OS JAGUNÇOS (ou A Morte visita o Quilombo)

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Onivaldo Paiva · Uberlândia, MG
13/5/2009 · 6 · 9
 

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OS JAGUNÇOS (ou A Morte visita o Quilombo).

“Quem com ferro fere, com ferro será ferido.”

Eram como meninos indo à pescaria ou ao jogo de bola. Riam, contavam vantagens, desfaziam um do outro. Até parecia que não pensavam nem um pouco no que iriam fazer.
Não era a primeira vez que iriam fazer um serviço arriscado. Porém seria a primeira vez que iriam trabalhar juntos. Juntos eram muito perigosos.
Chico Jagunço, Cravinhos, Gaudêncio, Messias, Pascoal, Raimundinho, Zé Honório e Zé Redondo. Juntos eram muito perigosos.
Um deles era a maldade em pessoa. Não, nenhum deles era a maldade em pessoa. Capaz que, fora do serviço, nenhum teria coragem de matar um passarinho, nem de destroncar o pescoço dum frango por mais fome que tivesse. Só matavam porque matar era a profissão deles.
Iam, os oito, matar um inocente.
Até parecia que não se preocupavam nem um pouco com o grande perigo que iriam sofrer. Nem pensavam no que iriam fazer.
Viajavam embalados no passo lento de suas mulas. Zé Redondo na frente, falando alto, falando grosso e rindo aquelas gargalhadas muito dele. Nem parecia que fora contratado para matar um inocente. Para Zé Redondo, bem como para os outros, a questão de ser inocente ou culpado, era muito relativa. Eles haviam aprendido ao longo da vida que tudo era muito relativo. Até as verdades. Embora, fossem eles homens que davam valor demais às verdades definitivas.
Zé Redondo era um daqueles que achava que verdades definitivas eram boas, principalmente porque lhe davam segurança nos julgamentos e no comportamento. Sabia de cor centenas de ditos:
“Quem com ferro fere, com ferro será ferido.”
“Pau que nasce torto morre torto!”
“Cada cabeça, cada sentença.”


PRIMEIRA HISTÓRIA:
Zé Honório juntara-se ao grupo porque matara o padrasto. Zé Honório matara o padrasto porque este violentara sua irmã Aparecida de Jesus. Na noite em que aplicou dezoito facadas em Camilo, seu padrinho e padrasto, Zé Honório tinha completado quatorze anos.
Camilo era padrinho e padrasto de Zé Honório. Padrinho de fogueira. Camilo batizara Zé Honório quando o menino tinha uns cinco anos. E se tornara padrasto havia uns dois ou três anos, depois que Silveirinha, pai do moleque, fora despachado por um desafeto, não por um tiro de fuzil, durante uma batalha entre bandos, como certamente Silveirinha teria preferido; e nem por causa de uma dama que ele dividia discretamente com outro compadre. Dama esta que acolhia cada um dos dois em dias alternados e em lugares diferentes, de maneira que nenhum soubesse do outro, mas os dois sabiam. Este tipo de morte, por uma causa gloriosa, certamente Silveirinha teria gostado mais! No entanto Silveirinha, pra seu desgosto, fora despachado com um tiro de garrucha, num forró, por causa de um roubo de tentos durante um jogo de truco.
O moleque Zé Honório andou macambúzio por uns meses por causa da morte do pai, meio que jurou matar o assassino, mas este sumiu do povoado e nunca mais se teve notícias dele.
Verdade que nunca mais se teve notícias dele durante ano e pouco até que retornou ao lugarejo, mas Zé Honório parece que já tinha se esquecido que prometera matá-lo.
Passado o luto, quando a mãe de Zé Honório largou de andar de preto, ela casou com o padrinho Camilo. E este virou padrasto. E Zé Honório se tornou seu ajudante na feitura de cercas, capinação e tiração de leite. A mãe engravidou do padrinho, pariu, e veio morar no rancho mais um menino chorão que estrebuchava toda noite afligido de cólicas. Tava a mãe dele no resguardo, quando o padrasto se engraçou com Aparecida de Jesus, irmã do Zé Honório.
É que Aparecida de Jesus chorou demais senão Zé Honório nem teria prestado atenção. Aparecida de Jesus chorou demais: chorou três meses. E embuchou também. Embuchada aos quinze anos. E Zé Honório ficou sabendo disto justo no dia em ele fazia quatorze anos. A irmã era muito mandona, enjoada e muito chata, mas contou das maldades do padrasto e Zé Honório ficou com muita raiva. Mas também estava muito interessado no presente e no forró que o padrinho prometera. E estava muito mais interessado na Terezinha, colega da escolinha, filha do Vicentão Leiteiro, e que não fazia nem doze semanas, era uma menina magrela e encardida, mas que, de lá pra cá, arredondara de corpo e passara a ficar misteriosa e olhadeira de canto de olho, e já não andava daquele jeito estabanado, feito moleca, mas de balanceio preguiçoso e chamativo, feito moça feita. Então, com isto em vista, Zé Honório esqueceu das dores da irmã.
Acho que tudo aconteceu por causa da festa que Camilo fez no dia em que Zé Honório, seu afilhado e enteado, completou quatorze anos. Mas acho que tudo aconteceu mais por causa das cachaças que beberam o padrinho e o afilhado e os convidados e as convidadas.
Camilo conseguira que o seu Guimarães lhe emprestasse o salão da Associação dos Carvoeiros para fazer a festa. E conseguira do seu Geraldo da dona Nega, fazendeiro abastado, ajuda para comprar as bebidas. A festa de aniversário do Zé Honório haveria de ser boa.
A mãe também foi. E ficou lá, sentada numa cadeira, com um peito de fora, dando de mamar pro menino e conversando com as comadres dela. Mas também bebia cachaça, entre uma conversa e outra, com as comadres.

Era muito bonita a faca que Zé ganhou do padrinho Camilo. E as esporas de prata. Reluziam. Deveriam de ter custado ao padrinho mais que uma semana de diárias de sole-a-sole. Zé Honório queria ficar na festa, queria dançar no baile, mas queria muito mais que a noite passasse, que o dia amanhecesse e pudesse arrear a égua Chalana e, mesmo com arreios velhos, exibir suas esporas de prata e sua faca cabeça de cão. Mas os atrativos da Terezinha eram mais macios e cheirosos. E a mulatinha, naquela noite, nada de encardida, mostrava mais: estava era toda colorida, de batom na boca, brincos nas orelhas, saia curta, pernas dançarinas naquele jeito de dançar num balanceio preguiçoso e chamativo. Então esqueceu das esporas, da faca e da égua Chalana.
Ia tudo bem na festa. Vicentão Leiteiro, o pai da Terezinha, se superava na sanfona, entre um gole e outro. Entre um gole e outro, Zé Redondo, no violão e no canto, ia fazendo todos pensarem em rezar para que aquela noite durasse até nunca.
Zé Honório, depois da centésima dança com Terezinha, depois de ter passado horas, horas que pareciam mais apressadas que o tempo dum respirar dos seios da mocinha, que ele não cansava de admirar; ia já lá pra dança cento e uma, abraçado ao calor e cheiro da mulatinha nutrida, quando lhe veio uma vontade doida de urinar; então a levou onde estava a mãe dela, e cavalheiro que era demais, agradeceu as danças e saiu. A mocinha desconfiou que ele ia era mijar lá fora e tomar mais um copo de pinga. E foi o que Zé fez. Foi lá fora, onde encontrou uns cinco ou seis amigos, mais pra lá do que pra cá, já bêbados demais e se contaram muitas vantagens. E todos o reverenciaram, sem de fato fazer reverência, por estar dançando “daquele jeito” com a Terezinha! Satisfeito, Zé Honório, urinando, riu, superior, balançou o “caça-fêmea” e foi procurar o “encoraja-macho”, a pinga.
Quando voltou ao baile, Vicentão Leiteiro fazia a sanfona dar voltas. Zé Redondo fazia seu violão se retorcer num cantar lamentoso. Mas Terezinha dançava com seu Camilo! E naquele volteado da dança, a saia dela, curta demais, se encurtava muito demais! E a boca do padrasto estava encostada demais na orelha da mocinha.
Zé Honório, mocinho que fazia quatorze anos, havia tomado lá fora umas quatro doses de pinga pra mostrar pros amigos o tanto que era homem. E, lá fora, orgulhoso, tinha exibido a peixeira que ganhara do padrinho e a enfiara outra vez na cintura. A faca era bonita demais. Terezinha era bonita demais. Não podia ficar escutando aquelas coisas que o padrasto Camilo lhe dizia. Era desaforo demais daquele que engravidara sua irmã Aparecida de Jesus. E o Zé Honório foi tirando outra vez a peixeira da cintura.
Zé Redondo, abraçado ao violão, que amava mais que à dona dele, dona Bárbara, do qual, amoroso, tirava mais suspiros que da patroa e gastava mais tempo que nela, foi o primeiro que viu o menino tirar a faca lustrosa da cintura. Seus dedos ainda acariciaram as cordas, a melodia ainda corria pelo salão, e os dedos de Zé Redondo não paravam de tocar porque aqueles dedos gostavam demais de tocar as cordas. Então Zé Redondo quis gritar porque entendeu. Zé Redondo quis gritar porque tinha já percebido o cerco que o Camilo fazia na morena encantadora, mas não gritou. Só viu o rapazinho caminhar com a faca na mão e soube aonde ele ia querer enfiar aquela faca. Foi bem debaixo do bolso da camisa, onde Camilo guardava o cigarrão de palha.
Camilo parou de dançar e olhou surpreso. Parece que ainda não sentia a dor da furada, nem sabia ainda que tinha sido furado. Abraçado à parceira de dança, olhou para o afilhado e sorriu. Zé Redondo não soube se era um sorriso ou se era um descontentamento por estar sendo interrompido na dança. Então pareceu que Camilo procurava algo no bolso da camisa, o cigarro, talvez. Apalpou-se.
Zé Redondo sabia o que estava acontecendo, mas naquela hora rezou pra Deus para que Camilo estivesse mesmo procurando um cigarro e depois, o acendesse e se pusesse a conversar com o enteado e a namorada dele.
Então o sangue jorrou do bolso do Camilo. E Terezinha gritou. E a música parou, pois os dedos de Zé Redondo enfim perceberam a tragédia. E Camilo ficou olhando a sangueira esguichando de seu bolso, e se inclinou, e disse algo para o afilhado. Só muito tempo depois foi que Terezinha contou que ele estava lhe falando que era para “ela casar com o afilhado dele”.
O padrinho não fizera nenhuma desfeita. Não abusara de nem desfizera da moça. Mas...
Mas a coisa não ficara nisto. Lá no meio do salão, brilhando mais que sua faca, Zé Honório lavava sua honra. E se lembrou que sua irmã, Aparecida de Jesus, havia sido embuchada por seu Camilo. Nem sabia onde guardara tanta raiva. Olhou a peixeira que ganhara do padrinho, já não reluzia, suja que estava de sangue, e avançou mais uma vez sobre o padrasto. O punhal entrava macio, tirava e enfiava, vendo a cara assustada e surpresa do padrasto.
Zé Honório saiu do salão correndo, correu pela rua, uma das três ou quatro ruas que haviam no povoado, via as mangueiras desfilando com muitas folhas verdes escuras. Não era tempo de fruta. Correu por brejos, capoeiras, tropeçou num buraco de tatu teba, chorou. Não de remorso, mas por medo mesmo. Correu. Foi parar anos depois... E nunca montou na égua Chalana, e nunca usou as esporas de prata. E nunca mais viu a Terezinha. E se tornou um jagunço.
Dizem, no povoado, que seu Camilo morreu com dezoito facadas! E que foi Zé Redondo quem contou todos os buracos e a cada um que contava, baixinho, ia se falando: “Nunca vi nada parecido!”


AQUI LARGO ZE HONORIO.
Aqui largo Zé Honório e passo pra outro capanga. E por que largo Zé Honório? Porque ele, morrendo de medo, passou dois anos escondido, muitas e muitas léguas longe dali. Trabalhou em carvoeiras, trabalhou em fazendas, cuidando de gados, mas era ruim pra tirar leite; trabalhou em outras fazendas, no serviço de foice, e neste era bom, apesar do físico franzino. De fuga em fuga, de salto em salto, arrumou emprego na Fazenda dos Buritis. Ali parou mais de ano, se eu não deixar de fora uns três meses em que desapareceu de novo, num sei pra onde, fazendo num sei o quê, e depois voltou, sendo bem recebido pelo patrão que gostava dele. De uma coisa Zé Honório nunca largava: a peixeira que ganhara do padrinho e com a qual matara o padrasto abusador. Outra coisa nunca largava Zé Honório: o medo.
Mas como eu disse “Aqui largo Zé Honório”, largo. E outra hora, outro dia, ou mais adiante, eu conto sobre este medo que nunca largava Zé Honório.
E passo agora pra outro capanga.



SEGUNDA HISTÓRIA: RAIMUNDINHO.
Um deles era a maldade em pessoa. Matou o irmão no terreiro do rancho depois de terem espalhado favas de feijão pra secar no tabuleiro do quintal. Este irmão era aleijado, tinha uma perna mais curta que a outra, doença que pegara menininho; andava mancando, mas não era, este irmão, de “entregar os pontos”, andava meio que rebolando, mas andava. Jogava bola, trepava em árvores, montava a cavalo, e dançava também. E trabalhava muito.
Não eram, esses irmãos, como Abel e Caim. Eram bons companheiros. Um se chamava Raimundo, o outro, Altemar.
(CONTINUA...)

(onivaldopaiva@hotmail.com)

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Onivaldo Paiva
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OS JAGUNÇOS_PRIMEIRA HISTÓRIA.
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Doroni Hilgenberg
 

Onix,
Vc é um contista de mão cheia,
o conto esta muito bem estruturado e promete...
pobre dessas crianças que na flor da idade, entram em
contato com a maldade e perdem-se na vida e no mundo.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 11/5/2009 20:15
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Onivaldo Paiva
 

Obrigado, Doroni. Vindo de você este elogio é mais que um incentivo: é como um aval de que posso ir adiante. E a estrada é longa. E a história longa também. Só espero que não canse quem a ler.

Onivaldo Paiva · Uberlândia, MG 12/5/2009 00:02
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patriciaborato
 

Ave Maria, que a maldade existe é certo, eita jagunçada da moléstia, tô de butuca mode espiá, visse? Zé Redondo...apois...Bjs.

patriciaborato · Rio de Janeiro, RJ 12/5/2009 22:03
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Doroni Hilgenberg
 

Onix,
é verdade mesmo, podes crer
bjs e votos

Ah! e passa por aqui
http://www.overmundo.com.br/overblog/dibs-em-busca-de-si-mesmo
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 13/5/2009 20:37
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Ivette G.M.
 

Beleza Onivaldo. Não dá para deixar de ler o que vem por aí. Ótimas histórias e bem contadas.
Abração, Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 13/5/2009 20:49
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azuirfilho
 

Onivaldo Paiva · Uberlândia (MG) ·
OS JAGUNÇOS (ou A Morte visita o Quilombo)

Um Texto muito bem feito que revela a Pobreza e o atrazo cultural, que tanto penaliza o povo fazendo-os sofrer por toda a vida.
Muito triste mais muito bem descrito.
Estamos aguardando o desfecho da História do Raimundinho.
Abração Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 13/5/2009 20:56
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Cláudia Campello
 

me mata com um texto lonnnnnngo assim......vai! rsrsrs
mas escreves bemmmmmm demais.......
...continua.

bjsssssss;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 15/5/2009 05:54
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Ari Lopes
 

Comecei ler o texto receando ser longo demais.
Terminei de ler lamentando por ter terminado.

Aguardo proximos lances.

Abraço


Ari Lopes · Santana de Parnaíba, SP 15/5/2009 21:11
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azuirfilho
 

Onivaldo Paiva · Uberlândia (MG)
OS JAGUNÇOS (ou A Morte visita o Quilombo)
De volta a este Trabalho Para mais uma leitura e elogiar o merecimento do consagrado Autor.
Parabéns.
Abração Amigo.

azuirfilho · Campinas, SP 20/5/2009 18:10
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