- Será que se eu cair daqui, vão pensar que me suicidei?
Foi o que ele pensou no exato momento em que estava limpando a janela. Olhou pra baixo e teve uma vertigem. Não gostava de lugares altos e dali de onde estava já começava a imaginar seu corpo batendo contra o piso. Não era uma imagem muito agradável.
Na verdade, essa imagem só veio na sua cabeça porque teve um pequeno, muito pequeno desequilíbrio. Era baixinho e precisava de um banco para poder alcançar a parte mais alta da janela. Pensando bem, qualquer pessoa precisa de um banco para alcançar a parte mais alta da janela.
De qualquer forma, estava ali, sobre o frágil banco de madeira e teve um pequeno desequilíbrio. Agarrou-se à janela como quem se agarra a ultima possibilidade de salvação. Era meio covarde. Seu coração chegou a dar uma pequena acelerada. Não havia sido nada demais, mas foi o suficiente para lhe despertar essa pergunta:
- Será que se eu cair daqui, vão pensar que me suicidei?
Não era conhecido por ser uma pessoa muito alegre e cheia de amigos. Não. Mas, imaginava que as pessoas soubessem que tinha um imenso amor a vida. Gostava de viver. Não estava passando por nenhuma desilusão amorosa. Não vivia em uma crise financeira e só estava limpando as janelas porque estivera viajando durante trinta dias e fora abandonado pela faxineira.
Demorou um bom tempo para conseguir outra. E mesmo assim, ela só poderia começar a trabalhar dali a quinze dias mais. Impossível continuar sobrevivendo naquela casa sem ao menos fingir que a limpava. Iria receber amigos nesta noite. Não ficava bem ter que ficar com as cortinas fechadas com um céu tão aberto e bonito.
De qualquer forma, já havia contratado a faxineira nova. Ela começaria dali a quinze dias. Não poderia perder essa oportunidade. Mesmo assim, a frase não lhe saia da cabeça:
- Será que se eu cair daqui, vão pensar que me suicidei?
Às vezes tinha esse comportamento obsessivo. Colocava uma idéia na cabeça e ficava dando voltas em volta da mesma coisa. Quando se deu conta já estava há uns cinco minutos olhando fixo para o chão. Lá embaixo não havia ninguém, mas no prédio em frente, no terceiro andar, havia.
Uma senhora em uma cadeira de rodas olhava fixamente para cima. Olhava fixamente em sua direção. Pelo menos, foi o que achou. Os prédios eram bastante pertos. Faziam parte de um condomínio residencial bastante grande. O maior da cidade. Mais de três mil moradores. Cada um deles cuidando de sua vida. Ninguém conhecia ninguém. Todos eram muito ocupados. Ninguém sabia nada da sua vida.
- Será que se eu cair daqui, vão pensar que me suicidei?
De qualquer forma, a velha continuava lhe encarando. Parecia estar se perguntando o que estava acontecendo naquela janela. Parecia estar querendo saber se algo iria acontecer ali. Parecia estar dizendo que lhe faltaria coragem para pular. Parecia também estar com os olhos fechados. Será que dormia? Será que lhe inquiria? Será que alguém iria sentir sua falta? Será que se lembrariam com carinho? Será que deixaria alguma dívida esquecida? Será que se eu cair daqui, vão pensar que me suicidei?
Jogou-se!
Max,
Com sua notória perfeição em discorrer sobre um fato, coloca as mensagens da personagem e contrói o locus da situação. Um segundo e vários parágrafos, gosto muito muito disto, reflete o que se pode fazer quando se pega um desvio num caminho, aqui o trágico como ressalte desta possibilidade.
Tenho um poema com alguns elementos similares ao seu conto.
Meus parabéns e já virei fã de carteirinha.
abraços.
Um sentimento de NADA A PERDER surgindo do acaso... uma reflexão e uma decisão nada covarde. Enfrentar o desconhecido, o que vier depois...
O desenvolvimento da reflexão é muito legal!
belo texto, bem construído.iniciei sua votação.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 21/8/2008 10:49
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