O tema a esmo

Pepê Mattos
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Pepê Mattos · Macapá, AP
1/6/2007 · 21 · 7
 


Distante som de um lugar qualquer
poderia entrar agora
nesta sala cheia de rostos díspares;
vulto nenhum foi visto nos corredores,
nem viv’alma perambulava
nos canteiros à hora
em que se retiram as luzes do dia
e se anuncia o esplendor da noite.

Eu poderia ter somente meu inamovível
e, assim mesmo, insolente banquinho
do jardim como companhia nesta noite
que me fere o sono.
Contudo, atirada na relva, a garrafa amiga
ainda guarda intacta
metade do vinho que me acende a alma.

Poe e Baudelaire brincam por entre
as plantas rasteiras que circundam a casa
fingindo espanto com as sombras deformadas
que saem das lâmpadas no sopé
dos postes laterais.

Destarte, eu ainda pertenço a mim
e a este mundo que me tem em sua redoma
de lágrimas.
Muito embora as lágrimas aqui descritas
nada mais sejam que simples palavras ao acaso.

Baixo os olhos
e os vultos parados ali a me olhar
esperam inertes que os expulse.

Já é tarde, enfim.
A festa acabou. E a noite em que me vejo assim
não é a mesma noite em que meninos e meninas
nas ruas, em suas tenras e ingênuas idades,
nada mais são que números em formulários
de pesquisa.

Onde o aviso das trombetas dos anjos que não ouvi?
Meus ouvidos entupidos de vil metal derretido nada ouvem.

E vão-se explicações sem que ninguém as peçam.
E vão-se também meus sonhos embalados
pelos acordes dissonantes
dos uivos da noite:
a mesma noite que me tem em pedra sabão esculpido.

Esta, então, é a derradeira noite
em que sentado num banco de pedra,
eu, em pedra sabão esculpido,
ponho-me a olhar o céu
que não me devolve o olhar
perdido que está em algum lugar
desta noite que me fere o sono.

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Pepê Mattos
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PEPÊ, meu camarada... bela foto dos jardins de nossa infância. Rapaz, magnífica inspiração, o poema vai discorrendo devagar, a divagar na noite que se faz dia. Muito interessante... faltou a autoria da foto e o local também, se V. não se importa.
Faltou ainda um S em rostos e gostaria de "discutir" o verbo no plural em... "ninguém as peçam" já que o sujeito da expressão é, salvo engano meu, NINGUÉM. Filólogos e gramáticos de plantão apresentem-se para a chamada.
Pepê, em matéria de poesia V. vai longe! Abraços. "NATO" AZEVEDO

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 28/5/2007 19:48
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Pepê Mattos
 

Nato, prazer em te conhecer. E obrigado pelo "camarada". Legal que tenha gostado do "Tema..". Olha, ainda não estou 100% por dentro de todos os recursos do Over. A autoria da foto (não sei se fiz certo ou se foi suficiente) aparece quando o cursor é posto sobre ela. E o local foi os jardins do meu local de trabalho, o prédio da Navegação Aérea, do Aeroporto de Macapá. Mas acho que posso sanar isso. Valeu pela observação da falta do "s" em rosto. Quanto a "peçam" penso que faz concordância com "as explicações". Na minha concepção cairia bem. Mas como você disse, vamos esperar que apareça algum mais entendido pra ver se concorda comigo ou com você ou com a própria Gramática, rsrs. Abraços.

Pepê Mattos · Macapá, AP 29/5/2007 08:14
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Andre Pessego
 

Pepê, desculpe-me a indelicadeza, mas nem me deu tempo de ler, estou lhe parabenizando só pela fotografia, um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 29/5/2007 20:29
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
 

PEPÊ, estou prestigiado no Over... meu voto vale 4 pontos. Mas teu poema vale muito mais, é uma pequena obra-prima e, sem a menor intenção de te bajular, fosse eu cineasta aproveitaria o texto para um curta-metragem de impacto e expressividade. Me informe quando outros trabalhos seus forem para votação. Ah, entro somente hoje com o soneto sobre doação de orgãos. Conto com sua apreciação e opinião. Abraços, "NATO" AZEVEDO

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 30/5/2007 20:09
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carlos magno
 

Amigo Pepê, estou passando rápido por aqui, mas vendo teu nome, parei apenas para votar em ti, depois voltarei para ler direito. abraços.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 30/5/2007 22:33
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Cida Almeida
 

Menino, completamente capturada pela força da sua poesia. Fiquei extática, com o coração na mão, a contemplar a escultura desse jardim movediça da sua alma. Esbarrei em Poe e Baudelaire, que também contemplavam, naquela cena clássica, uma cidade vista do alto... No caso, um jardim...

Abraços.

Cida Almeida · Goiânia, GO 31/5/2007 11:42
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Pepê Mattos
 

A. Pessego... valeu a visita. Você não foi indelicado. Suas palavras de incentivo já dizem tudo. Abraços.

Nato, meu velho/novo amigo, você tem verve inata. Se eu vou longe, você vai mais além. Vou apreciar e dar meu teco no teu conto, pode esperar. Abração...

Grande Carlos, sua presença é muito bem vinda. Fique à vontade. Abraços...

Cidinha, que lindo tuas palavras. Poe e Baudelaire adorariam brincar com você. Beijos...

Me sinto honrado por suas visitas.

Pepê Mattos · Macapá, AP 31/5/2007 12:39
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