Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

O VELHO DA COLINA 3-3

Lauro Winck
1
LAURO WINCK · Rio Pardo, RS
11/3/2010 · 11 · 11
 

– Não! Eu não quero o emprego. Puxa! Você não percebeu que venho aqui porque gosto de você?
– Olhe! Eu pretendo ficar sozinho! Jurei não me aproximar mais de uma mulher, já me aconteceu desgraça que chegue.
– Você acredita nisso?
– Não sei, o fato é que sempre que me aproximo de alguém, acontece alguma coisa. Ela ficou pensativa e depois falou.
– Olha! Vou falar com o velho da colina! Ele sabe como resolver isso. Já ajudou muita gente. Dei de ombros e concordei. Afinal fiquei curioso embora não acreditasse nessas coisas. Ela aproximou-se e me beijou. Eu senti seu calor e tive vontade de envolvê-la, mas me contive. Na manhã seguinte ela voltou sorridente e disse.
– Temos que ir até o velho da colina. Ele quer benzer a gente.
– Benzer? Como é isso?
– Você verá. Ele espanta os maus espíritos que estão atrapalhando sua vida. Eu quase caí na risada, mas resolvi entrar na brincadeira e concordei
No dia seguinte levantei sedo. Agora eu podia preparar um chimarrão e a bebida me agradava. Mal havia tomado uma cuia e Edinéia apareceu à porta da cozinha.
– Está pronto? Perguntou depois de me beijar.
– Há! O velho da colina. Sim. Vamos lá.
A casa ficava bem no alto da colina. Era uma construção humilde de madeira e de uma chaminé de um fogão a lenha saia fumaça. O velho aparentando uma idade bastante avançada trajava uma blusa Jeans e uma bombacha surrada. Tinha um palheiro nos lábios e um sorriso franco. A barba amarelada pelo fumo e os longos cabelos davam-lhe um aspecto compatível com a função que exercia. Galinhas circulavam livremente pelo piso de chão batido. Sobre o fogão de barro uma panela de ferro deixava perceber o aroma de feijão sendo cozido. Convidou-nos a entrar. Edinéia o beijou.
– Vô! Este é meu namorado. O velho convidou-nos a passar para uma acanhada peça ao lado da cozinha. Havia um largo tronco provavelmente de um carvalho cortado e disposto como uma mesa, Sobre a base havia uma tigela de barro com brasas. Fez sinal com os braços para que nos aproximássemos e jogou alguns sais sobre as brasas. Pegou um chocalho, como estes que se encontra em lojas de instrumentos musicais e começou uma espécie de reza em língua indígena. Colocou as mãos sobre nossas cabeças e ao final da cerimônia falou.
– Vão em paz, você agora está livre das perturbações que atrapalharam sua vida.
Eu não estava acreditando nas benzeduras do velho, mas Edinéia estava alegre e feliz e saltitava agarrada à minha cintura enquanto tomávamos o caminho de volta. Afinal eu já estava começando a gostar da garota e mentalmente fazia um balanço da situação. Por ali a violência ainda era uma coisa distante, não havia um trânsito maluco e eu nem tinha mais um carro. Também não tinha mais a menor vontade de tomar um avião. Quem sabe as coisas poderiam realmente melhorar? Era um lugar agradável, longe da cidade e a vida tranqüila me agradava.
– Ok! Vamos ficar juntos! Vamos fazer uma experiência, também gosto de você.
– Espere! Não é assim. Vamos casar na igreja, quero um vestido de noiva e uma festa de casamento. Se for morar com você. Você terá que enfrentar meu pai e mais 9 irmãos meus.
– Mas a gente pode namorar não?
– Claro! Mas morar junto só depois do casamento.
Edinéia passou então a vir todo dia, me ajudava na lida da casa e numa pequena horta onde plantávamos temperos, enfim hortaliças em geral. Ela entendia tudo de plantar e começamos uma pequena criação de gado. Comprei algumas vacas, uns bezerros e começamos também uma criação de porcos. O casamento fora marcado para Dalí a três meses depois do devido pedido da mão da moça ao sisudo pai, na presença de seus nove irmãos.
Minha vida então se modificou radicalmente. Eu era novamente feliz. Ela vinha todo dia e claro que aproveitávamos para namorar. Casamo-nos na igreja do bairro que estava lotada. Toda a família dela estava presente e olha que era gente pra caramba. Combinamos que só teríamos filhos depois que ela terminasse a faculdade. Veterinária era o que ela queria e numa região pecuarista, era uma profissão valorizada. Passei finalmente a acreditar que minha vida finalmente se stabilisava. Para quem saiu de casa sem rumo e sem mais esperanças, eu estava completamente feliz e apaixonado por aquela indiazinha alegre que irradiava felicidade. Cinco anos e quatro filhos depois, dois eram gêmeos. Resolvemos comemorar o quinto ano de casamento. Foi um domingo de festa em que a população familiar dela veio em peso. Os nove irmãos, suas esposas e a filharada transformaram a casa em uma bagunça que deu trabalho pra limpar. Fomos dormir naquela noite completamente exaustos depois da faxina completa. Edinéia deitada ao meu lado com a cabeça sobre meu peito acariciava-me e então falou.
– Tenho uma coisa pra te contar.
– Não me vá dizer que está grávida de novo.
– Não! É sobre o velho da colina.
– O Velho? O que tem ele? Preocupei-me, ele deveria estar agora com quase cem anos e Edinéia sempre levava hortaliças, ovos e enfim ajudávamos o velho como seu pai também o fazia.
– É sobre a benzedura.
– Pois é eu nem acreditava nisso, mas parece que deu resultado. Já faz cinco anos e estamos aqui. Ela deu uma risada e falou.
– O velho não é feiticeiro.
– O que? E aquela reza toda?
– Bem! Eu combinei com ele. Na verdade ele falou uma porção de bobagens, como, Oh! Espíritos do céus, se é que vocês existem. Dêem uma mãozinha pra este cara que acredita em azar e fazei com que eles se casem e sejam felizes. Não entendo nada de benzeduras, mas não me deixem mal, combinado?
– Quer dizer que caí numa armadilha combinada entre você e o velho?
– Deu resultado não? Estamos aqui, com nossos filhos e nossos amigos. Eu estou feliz e você nem lembra mais do passado.
Bem isso já faz muito tempo e na verdade amanhã estaremos comemorando 25 anos de casamento. Nossa propriedade será pequena para receber tanta gente. Os nove cunhados, suas mulheres e tantos filhos que eu nem poderia contar e ainda tantos netos que...


Ω; Ω; Ω;



Sobre a obra

Uma nova tragédia e na rota de fuga surge uma menina esperta, que não está a fim de perdê-lo. Será que vai?

compartilhe



informações

Autoria
Lauro Winck
Ficha técnica
TextoWord
Downloads
54 downloads

comentários feed

+ comentar
Léia Alves Moreira Pierucci
 

Puxa, Lauro, que história bacana heim!!! Parabéns e felicidade hj e sempre..
abração pra tíi

Léia Alves Moreira Pierucci · Diamantina, MG 11/3/2010 21:15
sua opinião: subir
gteixeira
 

Que bom Lauro.
Vale a pena, tentar de todas as maneiras qdo se gosta, eu achei que ela etava afim e tentu e deu certo.
Maravilha de escrita, bem direcionada...Ah. quem sou eu p/come ntar seus trabalhos, um dia chego lá.
Gteixeira

gteixeira · Salinas da Margarida, BA 11/3/2010 21:50
sua opinião: subir
Doroni Hilgenberg
 

Que saga...
ainda bem que ele encontrou uma menina inteligente!
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 11/3/2010 23:17
sua opinião: subir
azuirfilho
 

LAURO WINCK · Torres, RS
O VELHO DA COLINA 3-3

Um Texto admirável. Uma afirmação Poderosa e convincente que a luta da vida tenm de ser enfrentada com amor.
Somesmo o amor torna os Humanos invencíveis nas suas lutasl

...Um Dia isso vai ser uma lenda afirmando que um Anjo Bom ajudava as pessoas cheias de amos vencer as suas batalhas.

Parabéns pelo Trabalho.
Abração Amigo para todos.

azuirfilho · Campinas, SP 12/3/2010 00:34
sua opinião: subir
Greta Marcon
 

A história está cada vez melhor. Sinto até inveja da vidinha simples deles, em contato com a natureza.
Adiante!
Beijossss

Greta Marcon · Ponte Nova, MG 12/3/2010 02:59
sua opinião: subir
O NOVO POETA.(W.Marques).
 

sempre bom, parabéns.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 12/3/2010 07:25
sua opinião: subir
raphaelreys
 

Já encontrei um velho desses em uma projeção! M,e levou até o Segundo Céu!

raphaelreys · Montes Claros, MG 12/3/2010 07:51
sua opinião: subir
Roberto A
 

bom roteiro de cinema querido lauro.
é prosseguir e continuar criando posts clássicos, como este.

abreijo e adiante!

Roberto A · Cuiabá, MT 12/3/2010 11:20
sua opinião: subir
Doroni Hilgenberg
 

voltando
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 13/3/2010 16:12
sua opinião: subir
clara arruda
 

Colei para ler com calma,estou saindo deumpequenoinfarto meu amigo.
Deixo meu carinho

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 15/3/2010 10:10
sua opinião: subir
gteixeira
 

Edineia trabalhou certo.
Grande e elegante texto, gosto desse estilo.
Valeu
Gteixeira

gteixeira · Salinas da Margarida, BA 18/3/2010 20:42
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 6 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Instituto Overmundo pesquisa a cadeia produtiva da música no Rio de Janeiro

Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados