Laura é velha. Caminha apressada pela rua de pedras molhadas, observando sua sombra se alongar e se mesclar às outras que vão surgindo de arbustos, latas, carros estacionados e reentrâncias nos muros de concreto exposto. Os passos são vacilantes, afetados pelo medo que lhe pesa as costas pontudas toda vez que é obrigada a passar por ali.
Marcos é jovem, de passos leves e quentes pela tensão. Quase pode sentir a água empoçada nas calçadas evaporar sob seus pés. A chuva fina que caiu sobre a cidade foi doce, e ele se deliciou com o toque frio do vento na sua carne.
Laura lança espiadelas apreensivas por sobre os ombros. Lá longe ela já percebe as pisadas cuidadosamente calculadas de alguém que a segue, e imagina mil destinos terríveis para o seu dinheiro e sua vida nas mãos de um marginal sem rosto. Devia ter dado ouvidos à filha e não ter ido visitar a comadre tão tarde por aquele caminho.
Uma gazelinha velha fugindo do predador, Marcos gosta de pensar. O dinheiro é uma coisa boa, mas mesmo quando a sorte o traz em quantidade não se compara ao sabor de fazer brotar nas pessoas o terror que as corrói por dentro. A cada passo que a velha dá, Marcos compensa com dois ou três, até a distância entre eles começar a encurtar enquanto o pânico dela aumenta.
Laura aperta a bolsa marrom contra o peito, a ponto de chorar. Marcos sente o cabo de madeira revólver e olha em volta para ter certeza de que nenhum curioso está bisbilhotando. Já fez isso muitas vezes, mas a carga de adrenalina é sempre tão intensa que ele não é capaz – e nem deseja – domá-la. Está a poucos metros da presa e se prepara para abordá-la.
Laura murmura uma prece inaudível: senhor, livrai-me do mal.
A prece ondula no ar, sem peso, dançando pelas trilhas das brisas, alterando sua forma, desconstruindo-se, recombinando-se, fluindo cada vez mais para o alto. Não são mais apenas palavras, agora são ondas, espíritos, idéias, suspiros, aromas. Atraídos cada vez mais para Cima, os aromas flutuam e rompem os limites entre as orbes, ganhando o espaço do éter e daí o Azul. Lá se misturam com o tilintar de outros aromas, com a vibração de outras luzes, e se perdem por um momento. Do burburinho caudaloso de vontades brotam e se reencontram, buscando desesperadamente seu sentido e significado. Pelo tráfego de singularidades que viajam em todas as direções em velocidade infinita, a prece colide desafortunadamente com uma formulação filosófica selvagem e explode, espalhando partículas luminosas pelo céu de Algum Lugar.
No instante seguinte, o aroma se refaz. A sentença se reúne, substituindo seu membro morto por dois terços de um aforismo decomposto e um terço de um postulado matemático, grudados com viscosidade platônica. Então continua a ascender até singrar mares tranqüilos de águas inexistentes. Abraçada à corrente, a prece segue até a cascata infinita que cai nos ouvidos de supernova da Metáfora. Dez milhões de milhões de preces borbulham pelo rio e penetram no ouvido, todas tão iguais, todas tão monótonas.
Senhor, livrai-me do mal pulsa com tanta energia que desfalece na tentativa de atrair a atenção e desfalece. Enquanto é dissolvida pelas águas, seus estertores despertam a curiosidade da Metáfora, que a compreende antes desta se desfazer para sempre, ou até ser reformulada. Um grande sorriso se desenha.
Que seja.
As dores do parto. A mãe de Marcos chora e grita. Ele vê a luz, sujo de sangue e placenta. Está aterrorizado. Não sente mais a conexão com a criatura que o carregara desde sempre embalado no útero aquecido.
Com dois anos de idade, ele engole um pedaço de lâmina de barbear. O objeto fere seu estômago, o que faz com que passe os próximos dois meses em um leito de hospital, alimentado por uma sonda.
Aos cinco anos sua tia lhe compra um bolo em seu aniversário e lhe pergunta se quer roupa ou brinquedo de presente. Sem saber por que, ele escolhe roupa e se arrepende para o resto da vida.
É um dos piores alunos da escola, aos dez anos de idade, mal sabendo ler direito ou escrever o próprio nome. Aos quinze, ajuda uma mulher a matar o marido em troca de dinheiro e sexo. Está apaixonado, mas é usado pela amante como uma ferramenta útil, mistura de vibrador e moleque de recados. Aos dezoito, começa a usar drogas pesadas para as quais demonstra uma impressionante resistência. Pouco depois, está assaltando para sustentar a viúva assassina com quem vive. Mulheres e velhos se mostram as melhores vítimas: apenas se encolhem assustados e entregam tudo o que carregam consigo.
Aos vinte anos, Marcos não é um grande traficante ou um assassino de reputação, ou qualquer coisa digna da atenção de alguém. Não é nada, apenas um ladrão pé-de-chinelo que sobrevive roubando trocados em noites chuvosas.
Aos dezenove anos, teve os dois braços quebrados pela polícia ao ser pego com maconha. Aos quatorze, seu apêndice inflamou monstruosamente e quase explodiu. Seu intestino precisou ser tirado e lavado, e ele evacuava através de outra sonda, a segunda em sua vida. Aos nove anos pensou em ser astronauta, mas descobriu que para um brasileiro isso era quase impossível, mesmo se tivesse uma grande patente na Aeronáutica. Aos quatro, ganhou um revólver de plástico amarelo, com o qual atirava em plantas e gatos imaginando-os temíveis bandidos como os dos filmes.
Que seja.
As dores do parto. A mãe do bebê chora e grita. Ela pensa em batizar o filho como Adalberto em homenagem ao avô. Pensara em Marcos, e até bordara algumas toalhinhas azuis com o nome, mas de repente uma sensação súbita de urgência, um nó na garganta como um luto pelo futuro, que suplanta até mesmo as dores que sente, a faz decidir pelo nome de seu pai. O nome surge em sua cabeça como se gravado em chamas finíssimas. Ela considera isso um aviso e decide: Adalberto. Ela gritou o nome no momento em que a criança escorregava para fora, e desmaiou. O bebê foi enrolado com panos verdes pela enfermeira e levado para fora do quarto.
Com um ano, Adalberto entra na natação. Aos quatro, nada feito um peixe, forte e saudável. Aos oito, é campeão em várias competições e faixa azul no caratê. Aos doze, sonha que é um soldado em meio às explosões e tiros e, sem saber por que, decide ser médico. Aos dezesseis, se apaixona por uma japonesinha linda dos cabelos cor de fogo. Aos dezoito, descobre seu nome entre os felizes classificados para a faculdade de Filosofia. Raspa a cabeça, pinta o rosto, tira fotos, sorri.
Aos vinte anos, caminha por uma ruela escura, molhado pela chuva, lugar perigoso a essa hora. Tenta andar mais rápido, não pode faltar mais às aulas ou pode perder o semestre. Bem à frente, uma senhora lança olhares suspeitos para trás, decerto tomando-o por um ladrão. Ao passar por ela, Adalberto a cumprimenta com seu “boa noite” mais simpático para desmanchar seu medo. Pensa em sua mãe andando sozinha por lugares perigosos e acha que gostaria que alguém se oferecesse para acompanhá-la.
“Essa rua é perigosa”, ele diz. “Vou para aquele lado mesmo, se a senhora quiser posso fazer companhia.”
Agora Laura não tem mais medo. Sente que Adalberto é um bom moço. Juntos, os dois percorrem a rua escura e se separam na avenida principal. Laura vai embora com sua bolsa a salvo, enquanto Adalberto segue tranqüilo para a faculdade, sem imaginar que seu novo destino lhe prepara uma surpresa logo adiante.
Que prece poderosa a dessa velha eim? srsrsrrsrsrsrsrsr
Muito boa história... Espero encontra outros contos seus como esse por aqui.
Valeu e parabéns...
Puts, que história louca meu velho... Digo, louca no bom sentido...
Muito boa sacada esse lance da METÁFORA... Admito que tive de ler duas vezes pra pegar legal a história mas me deliciei com ela de dois modos diferentes...
Ótima história mesmo....
Sucesso pra você rapaz... QUE SEJA!
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