(Um conto de Alê Barreto)
- Ajoelha duma vez, caralho!
Não era ainda bem meia noite e os cachorros haviam silenciado. Me vinha a imagem na cabeça… Em cima da laje empinando pipa… Não conseguia me ajoelhar. O cano da arma me cutucava as costelas, mas parecia que as minhas pernas haviam se enferrujado. Eu suava frio, tinha medo de não empinar mais pipas…
- Vamo, seu merda, não adianta agora ficar dando uma de viadinho. Pelo menos morre como um homem, porra!
“Porque tu não vende um bequinho e aproveita para fazer uma graninha?” Essa frase circulava no meu pensamento. Ela era a responsável por estar agora ali, paralisado, sentindo cheiro de pólvora. Eu não precisava daquela graninha, mas fiquei a fim de fazer. Por quê? Não sei. Só sei que parecia simples, sem stress. Não tinha cara de pena de morte.
- Dá um tiro no joelho que esse puto se ajoelha – falou um cara tipo surfista, saradão, desses que saem em outdoor de produto dietético.
É estranho você ver a frieza de alguém que há algumas horas atrás dava gargalhadas com você tomando uma cerveja. Falei sem olhar os rostos deles:
- Posso olhar o morro cinco minutos? Botei as mãos na cabeça e me abaixei. Achei que iam me matar na hora, pela ousadia.
O loiro de olhos azuis, que estudava Direito na Universidade Federal, me olhou com profundidade. Os outros olharam para ele.
- Acompanha ele até a Pedra da Vista Bonita.
Fui levantando devagar. Todos se olharam. O mais novo, fez cara de desaprovação, mas tomou a frente e começou a caminhar. Segui ele. Os outros vieram atrás.
Tive vontade de olhar o relógio. “Será que já passou um minuto?”, pensei. Melhor não olhar. Assim demora mais a passar.
Segui caminhando. O barulho dos nossos pés na ladeira pedregosa mudou. A quantidade de pés caminhando parecia ter diminuído.
Olhei para trás e vi que um cara havia sumido.
- Olha pra frente! Berrou o mais novo.
Segui caminhando. Àquela altura, já haviam se passado os cinco minutos. Melhor para mim.
Agora pareciam ser somente duas pessoas caminhando atrás de mim. Instintivamente olhei para trás.
- Se você olhar pra trás de novo… – Falou em tom ameaçador o mais novo.
Voltei a cabeça rapidamente para frente.
Discretamente olhei o relógio e vi que estávamos caminhando há mais de vinte minutos. E agora só tinha o cara mais novo. Não havia mais ninguém atrás de mim.
- Chegamos.
O mais novo fez um gesto como se estivesse oferecendo a vista do mar para mim.
- Pode olhar.
Avistei uma casa à minha esquerda e fui girando no sentido oposto. Quando completei trezentos e sessenta graus, percebi que o mais novo tinha desaparecido.
“Os caras me liberaram”, comemorei em silêncio. Acho que vou poder continuar empinando pipas.
Conto produzido em oficina realizada no Nós do Morro em 2009 e publicado no blog Nós das Letras.
Muito interessente esses sumiços,rs
Gostei mesmo.
abs.
Obrigado Cíntia!
Um abraço!
Alê Barreto
alebarreto@produtorindependente.com
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