Rua Alcindo Guanabara 17.
Não tinha erro. Olhou só para confirmar o pedaço de papel, indicação do tio Luís. Soube meio sem jeito do segredo do velho, como deve ter penado esconder da mulher.
Agora achava graça, o tio, porteiro de cinema pornô... Imaginou as noites de amor, será que lhe sobrava ânimo depois de dias cheios de sacanagem? Daí entendeu a estupidez da tia. Os cascudos na cabeça, os banhos quentes que lhe esfolavam a pele, a camisa engomada, ele era a vingança perfeita.
Menino, calado, obediente. Menino moldado pela tia, dessas evangélicas até a pleura, sem espaço para crescer. Nunca tomou banho de trinco.
A tia sempre inspecionava a porta.
De madrugada, sob o pretexto de beber água, ela se esgueirava no quartinho do sobrinho, levantando lençol, cuidando que não houvesse mão boba... Denilson ia se esticando, nascendo pêlo, engrossando voz, e a tia feito cão fila, espiava até fechadura. Naquele dia, em plena ação de tímido prazer, ela pôs a porta abaixo.
"Foi para isso que te criei? Desavergonhado dos infernos ajoelha agora! Ajoelha Denilson, pede perdão ao Senhor! O homem não deve desperdiçar sua semente, pede perdão!"
Ele murchou na hora, estava quase lá, na entrada do paraíso, e foi arrancado. Só lembrava do chão frio,a cabeça pesada. Nu, da cintura para baixo,pedia perdão.
Foi a partir daí o sem jeito com as mulheres,a quase impotência.A ejaculação precoce.Lembrança da tia,do seu olho e suas palavras que metiam pavor.Denilson era a chacota em roda de amigos.Denilson era virgem passado dos trinta anos.
Sentia raiva do velho, por quê ele,que era homem,não tomava partido do sobrinho? Nunca desafiou a mulher,nunca veio em auxílio,consolo,nada! Tinha o rabo preso, tudo se encaixava agora. Mas, antes de morrer, deu a volta em Laurita. Entregou de bandeja o endereço do antigo emprego.
E fechou de vez os olhos para acordar em um inferno cheio de diabinhas fogosas.
Denilson mastigava os restos do saquinho de pipocas, na intenção de entrar. Estava tão nervoso que lhe veio uma ereção. Ficou durinho. Resolveu entrar na pressa, como cliente mesmo, bater uma rápida e então falar com o gerente. Foi entrando aos tropeções, a sala era muito escura, a retina demorava a acostumar, sentia uma pressão que lhe arrebentava o meio das pernas, não achava um lugar para sentar, apertava o saco de pipoca, até se dar conta de olhar para a tela. Uma bunda imensa, a maior do mundo, aquilo se aproximava de Denilson que parou ao escutar a voz melosa de “mete... mete”.
Foi aquele gozo instantâneo. Sofrido, rápido e sem sabor. Mesmo assim, conseguiu o emprego.
Era o bonzinho da turma. Aquele ser inofensivo que entregava as marmitas para as meninas seminuas que faziam o show das matinês. Elas nunca se incomodavam em desabotoar os sutiãs, cores quentes, enfiar calcinhas de aberturinhas estratégicas, depilar as xoxotas...
No começo foi difícil para Denilson. Inventava desculpas, dava um pulo no banheiro, com ele era sempre rápido. Desafogado, até mesmo triste, voltava para as meninas, ajudava com os cremes. Teve uma que certa vez, sentindo um ardor anormal, abriu as pernas e pediu que ele enfiasse o dedo para ver se sentia alguma coisa. Suando bastante, ele com uma pinça retirou de dentro da moça uma unha postiça. Era do travesti de quarta-feira. Denilson era o verdadeiro homem-objeto. Fazia tudo sem poder fazer nada! Nadava em um mar de bucetinhas peludas,calvas,rosas,roxas,bundas de maçã,umbigos que derramaria com vontade sua semente...
“Ajoelha, ajoelha e pede perdão!!”.E o sonho acabava aí.Nem céu,nem inferno,estaria para sempre condenado ao quase.Inventou uma noiva.Por isso muitas o tinham por efeminado.
“E aí, Denilson, vamos tomar um chopinho com tua noiva mais tarde?”
“Ah... é que a Suzana tá assim, um pouco resfriada, não vai dar, fica pra próxima...”
Dia dos namorados. Sessão dupla com Cynthia Love e Márcio GG. Os boys do centro, os engravatados, os desocupados, já estavam sentados, degustando o filminho de abertura, alguns iam cuspindo na mão, alisando devagar o camarada, o pau de todos em comunhão ao pau de Márcio, conhecido por “sem dó nem piedade”. Através do mulato eles também iriam comer a sobremesa e se lambuzar quando a cortina abrisse.
Denilson estranhou o nervosismo do gerente.
“Aquele cretino foi me deixar na mão justo hoje! É o cacete! Aquele não arruma mais trabalho!”
Continuou, porém, o serviço de limpeza e estava com o rolo de papel higiênico nas mãos, quando o gerente gritou:
“Denilson vem aqui! O Márcio abandonou o barco! Larga isso, porque hoje quem passa o rodo na Cynthia é você!!”
Ele sentiu um momento de ausência e sua masculinidade encolheu dentro da calça...
“Seu Josias, eu... tenho noiva, sabe, ela não vai gostar se...”
“Deixa de besteira, meu filho... olha, vais ganhar um extra... compra umas flores pra ela, leva pra jantar e tá tudo certo! Agora vai lá se preparar!”
“Mas eu não sou ator... desses de palco... eu não sei o que dizer...”, as palavras iam saindo com dificuldade, engasgadas.
“Denilson!”, o gerente o encostou na parede,sem paciência.
”Eu não preciso que você fale. Eu preciso que você esfole a Cynthia. Por mim pode ficar até mudo. Mas esfola ela. E se demorar melhor. Sessão dupla, Denilson!”
Virgem e ejaculador precoce. Mais rápido que um galo. Ele transpirava, e o medo sempre fazia com que ficasse em ereção... Cynthia foi logo vendo e se animando.
“Assim é que eu gosto! Ih... que cara é essa meu bem? Deixa que eu vou fazer bem bonitinho,tá?”
Não dava para fugir, a Cynthia era uma garota legal, tinha filho, resolveu apelar para esse sentimento materno, ainda que em uma hora imprópria... Faltava cinco minutos para a cortina abrir e despejarem sobre ele a luz de cena.Desabafou.
“Eu não tenho noiva, eu não sou gay, eu sou virgem, entendeu? Virgem!”
Os olhos dela se enterneceram. Chegou perto e beijou-lhe a boca. Denilson sentiu um gosto bom. Quente.
“Agora é você que vai me fazer mulher, percebeu?”
O paraíso se abriu.
O beijo foi o perdão do passado. Em cima de uma cama de lençol vermelho sangue, outro homem surgiu. Cynthia era possuída pela frente, por trás, em pé, lambida, sugada, beijada, adorada...
O público comungava com Denilson, insaciável, ardente, vivo, pela primeira vez, vivo!
E quem nunca deu nada por ele, naquele dia pagou a língua. O cinema veio abaixo quando Cynthia falou, a voz rasgada:
“Ai, Denilson, não agüento mais... vou...”
A audiência estremecia. Aquele não era um gozo fingido. Invadiu a sala, entrou pelos corredores escuros, se fixou no ar.
Denilson então se ajoelhou. Para que ela pudesse sorver em sua boca macia o prazer escondido.
O velho, onde estivesse, estaria sorrindo.
Denílson é a versão Carlos Zéfiro do Salustiano...
Lu,
Há tanto a comentar de seu texto que nem sei por onde começar...mas vou me esforçar, não tanto quanto o Denilson...rs
O que me salta aos olhos ao longo do texto é a sua escolha do local para tratar de um tema delicado, um cinema pornô, e um "abusado" emocional. Um contraponto bombástico!!!!
Outro ponto que eu não pude deixar de perceber é o momento em que ele entra com um saco de pipocas no cinema, só aí dá pnao pra manga de análise....
O erotismo explícito traz um charme ao escrito, gosto dessa maneira de escrever, nua e crua!rs
Aos desavisados poderia ser apenas um conto erótico, mas não, ao meu ver se trata de algo próximo à emancipação masculina, a um rito de passagem deste gênero, que a cada dia fica mais deixado de lado. Bem, sei que tem mais coisa aí dentro: a tia, as meninas, o menino bonzinho, etc e tal...
Mas os caracteres estão acabando....rs
Fica aqui a minha parabenização ao seu texto e ao seu trabalho, fã que sou!
beijos
Lu,
concordo com o Cris,
há muito a comentar
Ainda bem que Denilson superou o trauma.
bjssssss
Alcindo Guanabara, não poderia ter escolhido lugar melhor.
Um texto envolvente minha querida.Poderia ficar aqui horas.
Do erotismo à pipoca,tudo perfeito.E os traumas se foram.
Votos e carinho.
Não gosto de indicar que votei, mas nesse seu trabalho: VOTEI!!!!!!
Cristiano Melo · Brasília, DF 6/9/2008 10:04
O Cristiano deu até duas por aqui, que coisa, Luciana, você captou e muito bem, por sinal o Universo masculino !
A masturbação é um estigma para muita gente, nós homens, quando forçados a ficarmos muito tempo sem termos uma relação decente, recorremos muito a ela, pois somos "bichos" acostumados desde pequeno naquela coisinha dura e instigante, quando assistimos aos filmes pornôs e vemos aquelas performances loucas com mais de meia hora, adiamos a "nossa" ejaculação pra gozarmos junto, todo homem faz isso, pra que omitir isso, se faz parte de um Universo que elas gostariam de conhecer ?
mulher geralmente odeia filme pornô porque ela é quase sempre gozada ( desculpe ) !
Então o homem vai crescendo e percebe que se tiver o cuidado de demorar tanto quanto a cena que assiste, fará uma mulher extremamente feliz e, sinceramente acho que é isso que toda mulher deseja:
Um cara que resista dentro dela, varie as posições, pérgunte delicadamente se já póde gozar, porra, o que uma mulher iria querer mais?
mulher demora, seu sexo é pra dentro e ela precisa de um tipo de estímulo que a maioria dos homens não tem paciência ou tempo pra dar , rsssssssssssssss
Um aficcionado de filmes pornôs tem muito mais chance de proporcionar à sua eleita momentos intermináveis de prazer do que outro comum, talvez até um incômodo e complexado ejaculador precoce...
Ser homem, entre outras coisas é saber esperar a mulher gozar e deixá-la louca com isso.
Ternho amigos ( aí já é muito exagero, mas eu juro que é verdade ! )
que ao irem encontrar uma garota muito, hã, digamos , gostosa, se masturba e goza antes do encontro, pra ficar mais tempo, hã, "em ação" !
Que me perdoem os pudendos, mas a sacanagem é fundamental !@
Obrigado Luciana , pela brecha ( ai, juro que foi sem querer, esse trocadilho é horrível ! )
Jorros de prazer pra você, viu ?
Falar de sexo é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito bom !
Um beijo !
Alcanu
Querida LUUUUUUU!!
Muito bom!!Um texto com uma linguagem explícita, mas cheios de simbologia...gostei muito! O tabú em relação à masturbação...,o rito de passagem masculino....a perda da virgindade dos homens q são muitas vezes forçados a perder muito cedo a virgindade, senão não são machos...etc.
Coitadinho do Denilson, mas que bom no final a Cynthia ter dado um jeitinho nisso...
Parabéns,Lu, pela ousadia e sensibilidade!
beijinhos bluecarinhosos...
Blue
Beleza Luciana! Votado de cara! Parabens. bjs
victorvapf · Belo Horizonte, MG 7/9/2008 17:49
Segunda Tentativa de envio!!! Gente ,escrevi para todos e tava tão bom,aí o computador deu aquela engasgada e a mensagem fatal...é preciso estar logado!!! Eu quase surtei,mais do que a tia do Denilson!!! Mas ,vamos lá...
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 7/9/2008 21:05
Cristiano...
Já soube que o encontro foi sensacional!!! Mas não irá faltar oportunidades...Na verdade,o Denilson é um herói da estirpe dos grandes cavaleiros medievais...E o ritual de passagem está lá,sempre esteve ancorado nas tragédias e comédias da antiguidade.Denilson e sua Hidra e seu saquinho de pipoca...Aprecio cada vírgula sua,vou redescobrindo também o conto,e pelo menos nisso a idade é vantajosa...nossos neurônios vão ficando mais sábios e amalucados...E poucos seguram a gente,viramos passarinhos vadios,mais firmes do lugar para onde ir,se deixando amar,provando a vida com mais gosto,assim como o Denilson...Um beijo grande!!
Doroni,
querida,mulher é fogo! Ofélias suicidas e desesperadas,Medéias homicidas e apaixonadas,Julietas ingênuas e arrebatadoras...A lista é enorme!! Mas muitas vezes temos que deixar de pensar muito e partir para a simplicidade...Eu gosto e quero você! Pronto! Não há trauma que resista,rsrsrsrsr.... Beijos de tamanduá! Bem apertado!!
Clara,
realmente a pipoca é um caso à parte!! O que é a pipoca? Um mero grão acabrunhado,duro,sem sabor,e que de repente,no meio de uma quentura,sem ter por onde escapar,estoura,se transforma em um objeto do desejo...As transformações são dolorosas mas necessárias,rsrsrsr...Beijos,querida!!
Alcanu!! Que aula!! Fico feliz por ter tocado um pouco esse universo feminino! E se a masturbação é um estigma para os meninos,futuros heróis...imagine a situação das mulheres? Falar tais coisas,é o passaporte direto para o inferno e sem barra de ceral...É o peso da bigorna pendente em nossos ombros,peso da culpa Judaico-Cristã,culpa da Eva,culpa da mulher do Putifah,culpa da Dalila,culpa da serpente,culpa da Madalena(ah,não,essa se arrependeu,hahahaha...),culpa pelo mínino relance suspeito de prazer que nos emborcou em séculos de lutas e fogueiras...Mas como bem disse o que toda mulher quer?
Um homem que a trate como uma Lady,a eleve e faça esquecer tanta culpa...E uma Lady Godiva,de preferência...E dou-lhe uma,e dou-lhe duas e dou-lhe...imensos beijos!!!
Maravilhoso é você Novo Poeta,sempre me acompanhando,com infinita paciência ,rsrsrsr....Beijos e Muchas Gracias!!!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 7/9/2008 23:06
Ei Flor Azul da Bahia...Com jeitinho tudo dá certo,né? As situações mais confusas,com carinho e jeito...E o Denilson adorou o chamego!!!
Sua presença nessa humilde página traz beleza e graça! Adoro!!
Beijossssssss
Victor,essa é uma homenagem a tudo que vocês representam para nós...e como é rico,infinito o ser humano,quantas variações e papéis vamos representando,e como podemos mudar a nossa história.Em qualquer tempo.Ninguém nasce somente para as correntes...Obrigada! Beijos!!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 7/9/2008 23:15
Luciana,
Demorei, mas apareci. Apareci para ler essa maravilha de narrativa erótica. Das causas à "cura" um conto psicológico que explora a saga de Dê-Nilson.
Parabéns, prazer em conhecê-la e beijão
Carlos Zéfiro,
Luciana, você me fez lembrar momentos maravilhosos, desse mestre na arte do erotismo, onde apenas desenhos e textos as vezes mal impressos, causavam tanto furor.
Fiquei devendo a ele, muitas concessões que o vice-diretor da empresa onde trabalhei me fazia, quando eu para ela conseguia comprar essas revistinhas tão cobiçadas, que nos ano 60 eram vendidas no cambio negro.
Valeu!
Beijos
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