dos laços telúricos que o uniam ao seu país de origem, laços estes que aos poucos foram se manifestando ao longo da vida e atuação do literato e homem público.

Tal consideração encontra respaldo no Soneto LXV, o penúltimo da série, que contém referências à própria existência concreta do escritor, ao que se devem somar, além do segundo quarteto do Soneto LXII (em que o autor queixa-se de ter sido arrancado de sua pátria), a profusão de musas, podendo isto significar que tais musas não corresponderiam nem mesmo a uma concepção de mulher idealizada mas se traduziria na relação, existente em várias culturas, segundo a qual a mulher e a terra se equivalem (como geradoras da vida, no mito da fertilidade).

As críticas que se fazem a Ovídio Saraiva não atingem a sua qualidade como poeta, mesmo porque um de seus mais percucientes analisadores, João Pinheiro, comentando a poética ovidiana, nela encontra qualidades duradouras para o caracterizar como um poeta de valor. Quanto aos seus encômios e louvaminhas, estes podem ser atribuídos justamente à situação de estrangeirado, explícita no texto “Os bacharéis na política – a política dos bacharéis”, em anexo, vivida pelo escritor piauiense em terras portuguesas.

Assim, há que se observar, na consideração de que a imagem da mulher representaria a própria pátria distante, o número significativo de musas de que o poeta se utiliza (no mínimo, 13), evidenciando uma inconstância não presente em outros autores do mesmo estilo de época.

As musas invocadas pelo poeta são Lília (em 7 vezes), Megália (2 vezes), Corina (1 vez), Marília (6 vezes), Anália (4), Alcina (7), Marcina (2), Francina (1), Ritália (2), Célia (4), Filinta (1), Nise (1) e Sendália (1 vez).

Além de tal fato, também contrariando uma característica do estilo de época, as situações “vivenciadas” na grande maioria dos poemas (principalmente nos sonetos) retratam uma condição de sofrimento, geralmente o distanciamento ou morte (outra forma de distanciamento, qual o exílio) entre amantes, que não condiz com a temática plácida dos poemas árcades nem com a relação harmônica de equilíbrio assinalada por Lígia Cademartori, no contexto do estilo literário.

Exemplo de tal característica singular é o

Soneto XI

Que horrenda Solidão! os troncos tremem
Ao rábido empurrão de roucos Ventos;
De um lado, e de outro lado a noite atentos,
Sepulcros Mochos nas cavernas gemem.

Ondas ao longe solitárias fremem
Nos cavados rochedos corpulentos;
Tremem os montes aos Trovões violentos;
Uivam os monstros, que atros males temem.

Baços fantasmas pavorosos erram
Por aqui, por ali, na terra triste
Chovem mil Raios de alta mão tremenda.

Medos, que o mundo aterram, não me aterram:
Como já sob a campa Anália existe,
É-me grato o pavor da noite horrenda.

Outros exemplos: no Soneto XII, lê-se “Que afáveis dias desfrutei outrora,/ Quando Célia, o meu bem, me foi constante!... E [agora] toda a natureza me parece / “Campas, Sepulcros, hórridos lugares.”; no Soneto XXXIII: “Desejo que a tristeza, o horror, desgosto, / Cujo fel, cuja dor sobre mim chove, ... Aqui jaz um Pastor: Filinta ímpia / Foi, foi quem lhe apagou da vida o norte:”; no Soneto LI: “Célia, Célia, meu bem, despreza embora / Um terno coração, que te assegura / Guardar a teu amor a fé mais pura,”.

Também podem refletir a relação entre musas e adversidades como distanciamento da pátria os sonetos V (página 35 da 2ª edição, último terceto), XVI (página 46, 2º quarteto), XVII (página 47, último quarteto), XX (página 50, 1º quarteto e 1º terceto), XXI (página 51, 1º quarteto), XXIV (página 54, último terceto), XXVI (página 56, último terceto), XL (página 70), LII (página 82, último terceto), LIII (página 83, 1º terceto) e LIX (página 89, 2º quarteto e 1º terceto).

Outro aspecto digno de menção é a aparente recorrência do número 6 em textos do autor como se tal número (o de sua idade quando foi levado do Brasil para Portugal) tivesse ficado marcado indelevelmente no íntimo do poeta, surgindo, espontânea ou intencionalmente, em vários pontos do livro “Poemas”, nos seus versos e mesmo em sua estrutura. Assim é que o 6 aparece 6 vezes em um total de cinco sonetos (XXI; XXVIII; XXXV, duas vezes, neste; LIX e LXII), o número total de sonetos é 66 (como se revelasse uma possível cisão na formação da personalidade do poeta, ocorrida na mudança de um país para o outro, em tal idade em que foi para Portugal), as odes aparecem em seqüência de 12 (6+6), separadas de uma outra que aparece isolada por poemas diversos e, posteriormente, também separadas desta por outros poemas, outras seis odes, estas anacreônticas.

O número de tais ocorrências parece ser muito alto numa única obra para que sejam apenas coincidências sem maiores significações. Caberá à pesquisa futura de interessados nas origens da literatura piauiense examinar com mais atenção todo o trabalho poético de Ovídio Saraiva para confirmar ou não tais primícias de investigação teórica.



CONSIDERAÇÕES FINAIS


Do que foi exposto, permanece, no mínimo, a dúvida sobre se teria ou não Ovídio Saraiva preocupações de ordem telúrica ao compor pelo menos alguns dos poemas que já aparecem no seu primeiro livro como indícios de tais considerações. É sobre essa dúvida que devem trabalhar as pesquisas relativas às origens da literatura no Piauí. O certo é que não se pode duvidar da qualidade do escritor piauiense enquanto poeta, mesmo que, por um motivo ou outro, o que se espera tenha sido esclarecido, não haja composto uma obra explicitamente voltada para as coisas de sua terra.

Também é igualmente viável tratar da literatura piauiense em suas origens sem menosprezar, sob o risco de equívocos, quem, por força das circunstâncias históricas e literárias, não elaborou um discurso poético além das possibilidades de seu tempo, sem deixar de expressar , no entanto, em várias passagens de sua obra, uma temática que ultrapassou o âmbito do imediato para firmar-se como o que havia de universal, a seu modo, sob as circunstâncias específicas de tempo e espaço em que se desenvolveu sua poética.


Bibliografia consultada


CADEMARTORI, Lígia. Períodos literários. 8ª ed. Série Princípios, Editora Ática, São Paulo, 1997.

ENCICLOPÉDIA BARSA. volume 02. Encyclopaedia Britannica Editores Ltda. Rio de Janeiro, 1975

NETO, Adrião José. Literatura Piauiense para Estudantes. 2ª edição. Teresina. Edições Geração 70, 1997.

PINHEIRO, João. Literatura piauiense; escorço histórico. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1994.

SILVA, Ovídio Saraiva de Carvalho e. 1787 — 1852. Poemas, Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva. Estudo bibliográfico e atualização de textos de Fabiano de Cristo Rios Nogueira, Maria Gomes Figueiredo dos Reis, Maria do Socorro Rios Magalhães, Maria do Perpétuo Socorro Neiva Nunes do R Apresentação de M. Paulo Nunes — 2ª ed. Teresina, UFPI, 1989 (Coleção Re-viver)

SILVA FILHO, Herculano Moraes da. Visão histórica da literatura piauiense. 3ª ed. Teresina, Academia Piauiense de Letras/Hércules, 1990.

Sobre a obra

Este trabalho fornece subsídios para uma leitura heterodoxa da poética de Ovídio Saraiva, relacionando aspectos que a crítica tradicional não tem levado em consideração na análise da obra do primeiro escritor piauiense com livro publicado. Neste sentido, faz-se uma apreciação de elementos configuracionais que determinariam uma noção positiva da ligação do autor de “Poemas” à sua terra natal, o que tem sido até então minimizado pela maioria dos que se têm ocupado com publicações relativas ao trajeto histórico da literatura no Piauí

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informações

Autoria
Cláudio Carvalho Fernandes
Ficha técnica
Trabalho universitário, para a disciplina Seminário III, do curso de Letras (Português e suas Literaturas) da Universidade Federal do Piauí, 2001
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