Ocaso

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Nerito · Belo Horizonte, MG
20/3/2009 · 117 · 6
 

Amostra do texto

O homem de meia-idade vestia um robe vermelho de seda, com um belo dragão chinês bordado
nas costas. Os raios do poente vinham emoldurar a bela imagem do dragão nas costas do homem
amarelo. O bigode castanho, espesso, cobria o lábio superior daquele rosto cavado e duro. Duro
como o mogno lavrado. Olhos atentos, austeros, aguardavam com um misto de devoção e
autoridade o realizar-se daquela quase-transfiguração.
As horas foram sacrificadas naquele momento escasso. O homem estava só, régio, ainda que
cercado por estátuas de magnitudes inferiores. Amortecido e estagnado, tudo parecia morrer em
atenta exasperação. Somente o dragão parece vivo, com suas cores quase predadoras. O robe deixa
exposto o peito coberto de pêlos castanhos e lisos como os de um homem jovem. Uma cicatriz
escapava furtiva, um risco sofrido que ainda sangrava por dentro. O peito do homem sofria
múltiplos ocasos a cada segundo esvaído.
Era o dragão, triste entidade, que ansiava liberdade. Suas garras estavam abertas com energia,
quase irrompendo das costas do homem. A cauda sinuosa se estendia ao longo do robe vermelho,
sua ponta quase tocando o chão. A formidável criatura debatia-se num delicado mar de sangue. Sua
morte era plástica, estética, primordial. Vivo, o dragão era aquele que mais sofria a cicatriz do
homem sorridente. O impulso vazio do fogo, o desejo ardente, enlouquecido pelas horas ébrias. O
poente a tudo tomava, expandindo-se no assoalho amarelo, na pele também amarela dos presentes,
nos dentes amarelos expostos no sorriso melancólico do homem.
Foi no momento em que as imagens voltaram a se mover que todos de fato viram. Era o ocaso
necessário para que o dragão pudesse enfim alçar vôo. As posições se alternaram, alguns
inevitavelmente não puderam compreender. Somente sabiam. O sol então mergulhou no horizonte,
rebatendo enfim a última revoada de existência.

Sobre a obra

O que há por trás de uma imagem? Do jogo de cores que os raios do poente produzem em seu apogeu? E qual o por quê?
Este "conto" foi inspirado pela leitura da obra "Costa dos murmúrios" da escritora portuguesa Lídia Jorge.

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Autoria
Samuel Medina - Projeto de escritor horas de lucidez e programador nas horas de sonambulismo.
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Ailuj
 

Lendo votando mas sem tempo pra comentar,volto depois
Beijos

Ailuj · Niterói, RJ 19/3/2009 15:00
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clara arruda
 

Um belo conto meu querido nerito.
Deixo meu imenso carinho.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 20/3/2009 11:25
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raphaelreys
 

É o embrião de um conto longo meu caro!

raphaelreys · Montes Claros, MG 20/3/2009 15:24
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Cláudia Campello
 

Mto bem escrito... senti a mensagem.

"O peito do homem sofria
múltiplos ocasos a cada segundo esvaído."

bjsss;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 20/3/2009 17:53
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Nerito
 

Obrigado, amigos, pela votação e pelos comentários. Este é um conto antigo, que publiquei em meu finado blog há muito tempo. Fico feliz que vocês tenham apreciado!

Nerito · Belo Horizonte, MG 20/3/2009 18:33
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esspigao
 

A exemplo do Raphael também vejo como o embrião de um longo conto.

esspigao · Poços de Caldas, MG 21/3/2009 23:51
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