Olhava. Olhava. Não. Não. Não é ela. Aquela tem o cabelo parecido... não, o dela é mais bonito. Ele pensava em porque sempre insistia em tentar estar nos mesmos lugares que ela. Ele juntava pistas, tentava lembrar de quais eventos ela gostava de ir, onde poderia ter música, arte, gente que suprissem as necessidades dela, e lá estava ele, sempre na vã esperança de poder fazer parte da vida dela, de povoar um pouco seus pensamentos, mesmo que por uns dois minutos, daquela troca sem graça de diálogos vazios e idiotas entre pessoas que já dividiram mais do que é possível dividir e agora só podem dividir esses raros momentos estúpidos e falsos, por isso que acabou, dividiram mais do que é permitido. Só ele não sabia quais eram as regras, como deveria agir e se sentir, como deveria se comportar, ele não leu o manual: “Como superar um amor que acabou só para o outro”. Ela não veio... ele sentia algo no ar, ele estava apostando que hoje teria os tão esperados dois minutos, mas hoje não. Hoje só restava voltar para casa, dirigindo bem devagar, retardando o fechar da porta que sempre lhe extraia lágrimas, era o barulho abafado lhe dizendo que o dia acabou e não havia mais esperança, ele deu uma última olhada em volta, vasculhando o saguão de saída do cinema, nada... caminhou lentamente até o carro. Seria bom ter alguém para conversar, ele não queria ir para casa tão cedo, não queria sentir-se tão sozinho...
Ela achou que ele havia olhado para ela, finalmente... mas ele virou as costas e foi andando para o estacionamento, ela acompanhou-o com os olhos, pensou por um segundo em correr até ele e perguntar-lhe o nome, se já ia para casa, se não queria tomar uma cerveja ou um café... tarde demais, já perdeu-o de vista. Não era a primeira vez que o via, em algumas festas, cafés, eventos típicos da agenda cultural da cidade, sempre com esse ar de estar tão bem consigo mesmo. Olhava para todos sem realmente olhar, parecia de outro mundo. Ela queria conhecer esse mundo dele, já ensaiou modos de se aproximar, mas ele nunca foca o olhar nela, ele olha através dela. E está sempre sozinho, não dá para ter pistas sobre quem é, o que faz, quem são seus amigos, nada, nenhuma pista... Ela suspirou profundamente e pensou que seria bom conversar com ele, mas era tarde demais, agora ela só podia ir para casa, amanhã era dia de acordar cedo, melhor era dormir, da próxima vez, ela prometeu calada a si mesma, da próxima vez eu pergunto o nome dele. Agora só restava ir embora, o barulho de desligar o motor do carro sempre a incomodou, era o fim da noite, nada mais poderia acontecer, as lágrimas rolaram e pensou em como aquele estranho que a encantava deveria estar bem agora, se sentiu mais sozinha ainda...
Salve, Ana Cullen!!!!
Parece o prenúncio de uma tempestade, um grande amor.
Aquele silêncio infernal, o ar parado, prá no instante seguinte ventos e tempestades sacudirem nossas vidas..
Muito bom...
Estranha magia esta, que atrai pessoas e ao mesmo tempo cria barreiras.
ótima forma de colocar um desencontro. Bom texto.
Salve, Rangel!
É né? Tempestades são meio constantes nos meus textos, de algum modo essa sensação sempre volta... é esse mundo surdo e mudo que vivemos...
Valeu!
Abraços!
Putz, acabei de chegar em casa depois de dois encontros na rua (ambos com mulheres, para manter a dualidade de gênero do texto), um quase furtivo e outro totalmente por acaso e inesperado, do tipo brasília-é-uma-azeitona-provinciana. E os dois tiveram um after-taste de desencontro.
Oportunidades perdidas sux. Mas dão ótimos textos =)
Beijo!
Obrigada Sebastião! Tem momentos em que só sabemos ser barreiras, e nem percebemos!
Pedro, Brasília é um ovo de codorna! E aquele Festival tava cheio desses personagens... pipoca: três reais, cerveja: 2 reais, ingresso: 3 reais, ver e ser visto no Festival de Cinema de Brasília: não tem preço! Mas a quem eu quero enganar? Eu não estava lá sóóó por causa dos filmes...
Beijo!
Legal, Ana! Esse filme já aconteceu com todo mundo, né não?
Ilhandarilha · Vitória, ES 29/11/2006 20:28
Tá muito legal, Ana.
Me faz pensar um bocado.
Bjs
Valeu Rangel!
Então Ilhandarilha, as partes dele sim, mas o que eu gostei desse texto é que são personagens que surgiram do Festival mesmo, não é muito eu desabafando, olhando as pessoas eu comecei a divagar sobre esses desencontros...
Brigada Daniel... quando vamos ver mais das suas fotos por aqui?
Abraços!
Puta-que-pariu!!! Escreveu demais! Tá fantástico! Já viu meu texto sobre o ônibus? Caraca, eu adorei demais! Se pudesse, votava duas ou mais vezes!!!
Adorei muito mesmo. Adorei pra caramba! Adorei demais!
(Tô babando até agora)
Você tocou numa ferida minha, que eu adoro escrever: essas situações de desencontro despremeditado.
Adorei, guria. Gostei muito, fiquei emocionado.
Nuuuuuuu!!!! Sensacional. (encerra a sessão babação.)
Te adoro ainda mais agora.
Nuuuuu, de novo.
Nota 1000!!!!
Ah, e já provou pastel de angú?
zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte, MG 29/12/2006 14:50
Nossa Felipe! Não sei nem o que dizer... nem acho que o texto tá tão bom assim... muitíssissimo obrigada pelo entusiasmo e elogios!!!
Vou ler seu texto sobre o ônibus, não lí ainda...
Nunca comí pastel de angú, e quase todo mundo que respondeu ao e-mail falou desse tal pastel... vou ter que dar um jeito de comer isso, vou ver se acho um restaurante típico de comida mineira por aqui...
Abração Felipe! Valeu de novo pela atenção!
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!