Aníbal era homem calado, taciturno. Lia o mundo com as poucas letras que aprendeu na vida e o interpretava à sua maneira. Não era arrogante, mas sabia ser extremamente vingativo nas ocasiões necessárias. Era um viés exacerbado de seu caráter pelos tempos de garimpo. Permaneceu nele a vida toda como a sífilis que também adquiriu por lá.
Nunca esqueceu os conselhos do velho Antão, o mais velho entre todos os garimpeiros, cego de um olho, perdido numa briga por diamantes e mulheres: “Nunca provoque, mas também nunca deixe uma provocação sem resposta”. Isso foi logo que chegou a Morte Certa, o garimpo, debaixo de uma chuva que era um dilúvio, e o velho cego saiu de sua pequena barraca protegido por um oleado surrado para recepcionar o novo ajudante. Ainda completou com palavras que a chuva parecia tirar a dureza: “Imponha-se pela destreza e pelo medo, senão será enterrado como um covarde”.
Quando Aníbal abandonou o garimpo, levou consigo a desdita de nenhuma fortuna, um rosário de mortes, treze, para ser exato, e várias cicatrizes pelo corpo.
Não se vangloriava de nada, pois nem fortuna fizera. Mas tinha o espírito apaziguado pela certeza de que os autores daquelas marcas não poderiam jamais contar sobre elas a ninguém.
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jjLendro,
Não consegui ler o texto por completo, mas creio que li a essência...
Há tantos contos que como Aníbal, não contamos para ninguém. Esse ninguém inclui nós mesmo...
Nossa, que conto LINDO!
Marluce
Gostei da sua narrativa direta e objetiva. Pequeno conto que conta tanta coisa.
Abraços.
Obrigado, Marcos. Um abraço.
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Betha, um grande abraço e grato pelo comentário.
Marluce, amiga, um grande abraço. É verdade o que vc diz.
Excelente. Já pensou em excrever algo sob a perspectiva de Diolinda (contar sue passado e o episódio ora narrado)? Eu gostaria de ler isso.
Um araço,
JJ.Leandro, homem de narrativa poderosa. Que universo estranho este, no qual vc mergulha e nos leva. Bruto. Pobre de sentimentos nobres, e rico em instinto. É, os cães não esquecem...
Grande abraço!
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