Varanda da sede do "Sítio 3 Irmãos", vendo-se ao fundo o barracão que a ira santa dos gêmeos AZEVEDO fez "sumir" num pavoroso incêndio, em meados de 1986.
O ÚLTIMO PESADELO
Sentado sob a única jaqueira de seu sitio, o caboclo sonolento pensava e sorria. De barriga cheia, o palito de "fósfo" a dançar-lhe entre os raros dentes, seu olhar passava pelas frondosas mangueiras, que êle sempre achara que Deus cuspia dos céus, tal a quantidade e os locais incríveis de onde elas brotavam.
Ao fundo, na casinha de paredes de tábua macheada nova --- toda doada pelo calhorda do vizinho lá da cidade grande (azar o dele, não lhe pedira nada!) -- seus 3 pequenos e a mulher descansavam o almoço em redes na sala escura, sob a refrescante sombra do teto de palha de anajá.
"Mané-Chêra" estava feliz! Ganhara a "questã" da divisão das terras no último instante e aqueles 10 metros vezes 3 km e tanto íam aumentar em muito a herança dos seus. A verdade é que os pés de café cortados na raiz, que êle deixara aqui e ali na picada demarcatória feita pelos brancos da cidade influíram demais na decisão da Juíza.
Mas é certo também que aqueles anos todos doando frutas e farinha ao único oficial de Justiça do lugar foram o trunfo maior em seu favor, pois não ignorava que este é quem vinha confirmar "in loco" os dados constantes dos processos de invasão de terra lá do Forum.
Os "barão da capitar" não precisavam das terras e só vinham passar uns fins de semana lá,,, 'inda íam querer demarcar as terras deles conforme aqueles papéis caducos que a filha do velho Ananias lhes cedera, junto com a venda do sítio ao lado?
E justo do falecido, que permitira à Ernestina juntar os trapos com um estranho, gente de fora, um "sulista" qualquer, cheio de idéias marotas e que trouxe com êle uma "tar de talavisão" que foi uma disgraceira pro lugar?
O mulherio passava o dia inteiro na casa do fulaninho, era uma falação danada e o troço estava estragando "inté" os pequenos. Foi graças a êle que os machos do lugar se reuniram e botaram os dois prá correr... afinal, o terreno do vizinho tinha muitas frutas e êle costumava fazer umas caçadas noturnas (de arma e tudo!) muito rendosas.
Deu um arrôto, sentiu a cabeça um tanto pesada e concluiu com seus botões que o vinho de cupuaçu que tomava no taberneiro lá da vila, antes de seguir viagem para o sítio, ultimamente não vinha lhe fazendo bem.
É, aquele refresco gelado de frutas lhe lavava a alma mas, além de atingir-lhe o fígado, quase o matava de sono. 'Tá certo que o sol do meio-dia do norte do Pará é de assar passarinho voando mas êle nascera ali e, com um chapéu de palha na cabeça, quase não dava para sentir o calor.
Agora, que esse sono estranho ao voltar na "montaria" -- pequena canoa de tronco de árvore escavado a fogo -- dava prá desconfiar, isso dava.
E caiu no sono, recostada à mãe das únicas jacas da redondeza, a cabeça pousada no ombro esquerdo e trazendo na bôca escancarada o palito milagrosamente preso à grossa saliva. Como derradeira lembrança, a imagem do taberneiro sacripanta em animada conversa com o rico grnafino, seu confinante, e as estridentes gargalhadas deste.
E "Mané-Chêra" dormiu. Dormiu e sonhou.
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Uma sinuosa estradinha de areia dourada serpenteava floresta a dentro, desaparecendo entre as cinquentenárias mangueiras atrás do seu casebre.
De lá vinham sons, os milhares de ruídos de todas as horas e que transformam a expressão "o silêncio da noite na floresta" muito usada pelos citadinos, numa piada de mau gôsto. Mas não era um barulho qualquer que aquele misto de chinês com kaiapó ouvia...
(continua abaixo no COMENTÁRIOS)
O ÚLTIMO PESADELO (trecho final)
Mas não era um barulho qualquer que aquele misto de chinês com kaiapó ouvia... não, a coisa era compassada, tinha ritmo, parecia a "Mané-Chêra" semelhante ao som que êle ouvira naquela caixinha do Diabo, na casa do seu confinante, quando umas crioulas de bunda de fora e rebolado indecente sapateavam feito criança com formiga-fogo no pé.
Aguçou os ouvidos, afinou a vista o quanto pôde e não quiz acreditar no que via: sapos e grilos aos montes, pássaros às toneladas, bípedes e quadrúpedes sem conta vinham evoluindo mata afora, numa compacta e perfeita formação, qual magistral Escola de Samba.
Os sapos eram cuícas, os grilos imitavam reco-recos e tamborins e a passarada cuidava de quase todo o resto, com os cabritos, bois, cavalos e até veados fazendo a marcação, do tarol ao surdão.
Os galináceos todos, do galo ao peru, entraram também na dança, sob a direção dos papagaios, os maiores imitadores sonoros que a Natureza criou.
E passaram pelo nariz do incrédulo "Mané-Chêra", boquiaberto de espanto, dando todos sonoras gargalhadas, numa zoada mais parecendo o crepitar do fogo em madeira sêca. Logo atrás, confundindo-se com o som da bicharada, um inacreditável exército de cupins gigantes zunia em direção a êle (e a sua casa) com olhares famintos.
Uma nuvem negra de asas ruidosas cobriu-lhe a visão, sentiu o corpo ferver de calor pelas picadas mas estava pesado demais para levantar-se. Viu de relance sua bela casinha esboroar-se no chão, esfarelada pelos insetos e um sinal de alerta vibrou em seu cérebro, pois seus filhinhos e a cara-metade estavam sob os escombros dela.
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Acordou sobressaltado e o suor congelou-se no rosto crispado com o que viu. Sua casa e tudo o que nela continha ardia já quase só nas cinzas, os esteios negros de fumo apontando os céus, o estalar das labaredas nos restos de palha sêca do que fôra o teto.
O cheiro de carne queimada fê-lo adivinhar a derradeira desgraça, o último pesadelo... e "Mané-Chêra" desmaiou ante o impacto daquela estúpida realidade, diante da extensão do seu infortúnio.
Dizem que acordou louco, ouvindo a floresta inteira gargalhar pelo resto de seus dias. Só que êle sabia bem de quem eram aquelas risadas !
(Publicado na coluna "Espaço Aberto" do jornal DIÁRIO DO PARÁ, de Belém, em 14 de maio de 1988, graças ao incentivo do jornalista e ator Cleodon Gondim, a quem agradeço demais o apoio recebido.)
EXPLICAÇÕES NECESSÁRIAS
1. Os problemas de terra no Pará (fundiários, no jargão técnico) são insolúveis e nem um século a mais resolverão. Há terras com 5, 6 ou dez donos, todos parentes entre si e, se algum vende seu "pedaço" (gleba) os demais podem "melar" toda a transação, ou transformar a vida do novo proprietário num permanente inferno.
2. para o caboclo parauara, todo comprador é RICO, "barão" segundo êles, que sequer imaginam que o sujeito pode ter vendido tudo na cidade para aventurar-se no interior. Vai daí, mesmo tendo muito mais que o novo sitiante, insistem em serem ajudados (?!) de todas as formas pelo novo proprietário que, sem poder negar para não fazer desafetos, tem pequenos prejuizos iniciais com um enorme contingente de "pedintes" oferecendo amizade e esperando alguma "benesse" em troca dela.
3. erramos desde o início em nossa aventura fazendícia, pois meu pai ofereceu UM MILHÃO DE CRUZEIROS da época para os dois confinantes nos permitissem CERCAR nosso lote. Só dois anos depois saberíamos porque quase todos se opuseram: é que tiravam madeira de nossa gleba, um dos confinantes tinha até um roçado de maniwa ("mandioca braba", que só serve para farinha, é imprópria para consumo) e pés de café nos fundos de nossa área.
4. nossa situação pessoal era extremamente incômoda... irmãos pobres de um rico diretor de empresa. Passamos por doidos quando começamos a fazer carvão para sobreviver no sítio, enquanto minha mãe plantava abóbora/cana/mandioca (macaxeira aqui, AIPIM no sul) e criava galinhas que nunca chegamos a comer pois uma raposa gorda as "jantava" de noite e outras "raposas" magras as levavam de dia.
ROUBO em boa parte do Pará é... ESPERTEZA, não se vê como uma coisa negativa, principalmente quando se dá entre amigos ou conhecidos. Isso é uma das várias "tradições" locais que o sulista, o "carioca" (assim chamado ainda que seja de SP ou Bahia), a detestada "gente de fora" não se acostuma a aceitar e um dos maiores entraves para um bom relecionamento com a população local, o parauara ou... paraense.
PARAENSE é uma denominação imprópria para a maioria, pois pesquisa feita no oeste do Pará identificou apenas ONZE POR CENTO como nascidos efetivamente no Estado. Estranhamente, a maior parte da população mantém um "sotaque nordestino" que soa muito estranho para um povo tão ciente de seu... paraensismo!
5. esses comentários iniciais vão soar como PRECONCEITO pelo leitor desavisado que me lê... estou há exatos 24 anos e meio aqui e não me permito julgamentos levianos ou precipitados. Volto ao assunto adiante... acabou meu dinheiro hoje!
"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 25/10/2007 17:16
FATOS MARCANTES
6. Nossa ida para o sítio foi um festival de equívocos, porque nenhum de nós tinha inclinação ou vocação para agricultor. Um esbanjamento inacreditável de dinheiro, uma ostentação desnecessária de riqueza nos afastou ainda mais dos ribeirinhos. (Chegou-sea contratar 6 braçais das redondezas... para nada!) Expostos ao sereno se via 500 rolos de arame farpado, mais de 200 tábuas macheadas -- que os cupins devorariam pouco a pouco -- uns 50 esteios enormes, madeirame diverso e até um colossal transformador de luz, num lugarejo sem energia elétrica e com meia dúzia de casebres.
(Leia-se também... www.overmundo.com.br/banco/o-rabo-do-tatu
7. O casarão para 3 pessoas tinha cozinha cimentada e pia de aço inox, banheiro com vaso sanitário e mais 3 quartos, além do varandão... "mansão" de 134 telhas de amianto de 2,44m, com 2 caixas d'água de mil litros (nunca se fez o poço artesiano) perdidas num matagal (vide DOWNLOAD) onde foram mortas 32 cobras venenosas em apenas 8 semanas.
8. Cheguei a Belém na madrugada de 9/dez. 1983 e fui quebrar azulejos na cozinha do irmão rico. Em 20/dez. ele me "transferiu" para o vilarejo, onde permaneci quase 2 meses debaixo de uma barraca de lona, comendo enlatados e "passeando" no matagal por entre cobras, escorpiões e formigueiros. Foi um Natal & Ano Novo... inesquecíveis !
9. Nosso confinante da direita era um sujeito temido no lugar, espécie de "capataz" que tinha sempre a última palavra. Poz para correr, já no segundo dia, um famoso topógrafo de Belém (PARAGUAÇU Élleres) que meu irmão contratara a pêso de ouro. O "kaiapó" temia que descobríssemos que ele plantara "maniwa" no nosso lote, na altura do km 2 da mata. (Parte do roçado foi derrubado por nós para fazer a "picada".) Adiante, ele encheria nosso pico (nos fundos do casarão) com pés de café novo cortados (os "filhotes"), que ele denunciava terem sido destruídos... por nós. Era o trôco do sujeito!
10. O "caso" acabou na Justiça vigiense e eu contactei o irmão de um amigo, (este, vice-prefeito da cidade) que era vereador e poeta, além de advogar. No dia do julgamento o encontrei "aos beijos e abraços" com o meu querelante... o sujeito casara com a filha do confinante e eu desisti ali mesmo dos "serviços" do causídico, tendo a Juíza dado ganho de causa pro parauara, segundo me contaram depois.
11. Ninguém se opoz às nossas medições mas, para realizá-las, invadimos lotes e quintais, afrontando famílias que sempre nos trataram bem. Assim, decidimos não mais usar o pôrto do vilarejo e nem pedir seus "cascos" ou montarias (canoas). Tivemos então que andar 3 a 4 km dentro das matas, carregando sacos de frutas ou carvão, para ir pedir "carona" em outras canoas numa junção do rio já perto da cidade de Vigia de Nazaré. Era um imenso sacrifício !
12. Precisando de transporte, trocamos 25 tábuas macheadas novas pela feitura de um barco... com mais tábuas dadas por nós. O sujeito levou ANO E MEIO fazendo o barco e... nada! Pegamos na marra o "troço", terminamos "na porrada" e, quando a geringonça foi prá água, pesava uma tonelada.
A madeira sem tratamento (impermeabilização) algum encharcou de tal jeito que só dava para nós dois sentar no barco e mais meio saco de laranja, isso com a água a 1 cm da borda. Voltamos a andar a pé, aprendemos a fazer carvão, com nova renda e continuamos fazendo "picadas" durante a semana e realizando torneios de futebol de campo (infantil/juvenil) nos sábados/domingos na Vigia.
13. Foram 19 torneios em quase 2 anos e mais um de futebol de salão (numa Escola pública), já próximo da mudança para Belém. O prefeito da cidade, dr. NONATO VASCONCELOS -- a quem devo muito, juntamente com sua espôsa na época, sra. Marlene Vasconcelos -- me "adotou", me registrando como "funcionário" da SEDUC em troca de eu continuar com os torneios. O sacrifício era grande, por causa das marés saíamos às 9 horas de casa para um evento às 14 hs, voltando às 19, 20 horas, o dia todo sustentados apenas por "chopps", o delicioso sorvete caseiro do Pará, chamado de "sacolé" no sul do Brasil.
14. Por que destruímos a casa da mulher que morava em nosso terreno? Porque o pai dela (sr. Fausto) morava sozinho numa gleba da área e a mãe em outra e fôra com um irmão dela que acertamos a "fazeção" do ridículo barco. Na lua cheia ela usava os filhos pequenos para recolher de madrugada todas as frutas do imenso pomar -- levamos meses para descobrir isso! -- e botava em nosso quintal barqueiros de outros "ramais" que estragavam frutas às centenas e sujavam tudo. (Vê-se parte da mangueira à direitada foto acima, uma árvore colossal, além de um taperebá imenso.)
15. Pessoalmente, eu a detestei desde o início... fazia do barracão um lupanar, na frente das 3 crianças. Ainda nos primeiros dias, meu pai deixara aos seus cuidados 3 caixas de pregos diversos, 60 kg de ferragens. SUMIU TUDO! Questionada, respondeu tranquilamente:
-- "Olha, seu João... se comeram, não fui eu que enguli" !
Quando decidimos cercar na marra ao menos a área ao redor de nosso casarão, ela se opoz. Teria que passar com a "homarada" bem defronte de nossa varanda. Cercamos assim mesmo e 2 moirões próximos da casa dela amanheceram no chão. Fomos à casa do pai e, depois, na da mãe -- que nossa família ajudara, e muito! -- e avisamos que íamos tocar fogo na choupana. Aí, ela decidiu sair!
O fogo foi uma coisa de estarrecer: o ar vibrava, o chão tremia a quase cem metros, um barulho ensurdecedor, um estralejar de fim-de-mundo... nenhuma descrição é suficiente !
16. A partir dai, a guerra se tornou aberta, praticamente todos se afastaram de nós (e nós deles!) e vivíamos mais tempo na cidade do que no sítio, deixando minha mãe (na época com 73 anos) sozinha.
Um belo dia, com 2 facões enormes -- os terríveis "terçados" -- sobre a cabeça decidimos largar tudo e desistir. Transportamos parte de nossas coisas do casarão para a casa de um vizinho amigo, o resto foi levado numa kombi que a Viação Estrela do Mar nos cedeu... e assim findou nossa "aventura" amazônica !
COM QUEM FICOU O SÍTIO ?
17. O mesmo amigo (da onça) que nos alugou uma casa no bairro Cidade Nova -- na época pertencendo a Belém e, a partir de 1995/96, ligado à Ananindeua -- se propoz cuidar do sítio.
Tempos depois êle entraria na (mesma) Justiça exigindo a posse da gleba como ressarcimento de benfeitorias (um muro na frente do casarão) e por nada receber para cuidar do sítio. Seguramente perto de TREZENTOS MIL REAIS foram "investidos" nessa funesta aventura realmente amazônica.
PARA MAIS INFORMAÇÕES sugiro consultar o "conto" já publicado
em... www.overmundo.com.br/banco/o-rabo-do-tatu e também o futuro texto "O OLHAR PENETRANTE DA NOITE", além de "PAISAGEM AMAZÔNICA"...em breve neste cibernético canal. AGUARDEM !
Nato, tu és grande...depois desta leitura, nada posso enfeitar aqui, ou dizer, apenas deixo a minha passagem...saio renovada. Abçs.
Cintia Thome · São Paulo, SP 27/10/2007 06:26
Ele esqueceu de dizer que o "Amigo da Onça" ficou com nosso sítio,
sem pagar nada, e pela quantidade de arvores frutiferas, mangas pequias cocos taperebas cupuaçus, não precisariamos pagar mesmo!
Nato,
Tua saga é digna de ser filmada numa grande produção hollyodiana.
Quantas contrariedades. Depois da leitura, fico fortalecido
para enfrentar a Vida...
O importante é que Tu e Teu Irmão estão vivos. O resto...
É buscar/dar o perdão.
Meus sincero respeito,
Grande Nato.
Abçs. Benny Franklin
Nato,
Junto-me as fileiras com os amigos Cintia e Benny. Uma epopéia verídica como a tua merece partir para a película com brevidade. E tu ainda põe foto, mostra reportagem de jornal e apresenta dez testemunhas de cada causo! Pelo que temos conseguido ler do nobre amigo, esse filme já está sendo projetado em nossas cabeças, teimando em não sair de cartaz. Parabéns pelas aventuras reais que te fizeram grande. Um abs.
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