Os deuses do cristianismo e a moral humana

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Félix D. · Brasília, DF
27/12/2011 · 0 · 0
 

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Um breve olhar sobre o filme “O garoto de bicicleta”, dos irmãos Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. Em cartaz nos cinemas. Vi esse filme recentemente e ele mexeu muito com minhas entranhas e forma de ver, pensar e agir sobre esse planeta terra. Depois de muito pensar sobre ele, cheguei à conclusão que ele trata pura e simplesmente do cristianismo e suas idiossincracias. Temos ali a representação de alguns deuses produzidos e alimentados por diversas culturas ao longo dos tempos.
Tentarei explicar de forma rápida e sucinta o que quero dizer com isso. Seria mais ou menos assim.
Teve uma época, no passado, quando o cristianismo chegou a Grécia e se deparou com uma sociedade com modos e costumes mais elaborados, onde as coisas precisavam ser mais testadas, para serem aceitas como verdades absolutas, o cristianismo não teve vida fácil por lá, não foi simplesmente digerido e vivido pelos gregos. A grosso modo, deus para eles não tinha muita relação com nossas vidas não, não ficava cuidando de nossos passos, de nossos desejos e anseios, “quero uma vaga, por favor, deus me arrume uma vaga para estacionar…”, “quero passar no concurso do senado, por favor, deus, me guie para conquistar uma vaga…”, enfim, deus estava em outra, e essa outra, era muito além de nós, muito, muito mesmo, ou seja, deus não estava nem ai para nós. No filme, esse deus é caracterizado na personagem do pai do garoto, logo a figura do pai foi escolhida para esse representar esse deus, quem mais causaria tanto impacto?? É o arquétipo perfeito disso, ele não tá nem ai para o filho, e não há remorso algum em desprezar o próprio filho, afinal ele (o pai, o ‘deus’ pai) tem coisas mais importantes a fazer, por exemplo deixar pronto o molho que será servido no almoço no restaurante que ele trabalha. Nisso, ele diz ao filho, “não me procures mais!” Assim, simples. O filho sente o choque, sofre, mas tem de seguir sua vida com seus próprios pés…
Eis que surge a mulher… a figura do deus generoso, que cuida, que perdoa, que mostra o caminho e que até arruma a vaga no estacionamento lotado do shopping, for preciso, e esse deus generoso é representado pela mulher, uma mulher que o garoto encontra por acaso, em uma de suas situações de fuga, a mulher é totalmente alheia a vida do garoto, uma desconhecida total, sem compromisso nem ligação alguma com ele, (além, óbvio, o fato da carência de um filho) mas ela entra na vida dele e assume o papel protetor. Aconteça o que acontecer ou ele fizer, ela estará ao lado dele, apoiando, ajudando, até agredida fisicamente por ele, ela foi, mas nada mudará sua generosidade, sua compaixão. Ela não o abandonará, nunca! É o deus de muitos cristãos hoje em dia, o deus que está a nosso serviço, cuidando de nossas causas, nos protegendo, nos guiando… Para alguns cristãos, fazemos “o possível e deus cuida do impossível”. E esse impossível, dependendo do fiel, pode variar da vaga no estacionamento do shopping à aprovação no concurso público do Senado Federal, passando por um bom marido (ou esposa) ou a cura de uma enfermidade grave, esse deus estaria ai para essas coisas.
E por último, um adolescente que surgi no final do filme, esse adolescente, juntamente com seu pai, foi agredido e ferido pelo garoto da bicileta em roubo que este pratica a mando de um deliquente convicente, que o levou na lábia para realizar esse servicinho, essa atitude do garoto também é perdoada e assumida pela mulher, o deus bondoso, generoso. Mas o adolescente reage de forma distinta, depois de passado um tempo, quando achamos que as coisas iam entrar nos eixos, eis que aparece o deus julgador, que pune sem dor, nem culpa. É quando o adolescente encontra com o garoto na rua e o persegue com todas suas forças, depois tenta agredi-lo de qualquer forma, a ponto de fazer ele cair de uma árvore atingido por uma pedra, ele, junto com seu pai, chegam a achar que ele morreu. Seria um homicídio. O garoto fica imóvel no chão. Esse deus não perduou o garoto. Puniu ele.
Agora a moral humana, onde ela entra? Ela entra nessa hora, o garoto já tinha sido punido pela justiça humana, punição que deixou o pai do adolescente satisfeito, mas no momento que o pai do adolescente se ver diante da possibilidade de um homicídio praticado por seu filho, ele prefere exercitar uma das facetas da moral humana, a pior de todas, vai logo dizendo ao filho, “olha, caso ele esteja morto, vamos dizer que foi ele quem nos agrediu…”.
O garoto do filme nada mais é que a própria humanidade, somos nós. Corre o filme todo, de um lado para outro, sempre em busca de algo, perdido. Veremos que o único momento que ele manifesta sentimento a alguém, é ao jovem deliquente que o seduz para o crime. Esse jovem deliquente me faz lembrar algo das escrituras sagradas, muito usado pelas crenças reformadoras do cristianismo, quem será o inominável?
Mas, pelo menos no filme, ele parece que se cura dessa sedução, mas é apenas um filme…

Sobre a obra

Uma visão do cristianismo tendo como base o filme francês "O garoto de bicicleta".

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Denilson Félix
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