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Os doidos do Alecrim

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João da Mata Costa · Natal, RN
11/7/2010 · 1 · 0
 



Os doidos do Alecrim

Alecrim 100

No próximo ano completa 100 anos da criação do famoso bairro do Alecrim, criado no dia 23 de outubro de 1911. Como antigo morador do bairro mais querido e mais populoso de Natal, inicio com esse artigo as comemorações do secular bairro que mora em mim e faz parte da minha biografia.

Em toda cidade tem um doido. No Rio grande do Norte eles são de montão. Dizem que é a mania dos casamentos consangüíneos. No interior a população é menor - todos se conhecem - eles de destacam. Na capital são mais disfarçados.

Na Natal de antigamente foram muitos os doidos que fizeram a alegria da cidade e da meninada, que têm um pacto com o capeta. Pouca gente conhece os seus nomes de batismo. No Alecrim eles animavam as feiras e os dias pacatos. Muitos eram fascinados pelo movimento veloz.

“Cuíca” pedia esmolas e quando era agraciado batia forte com a cabeça na parede, no chão ou na carroceria de algum caminhão. Quando a gente dizia Cuíca, ele respondia ajuizado: - meu nome é Juzé.

“Lambretinha” gostava de fazer ponto na Praça Gentil Ferreira, onde algumas vezes fazia suas trapalhadas e necessidades. Numa cidade de pouco tráfego de automóvel, Lambretinha acelerava e corria célere feito uma lambreta pelas ruas da cidade. Gostava de chupar laranja mesmo misturada com água suja. Dormia em baixo das mangueiras de Maria Boa. Certa vez um cliente perguntou se era boa aquela dormida, e ele de pronto respondeu: - seria melhor não fosse o barulho das meninas.

Outro doido que andava correndo era “Velocidade”. Veado, assumido. Homossexual era pra gente granfina. Numa sexta feira Velocidade teve um banquete. Ao passear na companhia de um marinheiro, um menino que o conhecia brincou: - hoje é sexta-feira santa!. Velocidade respondeu de imediato: - Marinheiro não é carne é peixe.

Corisco era muito religioso. Quando passava nas ruas do Alecrim, as pessoas gritavam você mordeu a mão de Frei Damião. Eu não mordi a mão de meu padrinho, respondia. Mordeu sim, repetia outro menino. Ele dizia: - quem mordeu a mão de meu padrinho foi sua mãe que tem duas carreiras de peito na barriga.
Ficava enfurecido quando a moçada gritava “Corisco pai do poço mãe da lua”, e rebolava pedras.


Muitos doidos eram deficientes físicos. “Maria sai da Lata” tinha um defeito na perna e pedia esmolas. Os meninos gritavam: - Maria sai da lata!
Ela dizia correndo com um cabo de bassoura: - Maria sai da lata é a mãe.

Geraldo de Lagoa Salgada parecia um cachorro, quando sentado. Andava de quatro por conta do defeito físico. Também corria muito e freiava como se fosse um carro.

Muitos outros personagens fizeram a alegria da cidade de Natal. A viúva Machado comia o fígado dos meninos. Cú de ouro foi um grande pianista.
A imperatriz do Brasil já não freqüenta o Teatro Alberto Maranhão. Zé Menininho não toca mais sua sanfona e passou a batuta para André Rabequeiro, que também faleceu.

A cidade perdeu seus doidos famosos. Os de hoje são enrustidos e sem graça. O mais famoso é um que anda ali pela cidade alta e não acredita em Deus nem em nada. E Deus, fulano!. Que Deus que nada, nunca ninguém me deu nada. Só se acalma quando recebe uma gorjeta


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João da Mata Costa
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