O Velho

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JuliaD · Rio de Janeiro, RJ
29/5/2006 · 68 · 3
 

Não há muito o que ser dito a seu respeito. Era um sujeito baixo, mas era mais alto que o outro, este era praticamente um anão. Mas bem proporcionado. Ele tinha menos cabelos que o outro, e eram brancos. Sua pele era clara e enrugada, a do outro era marrom e lisa. Quase não conversavam entre si. Quando falavam era sobre o trabalho que realizavam. Falavam de questões práticas e imediatas, não perdiam tempo com conversa. Estavam sempre com a obra atrasada, deviam estar perdendo tempo com alguma coisa, mas não era com conversa.
Mas no primeiro dia o velho não apareceu. Era um nordestino alto, de cara chupada, que acompanhava o mulato tampinha. Ambos usavam bonés feios. O nordestino tinha os olhos opacos, amarelados, ovais. Os braços magros e compridos pendiam ao longo do corpo, pareciam um par de muletas. Tinha sempre na cara certo ar de contemplação apática, estupefata. Um olhar bovino, como o de uma vaca que masca capim despreocupada. Ele não mascava capim, mas remoia algum pensamento fibroso dentro daquela sua grande cabeça chata coroada por um boné feio.
O mulato e o nordestino tiraram todos os móveis da sala. Eu assisti eles trabalharem até o último móvel – a cadeira aonde eu estava sentada, bordando – ser retirado da sala. O mulato era compacto, robusto, os ombros largos. Carregava tudo com facilidade, gingando de um lado para o outro sob o peso de uma poltrona. Existia algo de audacioso nele. Como ousava um sujeito de tal pequenez conseguir carregar uma poltrona tão grande? Ele estava sempre esboçando um quase sorriso, como as pessoas que mentem sem talento para a mentira. Parecia um jeguezinho, um jegue perseverante.
O nordestino se movia muito lentamente, os braços sempre caídos ao longo do corpo magro não balançavam. Quase não piscava, sempre olhando estaticamente para frente. Parecia não dormir a dias. Carregava as coisas nas costas, todo torto, como um galho de bambu dobrado. As pernas compridas dobradas, todo torto, com exceção da cabeça que sempre estava reta, apoiada sobre o pescoço fino. Tinha a pele amarelada como seu branco dos olhos. Parecia um camelo, um camelo sobrecarregado.
Eu ofereci água a eles depois de levarem minha cadeira. O mulato sorriu, levantou o boné e passou as costas da mão pela ampla testa suada. Aceitava, sim. Olhava o nordestino de canto de olho. O camelo nordestino também tinha sede. Trouxe dois copos enormes para os homens. O mulato bebia aos poucos, levantava os olhos e sorria – a água tá gelada – sorriu novamente para mostrar que isso o agradava. O nordestino bebeu tudo de um gole só. Seu pescoço magro arqueado, a cabeça jogada para trás, o pomo de adão saliente se movia lentamente. Baixou a cabeça e estendeu o braço que segurava o copo vazio em um movimento só, como se o braço fosse uma alavanca do pescoço. O mulato terminou de beber e também me entregou o copo. Agradeceu. O nordestino lembrou de fazer o mesmo.
Os homens se sentaram em um canto da sala vazia. Tinham trazido marmitas, comida em pequenos potes plásticos. Sim, temos um microondas, eu esquento pra vocês, que é isso, não tem problema nenhum. Retornei a sala com marmitas fumegantes. O mulato comia macarrão com feijão e carne moída, o nordestino comia algo que eu identifiquei como angu. Entreguei as marmitas a seus respectivos donos. O nordestino só agradeceu depois do mulato. Sempre esquecia. Também forneci talheres ao mulato, que tinha somente uma colher de plástico. Ele agradeceu. O nordestino também agradeceu, condicionado a dizer “obrigado” sempre que o mulato o fazia. Eu sai e deixei os homens comerem em paz. Não queria que eles se sentissem na obrigação de dizer qualquer coisa para mim, de puxar assunto.


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Julia Debasse
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Capi
 

Julia, é muito bom.
Boa observação dos tipos humanos, dá para sacar o perfil dos personagens a partir de uns comentários breves. Isso é legal - é literatura.
Talvez tenha detalhes demais, o texto um tanto longo para pouca ação, mas aí já é minha mania de ser simples.
No mais, uma revisão cuidadosa vai eliminar alguns erros (falta um acento aqui, "a" no lugar de "há").

Capi · Santos, SP 28/5/2006 03:41
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JuliaD
 

É muita influência dos russos, Capi. Tava lendo muito Gorki, Dodo (dostoiévisk), Tótó (Tostoy), Babel e Checkov nessa época - é uma das melhores literaturas do mundo e tem esse lance da "simplicidade complexa" que é o máximo.

brigada querido,
J.

JuliaD · Rio de Janeiro, RJ 28/5/2006 11:08
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Soul Sócrates
 

O texto poderia desvencilhar as características dos atores da narrativa no decorre da trama. Os russos até estão por ai...em algum lugar...mas, bem menos. Pense nisto. Encontrar o momento certo para descorrer sobre os personagens.

Soul Sócrates · Salvador, BA 1/6/2006 15:51
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