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OLHARES EM TRÂNSITO NA OBRA DE CAIO FERNANDO ABREU

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Alexandre S. · Fortaleza, CE
28/7/2010 · 1 · 0
 

Amostra do texto

Denominado por Lygia Fagundes Telles como um “encantador de serpentes” e um “biógrafo das emoções contemporâneas” Caio Fernando Abreu tem sido redescoberto por uma geração que não o conheceu, mas que avidamente consome seus textos. Nos anos 2000 sua obra foi completamente reeditada, seus textos montados no teatro como nunca em vida e sua morte, como disse Maria Adelaide Amaral, pranteada por milhares de apreciadores. Basta consulta o site de relacionamentos Orkut, com uma comunidade virtual dedicada ao autor que possui mais de vinte e cinco mil participantes, para confirmar este fato.

Tal fenômeno não acontece por acaso, pois além de fornecer um retrato do país e da geração do final do século XX, da perplexidade diante da falência do projeto político da contracultura e do refluxo nas sexualidades com o advento da AIDS, Caio Fernando Abreu é o escritor brasileiro que, juntamente com a poeta Ana Cristina Cesar, antecipou o estilo da novíssima literatura brasileira de início de século XX. Estes autores já apresentavam em seus textos de 1970 uma linguagem confessional, “ligeira”, sem pedantismos ou academicismos. Características marcantes das linguagens presentes hoje nos blogs e hipertextos elaborados em especial pela juventude no ciberespaço. Não é à toa o imenso sucesso destes autores nos espaços virtuais. Seus textos antecipam uma forma de expressão numa época em que não existia nem mesmo email e que computador pessoal era artigo de luxo.

A interlocução da obra de Caio Fernando Abreu com o fenômeno virtual nos mostra a ampliação do conceito de deslocamento que passa, com o advento da Internet, a ser não mais apenas geográfico, mas também virtual através da possibilidade (desigual e conflituosa) de interação entre as diversas culturas. No âmbito dos Estudos Culturais, autores como Stuart Hall, Homi Bhabha e Nestor Garcia Canclini têm refletido sobre estas questões de fronteiras, diásporas e hibridações culturais. Tal fenômeno do não-pertencimento, do estranhamento, tão presentes na obra estrangeira de Caio Fernando Abreu, parece ser um profícuo fio condutor de análise da obra do autor e de nossos tempos.

Ao entrevistar Caio Fernando Abreu ainda na década de 1970 a escritora Tânia Faillaci pontuou: “Caio quer ser um Mago. Por enquanto é um escritor premiado”. Ela traduzia o universo místico, pop e literário que envolveu grande parte da obra do escritor gaúcho, tão em voga hoje, mas naquele momento repudiado pela “literatura de gravata”. Tal qual um dos heterônomos de outro Fernando, o Pessoa, e Clarice Lispector, Caio pertencia a um mundo ancestral de oráculos e bruxos, como bem ressaltou Antônio Gonçalves Filho.
E foi exatamente na manhã do dia 12 de setembro de 1948 que nascia, quase na fronteira com a Argentina, em Santiago do Rio Grande do Sul aquele virginiano. Numa cidade a princípio conservadora. Rodeada de quartéis mas que posteriormente viria a ser conhecida por uma designação bem mais simpática: “a terra dos poetas”.
Embora não tenha se dedicado especificamente ao formato poesia no sentido estrito, é inegável o caráter lírico-lancinante que perpassa toda a obra de Caio. Caráter este iniciado ainda na pré-adolescência, quando a paixão pela literatura se manifestava na leitura voraz e na escrita aos 13 anos do melodrama “A maldição de Saint-Marie” que posteriormente, reformulado e renomeado como “A maldição do Vale Negro”, viria a ganhar o Prêmio Molière de teatro em 1988.

Ainda na adolescência em 1965, vivenciou seu primeiro deslocamento geográfico, fenômeno que marcaria profundamente sua escrita e seus personagens. Foi estudar no Instituto de Porto Alegre, internato localizado na capital gaúcha. É nesta época que Caio tem sua primeira publicação. O conto “o príncipe sapo” impresso na revista Cláudia.

Em 1967 Caio adentra a graduação em Letras pela UFRGS em companhia do futuro escritor João Gilberto Noll. Não se identificando com o curso passa a freqüentar Artes dramáticas, que também abandonará posteriormente. No ano seguinte, o emblemático 1968, Caio adere ao fenômeno juvenil da contracultura fortemente influenciado pelo existencialismo, o movimento hippie e pelo tropicalismo.
Aliás nesta é época que Caio buscava “voz própria” e lutava contra a flagrante influência de sua musa inspiradora, Clarice Lispector que aparecia excessivamente emseus dois primeiros livros “Inventário do Irremediável” (1970) e “Limite branco” (1971).

Perseguido pelo DOPS, a polícia Política da ditadura militar, Caio refugia-se na “casa do sol”, sítio de Hilda Hilst. Ele está vivenciando neste momento outras experiências de deslocamento pois permanece em trânsito entre Rio de Janeiro (onde aprofunda amizade com Clarice Lispector, Nélida Piñon) e São Paulo (onde começa a desenvolver atividade de jornalista em diversos meios da grande mídia).

Em 1973 Caio decide realizar um auto-exílio para a Europa financiado pelos prêmios literários que então recebera. Após passar por Paris e lavar pratos em Estocolmo decide fixar-se na Inglaterra, onde elabora parte de sua a vivencia que comporia a obra póstuma “estranhos estrangeiros”(1996). Ali Caio vive como Hippie em uma squatter house, rouba leite nas portas das casas, trabalha como modelo vivo e é preso por subtrair uma biografia de Virginia Woolf em uma livraria. Neste momento o Flower Power está a todo vapor e Lennon ainda não havia decretado o final do sonho. Como disse o autor gaúcho no prefácio á segunda edição de “O ovo apunhalado”, era um “tempo de dançadas federais. Lindos sonhos dourados e negra repressão. Tempos de Living Theatre expulso do país, do psicodelismo invadindo as ruas para tomar contornos tropicais [...] primeiras overdoses (Janes, Jimi). Eu estava lá. Metido até o pescoço. Apavorado viajante”

Ao retornar ao Brasil Caio colabora em diversos órgãos de imprensa alternativa dos anos 1970, tais quais, Opinião, Movimento, Versus, Ficção, Inéditos, Paralelo e Escrita.

Ao mesmo tempo em que tem trechos censurados do livro “o ovo apunhalado” (1976), por serem tidos como “imorais”, a presença marcante dos textos de Caio na mídia alternativa possibilitará a publicação de dois de seus contos na antologia “histórias de um novo tempo”(1977) pela editora Codecri pertencente ao jornal “O pasquim”. Com o sucesso editorial do volume Caio passa a ser anunciado como um dos novos escritores da literatura brasileira. Em 1977 publica ainda “Pedras de Calcutá”, que reflete sobre toda uma geração criada sob a sombra da ditadura e começa a esboçar alguns contos daquela que seria sua obra mais aclamada “morango mofados”. O livro, finalizado em 1979, é uma reflexão sobre o final do sonho da contracultura e seus projetos. Contudo, é somente publicado em 1982, ano em que vira um dos maiores sucessos editoriais da década. Vale salientar que “Morangos mofados” foi considerado pela Revista Bravo!, nos anos 2000, como uma das cem obras definitivas da literatura brasileira de todos os tempos.

Já os anos 1980 começam com uma contradição intrínseca. Tempos de redemocratização, do fortalecimento dos novos movimentos sociais. Mas também anos de refluxos nos movimentos de liberação sexual, aos quais Caio involuntariamente, sempre foi uma espécie de porta voz através de sua obra. Anos de recessão econômica e de descoberta do vírus HIV. Em sua arte Caio expressava como ninguém aquele quadro onde o país aparece “explorado, humilhado, escroto, vulgar, maltratado, sem um tostão no bolso, cheio de dívidas, solidão, doença e medo”, como disse em crônica publicada no Jornal “O estado de São Paulo”. Este clima tem reflexo em sua obra posterior. “O triângulo das águas”(1984), é a primeira obra da literatura brasileira, através da novela “pela noite”, onde aparece a palavra AIDS. Composto por três estórias vence a maior horária da literatura brasileira “o prêmio Jabuti” na categoria melhor livro de contos.

O próximo prêmio jabuti viria em 1988 com a publicação daquela que é considerado sua obra mais madura: “Os dragões não conhecem o paraíso”. A solidão, o isolamento e ao mesmo tempo a ânsia por pelo encontro no meio da noite urbana ilustram esta fase do autor. O livro é publicado na Inglaterra com uma excelente crítica de David Treece. Naquela mesma década Caio, que já trabalhara como redator em revistas como Manchete, Pais e Filhos e POP, escreve para as revistas Gallery Around, Leia Livros e diversos suplementos literários. Publica o livro infantil “As frangas”(1988), redige quinzenalmente crônicas no jornal “O Estado de São Paulo”, escreve roteiros para TV e cinema. Ironicamente o autor intitula estas atividades como “coser para fora” ou “biscates culturais”. Trabalho duro para depois se dedicar à paixão maior: a literatura.

No início da década de 1990 publica seu maior sucesso internacional. “Onde andará Dulce Veiga?” é traduzido para o inglês, alemão, francês, holandês e é indicado ao prêmio Laure-Bataillon de melhor romance internacional, ao lado de nomes como Paul Auster. O livro viria a ser adaptado em 2002 para o cinema sob a direção de Guilherme de Almeida Prado. Ainda nos anos 1990 Caio Fernando Abreu volta à condição de estrangeiro para lançamentos e diversos congressos de literatura na Europa ao lado de escritores como Lygia Fagundes Telles e Rubem Fonseca . Em 1992 é convidado pela Maison des Écrivains Étrangers para uma bolsa de dois meses onde publica a novela “Bien Loin de mairenbad”. Expressão máxima de sua elaboração sobre o fenômeno do deslocamento, do desterro. O meteórico sucesso e as viagens internacionais são interrompidas por diversos sintomas que fazem Caio voltar ao Brasil em 1994 e ser diagnosticado como portador do vírus da AIDS.

Em seus últimos anos de vida dedicou-se à revisão de suas obras, à compilação de suas crônicas, bem como à publicação do que ele mesmo chamou de um livro pré-póstumo. “Ovelhas Negras” (1996) é a coletânea de textos rejeitados que daria ao autor o seu terceiro prêmio Jabuti. Caio Fernando Abreu faleceu em 25 de fevereiro de 1996 deixando inacabado o livro “Estranhos estrangeiros” que viria a ser publicado naquele mesmo ano. Caio viveu em trânsito tendo plena consciência de que, como disse sua amiga e interlocutora Ana Cristina Cesar, “é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço”. Seja ele virtual ou não.

Sobre a obra

Texto sobre o estrangeiro, o exílio, o não-pertencimento real ou virtual como possível fio condutor da obra do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu.

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Autoria
Alexandre Nunes de Sousa
Ficha técnica
Alexandre Nunes de Sousa - autor
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