Ônibus das 11:10h
Em torno da 11h eles já começavam a se reunir logo nas imediações da parada de ônibus, do velho e conhecido por todos, “ o Barroso”, o seu trajeto era repleto de paradas e o nome da linha se referia a um bairro, que ficava pouco antes de Messejana.
Pelo fato da estrada ser ruim, os ônibus que eram destinados a realizar o trajeto eram no mínimo péssimos, e davam “o prego” constantemente. As características eram as mesmas, sempre muito velhos, carcaças bastante desgastadas a ponto de parecerem soltas, a cada curva a sensação era de que o veículo iria virar, vidros e bancos quebrados eram comuns, a sujeira era simplesmente absurda, fora o barulho ensurdecedor.
Mas isso não constituía problemas pros adolescentes que embarcavam às 11:10h, afinal eles pouco observavam esses “detalhes”. Eram alunos do colégio Cearense, Pio X, João Pontes, colégio Brasil, entre outros das redondezas da Praça Coração de Jesus em Fortaleza.
Na verdade, voltar no “Barroso” era a maior expectativa, visto que os alunos se preparavam com espigas de milho, caroços de pitomba e embalagens de desodorantes para o “ataque” que impreterivelmente ocorria na viagem de volta.
Logicamente, eles não aguardavam na fila, mas quando o inconfundível veículo apontava na esquina, alguém gritava “invadir! Invadir! Invadir!”, e todos corriam como podiam em direção a estreita porta a pressão, que de tão gasta permitia a passagem dos mais esbeltos com algum esforço. O problema, é que as pessoas que esperavam na fila ficavam furiosas, porém ninguém se atrevia a se meter entre eles, estavam “ficando robustos”...
Naquele dia em particular, havia uma senhora esquisita na fila. Logo chamou atenção pelas vestes extravagantemente coloridas, sua maquiagem forte e borrada, além das várias saias superpostas, com detalhes e tamanhos diferentes, muitas pulseiras, colares, muitos adornos de cores diversas, um turbante na cabeça.
Claro, que na hora que os estudantes “invadiram” e simplesmente tomaram a frente das pessoas se agarrando aos apoios laterais da porta traseira quando o ônibus ainda nem havia parado, ela berrou “Bando de cavalo! Vocês estudam pra que? Seus brutos!”. Sua voz foi abafada pelo barulho do carro que fazia manobras pra frente e pra trás, enquanto alguns permaneciam grudados na porta, outros começaram a empurrar para entrar assim que o veículo se parasse.
Começou a “massagem”, era tanta pressão pra lados opostos que ninguém saía do lugar, até que o mais forte retorceu-se mandando cotoveladas ao vento e tomou a frente dos que estavam na porta, pois estavam imóveis devido à pressão contra o veículo. Alguém diz “abre a porta motorista!”, de mediato a resposta vem do fiscal, “não está na hora”.
Forçavam um pouco as borrachas e as portas velhas, que já não ofereciam muita resistência se abriam. Logo, alguns entravam, outros eram derrubados ou pisados, mas fazia parte do “show”. O interessante, é que faziam tanta confusão pra entrar e não sentavam nos assentos. Preferiam ir de pé, pra poder executar os planos de ataque, o primeiro no sinal da Aguanambi e o segundo na parada do Lourenço Filho
Na subida, a mulher, dos seus aproximadamente sessenta anos não se controlou ao ver tamanhos absurdos, e começou a falar sem parar “Estudante é coisa do coisa do cão! Num tá vendo isso, falta de educação! Bando de bicho! Deviam tá numa jaula! Devia ser proibido estudante andar de coletivo, eles não são gente! Ô Seu motorista, tome uma providência, o senhor é que tem esse direito! Mande esses moleques calarem a boca! Eles fazem muita zoada, tá que é um inferno isso aqui!”
O motorista fez ouvido de mercador, afinal, seus passageiros eram os alunos, ele por fazer aquele horário há muitos anos já havia se afeiçoado a meninada e até contribuía pra algazarra. Vira e mexe fazia arrancadas e paradas bruscas e todos gritavam em coro “ôôôôôahhhhhhhhh” segurando onde dava, e o som era sempre nas alturas!
Isso fazia com que a mulher se irritasse cada vez mais. Ao perceber que era ignorada passou a baixar o nível, e a fazer agressões verbais. Já não sabia quem ofendesse, então saiu xingando todo mundo, desde os estudantes ao trocador, motorista culminando na mãe do motorista. Aí o bicho pegou!
As essas alturas rolava um bate boca danado no ônibus, eram todos contra a mulher. Enquanto ocorria a discussão, na parada da avenida Aguanambi, aconteceu o primeiro tiro de lançamento de sabugos de espigas de milho e caroços de pitomba ao alvo, ao dar partida foram contabilizados cinco veículos atingidos no seu interior bem na cara da “patricinha ou no mauricinho”. Os pontos foram anotados para os respectivos lançadores.
Para evitar ouvir mais abusos, o motorista resolveu aumentar o som. O ônibus ficou completamente absorvido em ruídos, a mulher parecia “a cão chupando manga”! Até o trocador, que era um cara de paz, estava indignado.
Segunda parada de ataque, Lourenço “baixa todo mundo, se abaixa, se abaixa ai”, algumas poucas pessoas entraram. Aquele horário era conhecido, quem ia pela primeira vez, não ia nunca mais. Quando o motorista deu sinal de partida lá vem o grito de ordem “agoooooooooora!!”, e várias mãos saíram das janelas borrifando algum tipo de líquido nas pessoas da parada com suas embalagens de desodorante lotadas. Ouviam-se alguns gritos e ofensas de toda qualidade, mas no interior do ônibus todos estavam dormentes de tanto rir. Isso tudo porque alguns do João Pontes não se davam bem com outros do Lourenço Filho.
Continuou a viagem com a confusão cada vez mais inflamada. Os estudantes, que agora já respondiam, nos mesmos termos, provocavam naquela humilde senhora a extrapolação do que havia de mais sujo no seu vocabulário.
Ocorre que no meio de tanta confusão, a mulher estendeu o braço e puxou o fio dando sinal ao motorista para descer. Porém, devido a tanto barulho o motorista não ouviu o sinal e passou do lugar.
Imediatamente, a mulher esbravejando ódio dirigiu-se ao motorista e de modo estúpido, aos gritos disse “seu motorista!!tá doido? surdo? é os dois tudo junto? tá com mal de corno? Olhe, faz um tempão que eu puxo no cordão dessa descarga aqui e você não pára pra eu descer!”. Estarrecido, o motorista não teve outra reação senão parar imediatamente, mas estava engasgado com tanto desaforo então disse logo que parou em alto e bom tom “então pode descer seu monte de merda!”
Essa história se passou na realidade há cerca de 20 anos, havia uma precariedade ainda maior do transporte público. Ainda hoje em alguns lugares a fila não é respeitada, e predomina a lei do mais forte, isso já acontecia e um dos fatores contribuintes era e ainda é a carência de transporte público suficiente e de qualidade, especialmente em algumas linhas. O centro de Fortaleza era o lugar onde se concentrava de fato o comércio e a maioria das escolas, diferente de hoje que se encontra descentralizado. Os estudantes podiam usar o transporte público, que apesar de mal conservado ainda era um meio seguro. Quanto a "mulher esquisita" ela também é real, e foi vista várias outras vezes, não sabemos ao certo se a maneira dela se vertir faz parte de alguma cultura ou religião, enfim foi realmente hilariante.
RSRSRS...Nunca imaginei que surgisse alguém que pudesse lembrar daquelas travessuras. Sei bem que é verdade...kkkkk! Tinha manga também viu? Acho que você manerou! Lembro dessa mulher, falava muitos palavrões...rsrs! Bem lembrada e contada viu? A parte da "descarga" então! O motorista era muito louco, adorava a meninada e a bagunga, ele morreu do coração ainda jovem sabia? Mas lembro quando ele disse -desce sua ruma de bosta! Foi um coral de vaia! Bom vasculhar por aqui...Vou olhar o que voce escreve mais tá? Mas por hoje já me fez relembrar bastante!
KUKA · Itaitinga, CE 11/10/2009 19:27
Belo texto e lamentável episódio, pela falta de coletivos decentes e de estudantes que faltam com o respeito... Mas isso é passado.
kfarias.
Conheço essa história, de fato é verídica e deu muito no que falar. Ainda hoje é motivo de lorotas em rodas de amigos, que na época participaram do ocorrido. O fato pode ser lamentável caro Kfarias, mas na época era uma diversão, não eram os únicos, havia uma verdadeira concorrência entre escolas particulares, especialmente em copas, as richas ficavam o ano inteiro até a copa seguinte. Era uma forma de manter a competitividade acesa, eu acho. Podia não ser a mais saudável...Na realidade era um revide. Mas muito bem relatado por nossa amiga, essa senhora de quem ela fala, realmente era uma graça. Não me parecia psiquiatricamente normal, a julgar pela forma hiper extravagante de verstir, realmente ela usava várias saias longas e médias umas por cima das outras, vários colares, uma mistura de cigana com ubandista ou algum tipo de figura mística ou sei lá o que. Era motivo de riso por si só! Ainda assim, ninguém falava nada até ela provocar um barraco, porque era natural dela essa prática. Acho que esse dia foi uma coincidência de vários elementos que culminou nesse resultado. Na verdade foi hilário! Parbéns, a você Valéria, você foi crítica e criativa. A verdade doi! Mas adorei! Um grande abraço!
KUKA · Itaitinga, CE 16/10/2009 07:18Kfarias, concordo que seja lamentável por um lado....mas por outro é bem cômico não acha?
M.P.Moura · Canindé, CE 18/10/2009 15:12
Simplesmente delicioso o seu jeito de narrar !
Um beijo !
Isso é hilário....rsrsrs, o pior é que acontecem ainda coisas bem piores.
Livdina · Fortaleza, CE 23/10/2009 12:48
Vc contando qq história fica interessante...
Yuri Ucho · Fortaleza, CE 25/10/2009 20:15
Esse aí...tem muito q contar...rsrsrs Parabéns pela narração tão perfeita e tão realista!
Alex Matos · Fortaleza, CE 26/10/2009 06:27
Essa foi boa! Muito bem contada mesmo...e com classe, apesar do conteúdo ser melindroso rsrsrsrs! C certeza não saberia contar de uma forma tá delicada e ao mesmo tempo emgraçada uma situação assim tão grotesca. Parabéns! A narração foi mamavilhosa!
Valquiria Tess · Fortaleza, CE 26/10/2009 07:44Adoro histórias engraçadas, e quando são verdaeiras fico imaginando e vivendo a cena, meio que fazebdo parte dela. Esse lance de "puxar o cordão da descarga" rsrsrsrsr só deu pro motorista memso. Cordão de descarga só tem na privada...rsrsrs por isso ele disse "pois desça sua merda" rsrsrs. não dava pra acabar em outra coisa.....rsrsrs Mt boa!
Lara tess · Amaral Ferrador, RS 26/10/2009 09:05Pelo visto esse a hora de voltar era a melhor....rsrs. Essas coisas da nossa junventude é que são boas de lembrar. Ninguém diz aos filhos que fez é claro! Mas que é bom relembrar é.....
Armando S.C · Fortaleza, CE 31/10/2009 08:44Putz! Sinistro hein? Ki comédia essa aí! Imagina só como tava dentro do busão!
Luciana Vieira · Andaraí, BA 2/11/2009 14:41
Val, parabéns pelo seu aniversário, hj dia 05/12/09. Estou no limite eu sei! Mas vc é o máximo! Quem quiser conhecer melhor essa mulher maravilhosa siga seu blog: http://valeriaaraujocavalcante.blogspot.com/
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!