Os corvos crocitam na noite
Em meio ao brilho do cetim, da seda e dos vapores de arroz surge um rosto, exuberante, cuja cor carmim e lápis preto acentuam a simetria da face e os olhos, já rasgados de si, como dois peixinhos que se estendem até a fronte. Com gestos, olhares e movimentos sinuosos ela cambaleia e canta - o último ato da ópera chinesa. Os tambores fazem dueto com seu coração, que cede à ponta de uma flecha... O vermelho quase bordô do sangue tinge o cetim cor de pérola. As notas dos violinos e do Huquin soam como um lamento, como folhas mortas que caem ou vidas que se findam.
O tempo suspende seu vôo, a cortina desce e o público se levanta enquanto aplaude por alguns segundos. Na platéia, com olhar e coração em êxtase, ele aplaudia pela décima vez aquele espetáculo de extravagância, paixão e dor. Ninguém compreenderia a alegria que transbordava daqueles olhos - talvez ela tivesse cantado somente para ele naquela noite.
Há um céu e uma outra terra na mente de cada homem, como também na mente de Cortazar havia um céu onde corriam nuvens baixas de chumbo e uma terra que deixara na infância.
Ele saiu do teatro com a mesma serenidade nos olhos, apaixonado pela atriz da ópera chinesa e, vestido com um terno preto de linho, prostrou-se em frente a uma pastelaria numa esquina da Avenida da Liberdade. Por horas a fio esperou aquela moça de olhos amendoados, pele clara como porcelana, gestos sutis de infinita beleza - ela tinha estatura de boneca e coração em desatino.
Peônia tinha nascido na China, provÃncia de Henan. Seu nome de batismo era Bian Wu, homenagem ao pai, que também tinha esse nome. O senhor Wu se estabeleceu com um pequeno comércio de pastel na Rua Barão de Itapetininga e, por razões desconhecidas, deixara de falar com sua filha Peônia.
O vento encanado da noite na avenida trouxe um perfume de peônias, atemporal, que fez o coração de Cortazar bater mais forte - eis um instante de simetria neste fotograma cósmico.
A menina sem a máscara e vestes do espetáculo chegou com uma rosa na mão. Naquele encontro, um espinho feriu o dedo de Peônia. Seu sangue correu na rosa branca, que se tornou vermelha. Havia barulhos de alguns carros e do coração de Cortazar, que tentava saltar do peito como um galope enlouquecido. Os seus olhares se tocaram profundamente, então, não se ouvia mais nem um ruÃdo - o sangue parou, havia nuvens calmas sobre São Paulo na madrugada. Peônia tropeçou com as palavras, mas cantou com a alma e sua doce voz era levada por entre os edifÃcios que dormiam. Cortazar respondeu com versos, que se perdiam nas avenidas. E, assim, eles dançaram “tangos de los exiladosâ€, que estava na cabeça de Cortazar até o limite do amanhecer.
Passaram-se quatro outonos e o amor entre Cortazar e Peônia tinha chegado ao céu, e podia ser colado num paredão de estrelas pela eternidade. Eles eram felizes como deviam ser. Cortazar nunca se abalou pelo fato de Peônia ser Bian Wu, um homem de rara beleza, alma feminina e seu único amor neste mundo.
Cortazar era um grande cozinheiro, um chef com raras qualidades, que colocava especiarias em todos os sentidos. Sua amada deixou os palcos e criou um palco em seu quarto, onde fazia trechos de óperas da sua terra natal para o amado.
Da janela do apartamento no segundo andar, onde viviam, na Rua Barão de Limeira, podia-se avistar pessegueiros e isso recordava o coração de Peônia, que lembrava a infância que teve em Henan, na China. No velho edifÃcio em frente havia uma famÃlia de corvos que, de tempos em tempos, aportava sobre os pessegueiros.
(abrir arquivo completo)...
Uma ópera, a tragédia de um grande amor, um poema chinês...e Arlindo das Belas Imagens.
Nada além de maravilhoso!
Parabéns, meu amigo.
MagnÃfico!!
Salve Castilho!
Estive lá pra bandas do Rio Formoso - Bonito.
Estou retornando.
Sobre "os corvos crocitam na noite" ... este conto foi inspirado num poemas chinês. (Li Po). Mas a história é livre, não tem nada sobre o poema, exceto os corvos e o motivo.
A história foi escrita apartir do "Tango de los exilados" (Vanessa Mae e Orquestra Sinfonica de Londres).
Tenho mania de ouvir canções e escrever algo sobre...
que 2007 seja magnÃfico para todos nos.
abraços
São Paulo
Minha cidade faz aniversário.
Salve, Arlindo de Belas Imagens!!!
Nascà em Bonito, voce esteve caminhando em terras de minha infância.
Parabéns pelo aniversário de tua cidade.
2007 será o que merecemos!!!
Bonitense.
Naquelas águas brotam de tudo,inclusive gente e poesia...
Meu pai tb. nasceu em Bonito - anos 20. (naquele tempo tinha até sinhozinho) colhi uma história sobre um tal sinhozinho que viveu por lá. (estou escrevendo um conto além da imaginação).
Merecemos tudo de bom.
saudações.
O teatro é uma alcova coletiva.
A alcova é palco para dois.
O resto é espetáculo
assim como seu conto.
( pena não consegui abrir o arquivo).
Salve Sebastião!
Vc como ninguem deve reconhecer o cenário...
Sobre o arquivo, tente "salva-lo" primeiro.() Se não conseguir posso envia-lo pelo email. Pode ser? Vc acha que vou deixa-lo sem saber o final???(risos).
Saudações Pantaneiras
Sebastião,
Alcova coletiva é muito bom...
Vc pegou! "O resto é espetáculo".
Grande Firmiano.
Consegui baixar.
O tema é maravilhos! E juntou sua maestria em desenvolve-lo!!
Ficou de um lirismo tão doce, que chega a contrastar com a rudeza de São Paulo.
Fica claro também, o contraste entre a vida de artista e a construção ou manutenção de uma familia.
Valeu a pena.
Abraços.
juventude
na minha mocidade vivi acontecimentos,principalmente nesta região.
saudações.
Arlindo, meu amigo.
Um dos melhores contos seus que li. Tem algo de Borges, Juan Rulfo, Cortázar, uma latinidade trágica, fantástica, maravilhosa, expressa em imagens belas e impossÃveis. Pessegueiros e corvos em Sampa... A lua refletida nas asas das baratas, a máscara teatral de Peônia, seu quimono de flores de cerejas, sua melancolia, seu destino dúbio: gueixa ou andrógino? Um conto que engrandece a literatura e dá a medida exata do seu talento. Não sei mais o que dizer, se não obrigado. E aguardar o seu livro. Um forte abraço.
meu talentoso e amigo Nivaldo!
Que maravilhoso vc ter encontrado e lido "Os corvos crocitam na noite".Seus comentários,aqui,valem mil contos.Voce tem um senso critico apurado e também muita cultura - isso lhe da o direito de ser critico.
Profundamente agradecido, resta-me lançar o livrinho de contos.
Gracias amigo!
Gosto muito de Julio Cortázar.
Fiz uma homenagem para o escritor Argentino e também para cidade de São Paulo que faz aniversário em janeiro. Me inspirei na canção de Astor Piazzola e num antigo poema chinês... por aÃ!!
o resto eu vivi.
abraços Nivaldo!
NIvaldo!
vou abusar um pouquinho e pedir que vc leia este conto.
http://www.overmundo.com.br/banco/a-extraordinaria-vida-de-clorofila-conto
Arlindo,
ainda a propósito de Corvos... não poderia haver melhor fermento para uma obra de arte: Cortázar/Piazzola/Sampa e poesia chinesa, tão rica em analogias gráficas. Só podia dar nisso mesmo, que bela mistura! Quanto à estraordinária vida de clorofila, lerei também com prazer. Um abraço
LindÃssima figura criada esta em que o coração cede à flecha.
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