O avião decolou e pela janela eu lancei meu último olhar para os altos edifícios e o aglomerado de cimento e aço em que se transformou a cidade. Pedi à aero moça um uísque duplo. Eu queria dormir e talvez o álcool ajudasse. Minha vizinha ao lado pediu um Campari com gelo e só então percebi que havia alguém ao meu lado. Uma bela mulher. Dona de uma beleza sofisticada vestida como uma executiva provavelmente de uma grande empresa. Mas eu estava decidido a não me envolver mais com mulher nenhuma. Desde os tempos de escola que eu perdia as namoradas por razões diversas.
– Puxa! Você parece bastante abatido. A voz firme e ainda assim doce, soou-me como algo estranho. Não estava acostumado a ser abordado desse modo.
– Como disse? Perguntei.
– Desculpe, meu nome é Adriana e achei você com um ar muito abatido.
– Desculpe moça, eu estou realmente mal com tudo que me aconteceu.
– Fale! Desabafe, pode fazer bem pra você.
– Você não vai querer ouvir histórias de um perdedor que só teve desilusões com a vida.
– Pode falar, sou psicóloga e minha profissão é ouvir.
– Ok! Desde que você não vá me cobrar pela consulta! Ela sorriu e seu sorriso era algo deslumbrante. Em outra situação é claro que eu aproveitaria para entrar de sola, mas... Comecei então a contar toda a minha vida. Ela ouvia com atenção e vez por outra me fazia perguntas.
– O que aconteceu com você, acontece com muitas pessoas. Às vezes levamos tempo até encontrar a pessoa certa. Comigo também foi assim. Demorei muitos anos até conhecer o Alberto. Nos casamos e agora estamos separados. Na verdade, eu descobri que não o amava. Ele apareceu numa época em que eu estava fragilizada e isto bastou para que eu confundisse as coisas. Seguimos conversando e ela fazia com que por vezes eu esquecesse o meu drama.
Um aviso de turbulência já próximo a Curitiba onde faríamos uma escala, interrompeu o diálogo e tratamos de apertar os cintos. Um solavanco mais forte e ela apertava o meu braço.
– Tenho medo dessas turbulências. Comentou trêmula.
– Fique tranqüila, não vai acontecer nada. Respondi tentando acalmá-la. Finalmente depois de sacudir como uma velha carroça o avião estabilizou-se e descemos em Curitiba em segurança. A estas alturas aproveitamos para tomar um café. Um problema no reverso iria atrasar um pouco a decolagem. Ela estava naturalmente fazendo seu jogo de sedução e eu percebia que não tardaria a cair em seus truques. Ela também ia para Porto Alegre e combinamos entrar em contato na noite do dia seguinte. Ela me deu um cartão de visitas e comentou.
– O meu celular está aí. Falta agora me dar o seu. Só então me lembrei que o havia jogado na parede antes de sair. Inventei uma história e fui até uma loja comprar um novo. Retomamos o vôo e agora já estávamos íntimos trocando beijos e carícias. Então o aviso de turbulência acabou com nosso idílio que estava começando. Ela agora me agarrava ainda com mais força. Repentinamente, senti que o avião estava em que, pois a preção sangüínea subia criando um mal estar. Parecia que os órgãos internos do corpo estavam por sai por cima feito creme dental. Olhei pela janela e fiquei branco. A turbina da direita estava em chamas.
– Vamos cair, pensei. E agora? A pressão aumentava violentamente e acho que desmaiei.
Acordei sobre o corpo de um homem, todo retorcido e ensangüentado. Não vi Adriana e embora estivesse inteiro, apenas com dores pelo corpo todo, consegui levantar-me co, alguma dificuldade. O avião estava destroçado, mas pela trilha que abrira até parar mostrava que o piloto tentara uma aterrissagem forçada. Aproximei-me dos destroços tentando localizar Adriana. Dois outros passageiros também havia sobrevivido. Um deles chorava desesperado agarrado ao corpo de uma mulher morta. Adriana estava sentada com os olhos arregalados junto à janela da aeronave.
– Você está bem? Perguntei.
– Sim! Respondeu ela. Mas foi a última palavra que pronunciaria. Sua cabeça pendeu para frente. Tentei ergue-la, mas estava morta.
– É assim mesmo falou um dos sobreviventes. Já vi isso acontecer antes.
Droga! Estava acontecendo novamente. Parece que simplesmente aproximar-me de uma mulher gerava uma desgraça. Nem mesmo havia chegado a conhecer Adriana e o destino a levava me deixando desesperado mais uma vez. Jurei que dali para frente eu não iria mais me envolver com ninguém, parece que alguma coisa está impedindo que eu seja feliz. Não demorou muito para chegar a equipe de socorro e fomos levados de helicóptero para Porto Alegre. Depois dos exames de rotina fui liberado. Somente um dos sobreviventes, precisou ser internado. Comprei uma passagem para Santana do livramento. Tinha um amigo lá e iria procurar algum sito. Uma propriedade rural onde pudesse levar a minha vida solitária, talvez cuidando de alguns animais.
Eduardo conhecia todo mundo na cidade e não tardou a localizar uma propriedade a venda. Era um sítio de uns 30 mil metros e daria até para criar umas cabeças de gado. A casa era pequena, mas eu não precisava de nada maior. Pertencia a um homem descendente de índios. Fomos ver a propriedade que ficava ao pé de uma colina e nem permitia ao cesso por carro. Para chegar até lá, tivemos que transpor uma cerca de arame farpado e andar uns 800 m. Fechei o negócio. Era mobiliada modestamente, mas para mim estava bom. Havia perto dali, isto é cerca de 1500 m, um armazém. Combinamos que no dia seguinte, trataríamos dos tramites legais do negócio. Estava já caindo a tardinha e eu nem havia pensado em comer. Descobri no armário da cozinha uma garrafa de aguardente ainda fechada. Era tudo o que eu precisava. Sentei-me em uma cadeira de palha junto a porta da cozinha e comecei a beber. Ao longe um vulto se aproximava, parecia uma mulher carregando com dificuldade um saco com alguma coisa dentro. Tratei de ir ao seu encontro. Era uma garota de uns 20 anos, morena de olhos verdes e sorriu docemente ao aproximar-me.
– Puxa! O que você está carregando?
– É para você! Meu pai mandou.
– Nossa! Como pode carregar isto tão pesado?
– Estou acostumada.
– Está bem! Falei. Se quiser pode voltar daqui. Eu levo.
– Não! Falou ela. Meu pai disse pra eu limpar melhor a casa e ajudar em alguma coisa pra você comer.
– Olhe, não precisa eu acho que nem vou comer nada.
– Mas tenho que fazer senão meu pai fica bravo.
– Bem! Se é assim então tudo bem. Voltei para a minha cachaça enquanto ela limpava tudo e preparava um carreteiro com milho verde. Para quem não queria comer, eu próprio me surpreendi com o que acabei comendo. Estava delicioso.
– Você cozinha muito bem. Espere como é seu nome?
– Eu me chamo Edinéia. Está bem vou acompanhá-la até a cerca, está escuro.
– Está bem! Eu não tenho medo, mas é bom conversar. Levei-a até a cerca que delimitava a terra e fique observando ela afastar-se por um caminho aberto no campo. Fiquei ali até perdê-la de vista. Depois me recolhi e fui dormir. Na manhã seguinte acordei sedo e fui preparar um café. Não havia café no armário. Me chamou a atenção a cuia de chimarrão. Nunca havia provado, mas resolvi tentar fazer um chimarrão. Coloquei água pra esquentar e achei no saco que ela trouxera um pacote de erva mate. Eu estava tentando sugar a bebida quando ela entrou pela porta da cozinha.
– Está entupida. A bomba.
– Sim! Estava tentando, mas não sei. Você sabe fazer chimarrão?
– Claro! Aqui todo mundo sabe. Eu ensino pra você. Ela então preparou a bebida e pacientemente me ensinou cada etapa do cerimonial que é para os gaúchos a preparação da bebida.
– Mas, o que trouxe você aqui? Perguntei.
– Hora vim ver como você está. Se não está precisando de nada. Precisa comprar umas coisas. Posso ir no armazém pra você e posso fazer o almoço.
Assim foi feito e no dia seguinte também. Então à tardinha eu lhe falei.
– Edinéia! Você não precisa fazer mais as coisas pra mim. Eu me viro. Ou você quer um emprego. Ela enrubesceu e levantou os olhos.
CONTINUA
Mais uma tragédia acontece quando surgia uma nova esperança. Até quando iria agüentar?
quase um livro teu post. posts longos complicam mano, nosso tempo já é curto.
mas ok...vamos lá!
mas gostei cara. a vida as vezes é assim memso.
ganhamos na loteria, mas perdemos o bilhete.
adiante!
Lauro,
mas como cai mulheres na horta do seu personagem.
sorte ou azar?
bjs
Prometo uma surpresa no final. O que o velho tem a ver? Onde está ele?
LAURO WINCK · Rio Pardo, RS 10/3/2010 11:55texto muito bom, um grande abraço.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 10/3/2010 18:30
LAURO WINCK · Torres, RS
O VELHO DA COLINA 2-3
Tudo indica ser uma motivação imensa, para viver muitos anos curtindo os pampas gauchos, em toda a imensidão que ele atina a qualquer coração que recebe todo amor do mundo, numa companhia perfeita.
Muita inspiração e merecimento, parabéns.
Abração Amigo
Caro Lauro,
Continue escrevendo. Isso nos exercita como autores. Uma dica que eu sempre uso (espero que não me leve à mal): mantenha sempre um dicionário por perto. Isso nos ajuda muito (a mim ajuda sempre!!).
Abraços,
R. Marcchi
Obrigado Marcchi, com efeito só agora me dei conta dos erros que apesar da revisão sempre escapam.
abçs
Cadê o velho, meu velho, será que ele vai armar p/vc ficar com edineia.
tamos aguardando
Abraços
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