O VETERINÁRIO DISSE NÃO!
Rosane Martins
Fazia frio e fazia tempo que não conversavam. Cada um, há seu tempo e modo, perfazia horas e horas internas elucubrando o que seria possível um com o outro.
Eram tempos próximos, possíveis e intensos. As horas eram maiores do que se supunha, mas o tempo era consumido em demasia. Ia para frente, sempre, e nunca chegava a lugar algum.
De quando em quando fazia frio e edredons eram necessários para que dormisse bem, tranqüila e solitária. E vinha um cheiro do ralo, quando a porta da suíte ficava entreaberta. Meio doce, meio ocre, misturado com um pouco do cheiro de verde escuro.
Agora tinha acabado de secar-se e o chuveiro novamente não aqueceu a água que quase limpou seu corpo. Ainda há pouco escutava uma canção que era cantada somente numa ilha distante e falavam histórias estranhas, muito estranhas, sobre si e sobre os outros.
Enfim sentaram-se um em frente do outro, calados, trêmulos e aflitos. Ele estava cansado de inseminar vacas frígidas que não sentiam o prazer de sua mãe entrando em suas grutas infindáveis, para parir, depois, dele, filhos que sequer desejaram um dia. Ela, cansada de ser ordenhada, manipulada e sugada todas as manhãs de sábado onde sequer sabia o significado daquilo tudo que lera e lhe contaram ser bom, ser belo e ser prazeroso.
Antes que tocassem no assunto lembrou daquele dia em que ela falava incansavelmente sobre si e seus projetos e seus desejos e suas vivências que sequer um dia tinha assistido num filme nacional de terceira categoria. Tresh era aquela cena bizarra daquela mulher, desejosa, contando-lhe coisas jamais perguntadas. E ele, à sua maneira, fingia ser o homem que jamais poderia vir a ser um dia, um espectro de seu pai machista, uma cópia rasurada de seu avô e um risco apenas de sua ancestralidade esquecida.
Que pena.
O silêncio calou a todos num sopro de vento fresco que entrou pela sacada dos fundos da casa que ficava abrigada sobre outra, ao lado de outra e na frente de quase nada, mas que algumas vezes incomodava pelas buzinas e músicas fora de moda madrugada afora.
O silêncio machucava a pele e parte dela. Folheou seu livro de capa azul e não disse nada. Aquelas letras escritas antes de ontem estavam confusas, embaralhavam sua visa sobe ele, sobre si e de tudo o que não mais lhe interessava. Ela não era confiável.
Confiável ela nunca foi mas também nunca enganou ninguém. Andava sobre o fio da navalha, sempre, mas dentro de seus próprios princípios vazios. Ele, pobrezinho, estava ainda na quarta, estudando as iniciais de seu nome cujo apelido o pai proibira de repetir.
E agora era a hora.
Ele tinha que provar quem nunca foi para aquela que não era nada.
E ela, que se considerava tudo e um pouco mais, jazia inerte, com a boca e pernas abertas. E ele entrou fundo, sem muita vontade e viu sua umidade aumentar além do que lhe era relativamente permitido. E ela não parava de arfar, de criar sons estranhos, que lhe davam saudades das vacas que recebiam seus punhos e braços sem qualquer reação prazerosa.
Acabou rápido.
Conveniente.
Dirigiu-se até a pia ao lado, escovou os dentes e passou a mão na própria bunda, no pênis e de novo no seu traseiro. Esqueceu dela jogada sobre os lençóis com seu orgasmo barato. Lembrou do pai e se masturbou.
Ela foi embora cedo.
Ele dormiu logo depois.
Ela ligou.
Ele desapareceu.
Um texto sobre a condição humana
que muitas vezes deprime.
Bem escrito. Bom de ler.
Um abraço
Edimo Ginot
Gostei bastante desse texto denso.
Sucesso.
Votado.
Muito bem escrito e que prende a atenção do leitor.
Com prazer envio para o banco.
Bjs
Seu jeito simplista de ver o sexo, me agrada, pra que tanta cerimônia, não é mesmo ?
é uma leitura excitante e ao mesmo tempo séria e realista, jamais pornográfica !
quase científica !
Deu pra entender ?
sexo não se define, se faz, né ?
Um beijo !
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