olhos de sobrancelhas dançantes

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rute vieira · Arapiraca, AL
15/8/2014 · 2 · 1
 

Tinha olhos de um castanho cinzentos. Nem grave, nem meigo, sua fisionomia, austera, ríspida, ausente de carinho e caricias. Inóspito como o sertão. Seco, estéreo, sem a macies das chuvas, que abranda a austeridade da alma e da face. Ele era ríspido, de poucas palavras. Seu cigarro de palha num canto da boca soltava vez ou outra uma longa baforada, de fumaça branca, lembrando nevoas do frio inverno que não vem. Sempre amontoado a um canto da casa, pensativo, deixava-se ali ficar por longas horas. Mãos grandes, grossas, calejadas. Pés grandes grossos, enormes. Pareciam inchados. De baixa estatura, as mãos e os pés contrastavam com o resto do corpo. Mas, a alegria sempre vinha. Se não espontânea, vinha, à custa da pinga. Aguardente barata, comprada com o pouco dinheiro adquirido com tanto custo. Sofrido mesmo. Do trabalho árduo, sob o sol escaldante. A terra quente que lhe queimava a sola dos pés. Trabalho duro, nas terras alheias, que jamais seriam suas. Talvez em um sonho, em seus sonhos, se é que sonhava. Talvez sonhasse. Acordado, sob o peso da enxada. Então, sorria, um sorriso largo, que lhe alumiava a face, e deixava a mostra a dentadura gasta. Danava então a falar. E como falava de uma fala mansa, compassada. Contava causos, coisas dos outros tempos. Tempo de menos fartura, de vida dura, de homens de coragem, de palavra. Homens figurões, e outros nem tanto. Conhecia de tudo. Sabia a origem de cada morador das redondezas. Sempre morara ali. E ali morreria. Dizia isso, entre uma baforada e outra, um gole grande de pinga, acompanhado de farta cuspida. Gostava de ouvi-lo. Porem o que mais me impressionava, não era sua forma de falar. Seu jeito de dar rodeios para enfeitar as estórias, ou seu jeito de contar piada, rindo entre os dentes. Sempre que o ouvinte caia em gargalhada. Eram suas sobrancelhas. Largas, cheias. Que faziam um movimento de sobe e desce, ia e vinha, enquanto que todos os outros músculos da face pareciam imutáveis. Imóveis. As sobrancelhas pareciam dançar. Um balé imaginário. Parecia que ganhavam vida. Senhora soberana, reinando em um reino de fantasia. E como ele ria de satisfação. As sobrancelhas, adquirindo vida própria, separam-se do restante do corpo. Maestrinamente, encantavam-me com seu dançar. E falavam, contavam estórias, mil vezes mais engraçadas. E eu, ali embebida em sua dança enigmática, hipnotizante. Feito cigano enfeitiçava-me. E eu ia. Ia longe, no seu bailar. Sonhar sonhos delas. Contente, também sorria sem ouvir mais as palavras dele, que se se tornara um som ininteligível. Apenas ouvindo com os olhos o que seu par de sobrancelhas contava. Então eu, ali, via que sabe o que ninguém mais era capaz de perceber. O homem, simples e sedentos por melhorias, por mudanças, mas, inviáveis. Então, trancara-se dentro de si. E só de vez em quando. De quando em quando, deixava seus sonhos, anestesiados pelo álcool emergir. Vir à tona. Mas não o conseguia transportar as palavras, aos gestos, sua fisionomia era plástica, sem emoção. Saiam-lhes pelas sobrancelhas. Que de pesadas matronas, tornavam-se leves bailarinas. Elas sim, ligeiras, hábeis, contavam os sonhos que ele sonhava e sonhara. Transmutadas. Adquirindo vida. Faceiras, galantes. E eu, embebida, percorria seus sonhos abortados de infância, de homem novo, de velho homem. Ressequidos pelo tempo. Pela aspereza da vida. Pelo clima seco e empoeirado do sertão. O sertão adentrara-se nele. Feito um outro eu. Um outro tão diverso dele e tão ele. Misturando-se. Confundindo-se. As sobrancelhas, alheias a tudo, ignoravam esse seu aspecto peculiar. E sorridentes, feito menina, faceira, seguia dançando, bailando, como deveria ser seu coração em dias de chuva. Menina arteira. Teimando em ser feliz, ainda que ignorando, se fazendo ignorar, o sofrimento do coração dele. Elas representavam vida. Frescor, mocidade, que ele a muito esquecera. Ou quem sabe, nunca o soubera. Pessoas distintas, compondo o mesmo quadro. Sendo nem um nem outro. Sendo apenas. Qualquer coisa, inexplicável. Mas sendo, sendo sempre. Ele ébrio, de fala turva, de olhar embaçado, elas, vívidas. Revelando a humanidade embrutecida nele e aflorada nelas. Ele, bicho bruto, embrutecido. Cão com raiva, elas a doçura da primavera. Então, para meu deleite, olhava-as, com carinho e ternura, fascinada. Talvez só eu visse isso tudo nele. Quem sabe, minha imaginação enfeitava o cacoete dele. Quem sabe? Só sei, que o conheci, ali naquele sertão, seco, de fome perpétua, de sonhos vazios. Onde a pobreza revela no homem sua pior característica: a de parasita. Sugando o nada, o pó da terra que não lhe pertence. Obedecendo feito boi que segue ao matadouro, e solta seu mungido lânguido e triste, mas obedece a sina triste, e vai servir de ração a outros. Assim era ele. Carente de mudanças, sedento, ressequido, tórrido. Sem esboçar qualquer resistência, remava sem rumo sua vida, pelo habito da repetição. Da mesmice. Corriqueira, vulgar. Sem imaginação ou repressão desta. Talvez por medo. Medo de mudanças, que alteraria seu compasso lento já costumeiro. Ou a certeza dilacerante, de sua impotência em mudar. Simples ser, tolhido, esculpido, moldado a conformação. E ali, seguia indo, do nada para um nada ainda mais triste. Alegrias? Sim, sorria, um sorriso bêbado, bobo, alterado pelo álcool, anestesiado, sem sentido, razão de ser. Por que ele nada era, além da repetição. Repetia os passos de seus antepassados, esquecidos, e perpetuados em sua pessoa. Bruto feito bicho, arredio, fugidio. De sobressalto, assustado. Oh! Teria sido tudo apenas fruto de minha imaginação fértil? Teria ele sido diferente do que conto? Como sabe-lo? Não sei. E minha proximidade escassa, visitas raríssimas, teriam maquinalmente sofrido, distorcido o que a realidade imperiosa a mim mostrava? E eu feito burro empacado, teimoso, fizera, compusera um quadro que só era visto por meus olhos desejosos por qualquer coisa que não fosse o que a mim era imputado, forçado a aceitar com naturalidade, enquanto, as turras com meu espiro inquieto buscava grandezas numa vida miúda e improdutiva? Talvez por que não nascido no sertão, não sendo gente daquela gente, me abrisse os olhos para uma dor secular, que não só estava impregnado no corpo com suas marcas purulentas, mas estava em seu olhar de boi triste, em seu falar aquebrantado, seu andar arrastado, que dava a ele um gesto de tolo, abestalhado, adestrado a obediência sega, ainda sendo tão bruto feito um cão raivoso? Se no mais mais do dia, seu comportamento era a de um cão sarnento, ganindo baixinho pelos cantos? Controverso, como tem que ser? Ou seria eu, tão contraria a mim mesma que vejo nos outros o reflexo da minha contradição? Pode ser. Por que não? mas acredito , acredito no mais fundo de meu ser, que aquele clima sertanejo, de escassez abundante, fez dele aquilo que ele era, um ser que cumpria fielmente o seu papel, incumbido sabe-se lá por quem, uma ordem estabelecida, por mãos invisíveis, ininteligível, desde o alvorecer dos tempos. Rompendo a aurora dos dias perpetuamente, imutável, inabalável. Mas, suas sobrancelhas, ah! Elas jamais sucumbiram a fatalidade do destino, e teimavam em ser a voz daquele rosto, em representar a ele, simples cumpridor de papéis, e ser uma fonte de expressão genuína, sua marca. Certamente, lá no fundo, ele também teimasse e quisesse, feito elas, alçar voou rumo a liberdade.

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rute vieira
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alcanu
 

Você escreve muito bem, com uma velocidade cruel, uma tristeza sórdida, uma maldade necessária, você mostrab as feridas, as pústulas, passa pra gente o verdadeiro sentido do que diz !
Eu estava mesmo precisando ler algo assim ...
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 29/10/2014 17:46
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