O último olhar

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Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ
22/1/2010 · 5 · 2
 

(Um conto de Alê Barreto)

- Ajoelha duma vez, caralho!

Não era ainda bem meia noite e os cachorros haviam silenciado. Me vinha a imagem na cabeça… Em cima da laje empinando pipa… Não conseguia me ajoelhar. O cano da arma me cutucava as costelas, mas parecia que as minhas pernas haviam se enferrujado. Eu suava frio, tinha medo de não empinar mais pipas…

- Vamo, seu merda, não adianta agora ficar dando uma de viadinho. Pelo menos morre como um homem, porra!


“Porque tu não vende um bequinho e aproveita para fazer uma graninha?” Essa frase circulava no meu pensamento. Ela era a responsável por estar agora ali, paralisado, sentindo cheiro de pólvora. Eu não precisava daquela graninha, mas fiquei a fim de fazer. Por quê? Não sei. Só sei que parecia simples, sem stress. Não tinha cara de pena de morte.

- Dá um tiro no joelho que esse puto se ajoelha – falou um cara tipo surfista, saradão, desses que saem em outdoor de produto dietético.

É estranho você ver a frieza de alguém que há algumas horas atrás dava gargalhadas com você tomando uma cerveja. Falei sem olhar os rostos deles:
- Posso olhar o morro cinco minutos? Botei as mãos na cabeça e me abaixei. Achei que iam me matar na hora, pela ousadia.

O loiro de olhos azuis, que estudava Direito na Universidade Federal, me olhou com profundidade. Os outros olharam para ele.

- Acompanha ele até a Pedra da Vista Bonita.

Fui levantando devagar. Todos se olharam. O mais novo, fez cara de desaprovação, mas tomou a frente e começou a caminhar. Segui ele. Os outros vieram atrás.

Tive vontade de olhar o relógio. “Será que já passou um minuto?”, pensei. Melhor não olhar. Assim demora mais a passar.

Segui caminhando. O barulho dos nossos pés na ladeira pedregosa mudou. A quantidade de pés caminhando parecia ter diminuído.

Olhei para trás e vi que um cara havia sumido.

- Olha pra frente! Berrou o mais novo.

Segui caminhando. Àquela altura, já haviam se passado os cinco minutos. Melhor para mim.

Agora pareciam ser somente duas pessoas caminhando atrás de mim. Instintivamente olhei para trás.

- Se você olhar pra trás de novo… – Falou em tom ameaçador o mais novo.

Voltei a cabeça rapidamente para frente.

Discretamente olhei o relógio e vi que estávamos caminhando há mais de vinte minutos. E agora só tinha o cara mais novo. Não havia mais ninguém atrás de mim.

- Chegamos.

O mais novo fez um gesto como se estivesse oferecendo a vista do mar para mim.

- Pode olhar.

Avistei uma casa à minha esquerda e fui girando no sentido oposto. Quando completei trezentos e sessenta graus, percebi que o mais novo tinha desaparecido.

“Os caras me liberaram”, comemorei em silêncio. Acho que vou poder continuar empinando pipas.

Sobre a obra

Conto produzido em oficina realizada no Nós do Morro em 2009 e publicado no blog Nós das Letras.

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Autoria
Alê Barreto
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Cintia Thome
 

Muito interessente esses sumiços,rs
Gostei mesmo.

abs.

Cintia Thome · São Paulo, SP 25/1/2010 16:08
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Alê Barreto
 

Obrigado Cíntia!

Um abraço!

Alê Barreto
alebarreto@produtorindependente.com

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 30/1/2010 20:34
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