| Havia a ruptura, as dúvidas,
Quando | a anticonjuntura, a esperança,
tudo |desejos flambando na densidade
começou |hiperbólica das (im)possibilidades
| e também uma pitada havia de angústia(r)
Receita do "Projeto Raul Do Que?!" (do que mesmo?), ou talvez apenas os passos para uma esquizofrenia intempestiva socialmente aceita, mas ainda assim uma receita. Que ateste o filósofo ermitão, receitas marcam um padrão, e esse padrão é sem receita. Prefiro chamar de prontuário.
Bem, chegou a hora de cultivar minha horta de dúvidas nesse latifúndio de incertezas que é a vida. A teleologia de si mesmo que se expande numa hecatombe egoísta e acaba por romper com esse ser cartesianamente dialético que nos fazem acreditar que somos.
E já corríamos nos ponteiros de 26 de março quando a expansão começou, sem rompimentos, o desertor me abraçou e repetiu :
"Vai nessa rapaz, te desejo toda a sorte do mundo", eu sou um maldito azarado, daqueles que só por precaução jogam um anti- concepcional na privada antes de gozar nela, por isso qualquer "boa sorte" é sempre absolutamente bem vindo.
Ele saltara a poucos segundos do banco da frente daquele Golzinho antigo verde-musgo de "Seu Alceu", me deixou um sorriso de perdão estalando entre nosso natural magnetismo de velhos amigos maconheiros, acenou pausadamente, virou as costas e partiu para o centro de Curitiba selando sua escolha.
Há pouco mais de quatro horas e meia antes de Rodolfo abandonar definitivamente nosso plano conjunto, chegávamos à BR 376 que liga Ponta Grossa a capital do Paraná. Eu carregava meu fardo “Trilhas e Rumos” de 20,5 quilos no lombo, além de pesadas incertezas que tive medo de colocar na balança e por isso apenas as suportava da maneira menos estúpida possível, resignado. Rodolfo levava em sua mochila, surrada durante quatro anos de "aulas" de jornalismo, cinco quilos de roupas, livros e entre as meias a leve certeza de que estava tomando a decisão correta.
Era um dia interessante para tentar carona, o sol estava tímido atrás de uma cortina espessa de nuvens ainda mais espessas, vento sossegado para leste e nenhum maldito pingo despencando do céu. Aquilo era o universo conspirando numa macabra ironia: duas horas depois de gastarmos os polegares no acostamento da 376 sem nenhuma boa alma para nos acolher eu já começava a acreditar que Rodolfo estava certo – desertar antes da batalha é mais digno do que ser vencido por ela; mas quem liga pra dignidade, eu mando a minha descarga abaixo a cada vez que o mundo me faz cagá-la de medo -. Só pensava no porque de três casais de urubus estarem sobrevoando nossas carcaças nos últimos 25 minutos, algo certamente fedia dentro de mim, eu mesmo podia sentir, mas certamente eles acreditavam menos em nós que nós mesmos. Talvez Rodolfo e os urubus estivessem certos e realmente não fosse o melhor momento para colocarmos em prática o "Projeto Raul Do Que?!", nossa alucinada idéia de praticar aquele jornalismo que nos apaixonou, afinada durante meses de muita maconha e Ronnie Von, pipoca com ovo e Screw Jack, e ainda fazê-lo funcionar nesse esquizofrênico mundo do mercantilismo da informação: viajar pela América do Sul de carona – mas não sejamos ortodoxos – com uma barraca como ninho e escrever reportagens no meio dessa patacoada toda não é algo assim tão simples.
O tempo passava a passos apressados e por isso decidimos nos separar: Rodolfo caminhou duzentos metros adiante e dessa forma oficializamos o divórcio, daqui pra frente era cada um por si, e sem frescuras de litígio. Mas, novamente, não sejamos ortodoxos, quase não acreditei quando cinco minutos depois o Golzinho de “Seu Alceu” diminuiu a velocidade e contornou à direita parando a poucos metros de mim.
“Opa, ta indo pra onde?”, perguntei assim que a porta se abriu.
“Fazenda Rio Grande”.
“E isso é onde?”.
“Pra frente de Curitiba”.
“Opa, me leva até Curitiba?”
“Entra aí”.
“Escuta, tem lugar pra mais um? Meu amigo tá ali na frente e também tá tentando ir pra capital, já estamos a mais de duas horas e meia aqui”. Ele pensou por quatro segundos e topou. Acenei para que Rodolfo corresse até o carro e logo estávamos cortando a 80 por hora os tons amarelo-oliva dos arredondados morros dos Campos Gerais.
Um representante de peças de 65 anos, pai de um maestro de 36, de um engenheiro mecânico formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), uma agrônoma que exerce os dotes de veterinária numa fazenda de vaca leiteira nos Estados Unidos, e da caçula de 20 anos que é apenas carinhosa e “cabeça de bagre”. “Seu Alceu” foi nosso último elo, para mim a fugaz segurança de ter o talvez melhor companheiro de viagem por 200 quilômetros, e a última amarga pincelada para Rodolfo no “Projeto Raul Do Que?!”, nomenclatura escavada por ele após um brain storm insano.
A voz seca e rouca de “Seu Alceu” competia com o som do vento raspando nos vidros laterais, ele tangenciava as curvas enquanto lembrava do tempo em que vestia a camisa 8 do Bugre, o Guarani de Ponta Grossa.
“A gente ia de trem jogar em Paranaguá, três horas e meia, chegava lá em cima da hora”, o motor começou a reinar quando engatou uma terceira e jogou o Golzinho para a pista da esquerda deixando uma Scania atolada de soja pra trás. “Eu joguei a final do estadual de 1961 contra o Coxa, jogo difícil que a gente acabou perdendo”, mas o Coritiba escalara um jogador irregular, o que foi a carta na manga para que o Bugre entrasse na justiça e fosse autorizado a disputar uma partida contra o Grêmio em um torneio já extinto. “Foi uma sacola, eles faziam gol a hora que queriam, não era como contra os times daqui, foi um vareio, nem lembro o resultado da partida”.
Rodolfo dava a matiz da conversa, com sua desenvoltura simpática ia costurando perguntas pré-agendadas nas sinapses e ganhando a confiança do motorista, que, por sua vez, aproveitava qualquer ensejo para contar orgulhoso dos filhos, e também para lamentar que estes ainda não lhe tenham dado um neto. “A minha filha nos Estados Unidos ta com suspeita gravidez, iam fazer os testes hoje. Eu to com 65 anos e ainda não sou avô, meu irmão tem 58 e já tem netos”, mas não se pode esquecer que o irmão de “Seu Alceu” fugiu de casa aos 13 anos de idade com uma garota – futura esposa - da mesma idade, que com 14 já esperava o primeiro filho. “Pena que o bebê morreu com quatro dias. Mas aí aconteceu um negócio estranho: na volta do hospital, ali na varanda da casa deles tinha uma caixa de sapato, e um bebê recém nascido dentro, com uma cartinha dizendo nome, peso, idade e tudo isso”, uma menina que deu ao irmão de “Seu Alceu” o primeiro neto.
O papo seguia bem e Curitiba se aproximava, a cada metro mais além eu transpirava uma excitação apavorada, a overdose caótica de entusiasmo, medo, animação e desespero. “Seu Alceu” tirou a mão do volante e sacou um marlboro vermelho, antes mesmo de aloca-lo entre os lábios lembrou-se num leve sobressalto:
“Ah, algum de vocês fuma?”. Aceitei a oferta enquanto Rodolfo preferiu acender um black mentolado, também conhecido como charuto de moça, para acompanhar. Ao redor o cenário mudava, a serra ia ficando pra trás e aquele ar cosmopolita seguia impregnando o que restava de verde. Não que eu seja um daqueles senhores partidários da ecologia apocalíptica, mas também não suportaria um 69 com a tecnologia, sou um pouco careta pra essas coisas. “Seu Alceu” refletia sobre os tempos do Pelé, “jogava muito mais do que dizem por aí”, argumentava o parcial santista a medida que a fumaça escapava de sua traquéia para resvalar pelo vidro e desaparecer no vento. Assim como suas histórias. A janela semi-aberta servia de cinzeiro e meu cigarro suportaria apenas uma última tragada, por isso bati a cinza contornando a careca de Rodolfo para então sugar a nicotina pelo filtro, mas alguma coisa saiu errado. Não havia nicotina e Rodolfo começou a se debater gemendo da forma menos feminina que conseguia - grunhidos estridentes mas graves – logo depois que cruzamos pelo último posto da polícia rodoviária antes da capital. Ele batia nas costas e logo percebi a merda que eu havia feito, a brasa incandescente furou numa circunferência quase perfeita a camiseta do desertor, como uma aliança simbólica gravada a fogo. “Se eu não fosse seu amigo cobrava uma camiseta nova”, resmungou docemente Rodolfo quando a brasa rolou para o banco queimando o estofado. Um rombo do tamanho do primeiro terço do dedo mínimo, que só não foi maior pois “Seu Alceu” apagou-a no cuspe. “Que bom que você disse isso, Rodolfo, até pensei que ‘Seu Alceu’ e eu fossemos apenas completos desconhecidos”, pensei emputecido.
Poucos metros adiante o Golzinho reduziu e brecou já no acostamento, o motorista pareceu não ligar para aquele novo buraco adornando o banco do carona, ou fazia o possível para demonstrar isso. Rodolfo ficaria por ali, era hora de seguir sozinho, como um McCandless, mas sem aquele ar tolstoiano, nada daquela pureza moral e nem um pouco de auto-censura ética; meu negócio é com Stirner, Bukowiski, café e cigarro, mochila nas costas e Thompson no papel, talvez por isso o primeiro livro que escolhi para ler durante a viagem leve o titulo de “Como me tornei estúpido” – Martin Page. Ou talvez eu o tenha escolhido apenas porque era menor que um pocketbook e caberia facilmente na bagagem.
Rodolfo ficou, mais um fantástico jornalista em busca de subsistência. Como eu, ele toparia se vender por qualquer meio-piso, por um subemprego (in)dignificante e indiferente em todos os âmbitos que não tropece no financeiro. Nós seriamos muito mais dignos se não tivéssemos fome. Do retrovisor eu regurgitava meu momento melancólico, podia até ouvir os conselhos de meu pai na voz de Cat Stevens, “It´s not time to make a change, just relax, take it easy, you’re still young, that’s your fault, there’s so much you have to know”. Mas também lembrava dos versos da mesma décima música daquele simpático disco de 1970, “from the moment I could talk, I was ordered to listen, now there’s a way and I know that I have to go away, I know I have to go”.
“Só faltava dar um beijinho”, brincou “Seu Alceu” me transportando de volta ao Gozinho.
“Somos bons amigos, vou ficar um tempinho sem ver ele, mas agora tava pensando em outras coisas, isso vai ser difícil ‘Seu Alceu’, vai ser beeeeeem difícil, minha cabeça é um lixo tóxico”, sorri já prevendo que aquilo não faria nenhum sentido para ele.
“Vou te deixar aqui na saída pra 101, é só você seguir reto por essa entrada que dá na estrada pra Florianópolis”.
“E isso quer dizer que também vai pra Joinville?”, acenou positivamente.
O carro encostou em frente a um matagal, puxei meu fardo de 20 quilos pra fora, acoplei meu chapéu na careca e bebi um gole de água antes de prender o cantil sobre a mochila.
“Tchau “Seu Alceu’, muito obrigado pela carona e perdão pelo banco”.
“Fica tranqüilo, essas coisas acontecem. Vai com deus e boa sorte”, a porta fez barulho ao fechar e a poeira levantou. Preferi não refletir sobre o que viria pela frente, mas vislumbrei os quatro quilômetros que teria que caminhar até atingir a 101 sentido Joinville. Que o sol siga escondido, isso vai ser difícil, vai ser beeeeeem difícil.
www.projetorauldoque.wordpress.com
Excelente narrativa.
Fiquei admirada com a fluidez e as inferências todas contidas no texto, de forma tão sutil.
Realmente gostei muito!
beijos
BELO TEXTO.
VISITE
http://www.overmundo.com.br/banco/a-mulher-especial
.parabens.
Votando com carinho e respeito que o texto merece.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2008 13:01
Gostei. Deixei 2 votinhos lá.
Tb to sendo votado, veja se vc gosta:
http://www.overmundo.com.br/banco/um-anjo-me-salvou
Um grande abraço e boa sorte.
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