O homem de meia-idade vestia um robe vermelho de seda, com um belo dragão chinês bordado
nas costas. Os raios do poente vinham emoldurar a bela imagem do dragão nas costas do homem
amarelo. O bigode castanho, espesso, cobria o lábio superior daquele rosto cavado e duro. Duro
como o mogno lavrado. Olhos atentos, austeros, aguardavam com um misto de devoção e
autoridade o realizar-se daquela quase-transfiguração.
As horas foram sacrificadas naquele momento escasso. O homem estava só, régio, ainda que
cercado por estátuas de magnitudes inferiores. Amortecido e estagnado, tudo parecia morrer em
atenta exasperação. Somente o dragão parece vivo, com suas cores quase predadoras. O robe deixa
exposto o peito coberto de pêlos castanhos e lisos como os de um homem jovem. Uma cicatriz
escapava furtiva, um risco sofrido que ainda sangrava por dentro. O peito do homem sofria
múltiplos ocasos a cada segundo esvaído.
Era o dragão, triste entidade, que ansiava liberdade. Suas garras estavam abertas com energia,
quase irrompendo das costas do homem. A cauda sinuosa se estendia ao longo do robe vermelho,
sua ponta quase tocando o chão. A formidável criatura debatia-se num delicado mar de sangue. Sua
morte era plástica, estética, primordial. Vivo, o dragão era aquele que mais sofria a cicatriz do
homem sorridente. O impulso vazio do fogo, o desejo ardente, enlouquecido pelas horas ébrias. O
poente a tudo tomava, expandindo-se no assoalho amarelo, na pele também amarela dos presentes,
nos dentes amarelos expostos no sorriso melancólico do homem.
Foi no momento em que as imagens voltaram a se mover que todos de fato viram. Era o ocaso
necessário para que o dragão pudesse enfim alçar vôo. As posições se alternaram, alguns
inevitavelmente não puderam compreender. Somente sabiam. O sol então mergulhou no horizonte,
rebatendo enfim a última revoada de existência.
O que há por trás de uma imagem? Do jogo de cores que os raios do poente produzem em seu apogeu? E qual o por quê?
Este "conto" foi inspirado pela leitura da obra "Costa dos murmúrios" da escritora portuguesa Lídia Jorge.
Lendo votando mas sem tempo pra comentar,volto depois
Beijos
Um belo conto meu querido nerito.
Deixo meu imenso carinho.
É o embrião de um conto longo meu caro!
raphaelreys · Montes Claros, MG 20/3/2009 15:24
Mto bem escrito... senti a mensagem.
"O peito do homem sofria
múltiplos ocasos a cada segundo esvaído."
bjsss;)
Obrigado, amigos, pela votação e pelos comentários. Este é um conto antigo, que publiquei em meu finado blog há muito tempo. Fico feliz que vocês tenham apreciado!
Nerito · Belo Horizonte, MG 20/3/2009 18:33A exemplo do Raphael também vejo como o embrião de um longo conto.
esspigao · Poços de Caldas, MG 21/3/2009 23:51Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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