ALGUNS DOS MAIS BELOS SONETOS DE ALMA WELT
O Ramalhete (de Alma Welt)
Como um grande buquê ou ramalhete
A primavera não nos vem por certo
Com lisonjas d’um cartão ou só bilhete...
Mas que admirador, temos, secreto!
Cada dia vivido é um presente
E é mais fácil nos pegar surpresos
Sem mesmo merecê-lo, simplesmente,
Nós que temos mesmo rabos presos...
Quanto a mim, pra não restar suspeita,
Recebo do dia a honraria
Como se tivera eu boa receita
Do melhor viver, correto e digno
E com falsa modéstia me persigno
Quando aquele aplauso me anuncia...
Para Onde? (de Alma Welt)
Para onde terá ido o realejo
Que nostalgizava minhas ruas?
Já faz tanto tempo... não o vejo
E isso envelhece minhas luas...
E o firinfimfim do amolador?
A gaitinha de pã tão pobrezinha,
Cujo som, por si só encantador,
Afiava as facas todas da cozinha...
E o rententém, então, do paneleiro
Que chamava nossos apegados tachos
E panelas já tão gastas no braseiro?
O tequetéque dos bijus, estranho solo,
Matraca que atraía até os machos
E tirados de um latão a tiracolo...
Entre a lápide e as cinzas (de Alma Welt)
Meus queridos já dormem na coxilha
À sombra de um umbu também querido,
E eu hesito entre o que é pequena ilha
E o nosso vasto mar do olhar perdido,
Que é, sim, esta planura ondulada
Onde a poeira de meu corpo voaria
Fecundando a vastidão amada
Como o próprio pólen da Poesia.
E entre as flores da lápide sombria
E aquelas do meu campo em primavera
Meu coração balança em agonia.
Tão belo o epitáfio que me fiz!
Eu que tive palmas, quero bis
Para o último verso que me espera...
12/01/2007
Traum * (de Alma Welt)
Não levantei meu punho contra a vida
Por um certo momento de desgraça
Que não revelarei, por comovida,
Ou porque até mesmo um trauma passa.
Traum, essa palavra é só um sonho
Na língua de meu avô germânico
Que um olhar legou-me assim bisonho
Que me tem evitado maior pânico.
Então sonharei, eis minha proposta,
Tudo é sonho mesmo... O que é real?
Meu próprio corpo branco é a resposta
Malgrado dores e roxa e triste mancha
Que também se apagará, creio, afinal,
Coberta d’ouro e prata, dona Sancha... *
Nota
* Traum- "sonho" em alemão e "trauma" em português, ambos os termos derivam do grego Traûma= ferida
Suponho que Alma se refere, com esse soneto, a um estupro que sofreu...
* Coberta d’ouro e prata, dona Sancha...- Alusão à antiga cantiga de roda infantil: Senhora dona Sancha, coberta de ouro e prata / Descubra seu rosto, queremos ver sua cara...
O Último Verão (de Alma Welt)
Não pedirei mais que este verão
Às forças que decretam meu destino
Mas pretendo estar a postos no portão
Quando ouvir o som do violino
Aquele de soluços, de Verlaine
Que anuncia a chegada do Outono,
Já pedindo à alma que hiberne,
Quase pedindo já meu abandono.
Mas muitos me verão cantar, dançar,
Subir à mesa e pôr a saia na cabeça,
Tão certo que me venha a envergonhar...
E se não tomar um porre santo
É para que a alma não se esqueça
Do quanto amei a vida... quanto, quanto!
Nota
"Aquele de soluços de Verlaine"- Alma se refere ao poema de Paul Verlaine que começa assim: "Les sanglots longs des violons de l'automne / Blessent mon coeur d'une langueur monotone..."
Póstuma (de Alma Welt)
Não saber o que será feito de mim
É uma dúvida voraz que me consome,
Pois em arte não vivi senão na fome,
Saciada serei eu depois do fim?
Dizem que a poesia em si se basta,
Que mais quer o jogral ou menestrel?
Manter a alma jovem e sempre casta,
Cantar como cigarra... no papel.
Mas bá! vaidade, orgulho, natureza!
Queria olhar um povo de leitores
Suspirando de pena ou de beleza
Pela musa fiel que houvera sido,
Patética, febril, cheia de dores
Por votada ao Verso ter nascido...
A Mendiga (de Alma Welt)
Quero morrer encostada num barranco
Feito a mendiga de uma estória,
Com o olho arregalado muito branco,
O constelado céu olhando, em glória.
Se tiver neve, melhor, se não, lama.
Melhor relva e flores pequeninas;
O barranco, espaldar da minha cama,
E a colcha só de cardos e boninas.
Incorrigível fantasista do singelo,
No fundo espero só o merecido:
Um horizonte de livros meus no prelo.
E o sonho de que ao divisar meu rosto
Um viandante se ponha comovido
Antes que o nosso sol se tenha posto...
Forever Young (de Alma Welt)
Não me verei envelhecida no cristal
De um espelho cruel ou lisonjeiro,
As faces consumidas por inteiro
Ou com leve rubor, mas desigual,
Manchada pelo tempo ou derretida
Como cera de uma derradeira vela
A mal tremeluzir-me estarrecida,
Vendo a vida já passada na janela
Como vulto patético de outrora,
Um pensamento, um sonho desmentido
Ou que somente chegou fora de hora.
Não, não me verei senão assim:
Jovem para sempre, o prometido
Pelo qual pagarei com o meu fim...
O Tempo das Cegonhas (de Alma Welt)
Agradecida às vezes me dou conta
Do imenso privilégio da Poesia,
Da dádiva de estar tão cedo pronta
Para contar tudo o que eu vivia
E fazer do soneto o meu Diário
Sabendo que cada santo dia
Era único e extraordinário
Mormente pelo modo que eu sentia
A vida qual mistério irrevelado
Com surpresas como chuva de granizo
A tamborilar no meu telhado...
E que percalços, dores e vergonhas
Seriam sempre entremeados pelo riso
Como eram no tempo das cegonhas...
(sem data)
A Última Mascarada (de Alma Welt)
Rodo, ainda sermos belos é o sinal
De que não estamos em pecado.
Perdida, a alma traz cenho fechado,
Ricto de agonia em signo do mal.
Vê, somos leves, rimos tanto,
A primavera não nos abandonou;
A relva que pisamos como um manto
Jogado sobre o lodo, nos honrou.
Somos nobres, ergamos a cabeça,
Mal uma voz ou outra se elevou.
Pisemos e subamos na caleça.
Um baile de alegrias nos espera,
Se não no mundo, na corte que restou
Na derradeira Mascarada desta era...
(sem data)
Querência (de Alma Welt)
Ainda vago nos prados infinitos
Que me viram guria florescente
Buscando conferir pequenos mitos
Que me espicaçavam docemente
Uma curiosa ternura sem pieguice
Que foi a nascente dos meus versos
Conquanto minha mãe me atribuísse
Propósitos e impulsos mais perversos.
Mas encontrar o amor de meu irmão
Debaixo da árvore da inocência
Foi destino disfarçado de ilusão
E outrossim o esteio de uma vida,
O senso verdadeiro de “querência”,
Que fez de mim esta Alma agradecida.
07/05/2004
Abramos as janelas (de Alma Welt)
Abramos as janelas, meu irmão!
A vida esta penumbra não requer.
Os mortos receberam sua porção
Do respeito e pranto que se quer.
Nosso pai era alegre, bonachão
E não um melancólico qualquer.
Nossa mãe era o poder como mulher,
Agora esse poder está no chão.
Nossa índole é clara, luminosa,
Não fomos feitos para o pranto,
Nem culpas e, muito menos, glosa.
A verdade estava ali naquele prado:
A terra os cobria com o seu manto
E eu sentia tuas carícias, disfarçado...
(sem data)
O Jogral (de Alma Welt)
Para prosseguir minha jornada
Lanço mão de certos artifícios,
Não os da vaidade declarada
De que dispenso os sacrifícios,
Mas plantar sementes no agora
Dos frutos do porvir, a macieira
Dos pomos dourados de uma aurora
Vislumbrada por mim a vida inteira,
"Eis a maior vaidade!" -vós direis-
"Tudo é vão, na morte tudo finda,
Até o fausto e poder de antigos reis!"
Mas eu, ainda guria, constatei
Que o jogral do rei o canta ainda,
Eis o poder maior que já encontrei.
(sem data)
Prece (de Alma Welt)
Pelas doces manhãs da juventude
Em que eu acordo a rir e a rodar
E tudo é motivo e completude:
O casarão, a pradaria e o pomar...
Pela graça de ser bela e muito mais
Por ser amada pelo Vati, meu Maestro
Pela Mutti, irmã Lucia e o irmão destro
Nos jogos de cartas e pedais
De seus bólidos brilhantes, perigosos
Que ele jura como as cartas dominar
Como fazem os talentos ociosos
E ao fim das temporadas retornar
Para os braços meus já tão saudosos...
Eu sou grata demais por tanto amar!
A jornada de outono (de Alma Welt)
Não estaremos prontos no final
Nem felizes, talvez, o que é pior.
O prêmio reservado no portal
É um remordimento bem menor,
De consciência, digo, e não é pouco
Pois o espectro daquilo que evitamos,
Agoniza ou gesticula como um louco
Exigindo a atenção que não lhe damos.
Mas um puro coração é sempre leve
E voa ao vento oeste como folha
Na jornada de outono muito breve...
Então, sentemos na varanda, meu irmão
E deixemos que o inverno nos acolha
Enquanto ardente beijas minha mão...
14/01/2007
Da Saudade (Alma Welt)
“Estranho, não desejar mais nossos desejos...”
(primeira Elegia de Duino- Rainer Maria Rilke)
“Não desejar mais nossos desejos...”
Imagino que isso chega com a idade,
Se alcançarmos o tempo da saudade
Que já não almeja os seus ensejos,
A pura saudade, conformada,
Que é dom e consolo dos idosos
Como compensação da caminhada
Igualmente para tristes ou ditosos.
Então, feliz do homem despojado
Cuja saudade é plena e não carente
E que a afaga lenta e docemente...
Vê: na nossa mente tudo temos,
Nada perdemos e tudo é renovado
Pois que só na alma é que vivemos.
Iniciação (de Alma Welt)
À meia noite o portal se abria
E tudo se passava no meu bosque.
Eu saía do meu quarto e lá eu ia
Para o mágico encontro no quiosque
Das fadas e demais elementais
Que temias, eu me lembro, e evitavas
Como conspirações de ardis fatais
Que nos mandariam e tudo às favas:
A ordem, os desígnios e o destino
Que a gente há muito construía
No plano destes prados, dia a dia.
Mas tu mesmo, Rodo, foi primeiro
A me mostrar no espelho o aço fino
Entre o bosque e o mundo verdadeiro.
(sem data)
Perdidos Amores (de Alma Welt)
Ausculto o silêncio desta casa
E ouço a algaravia de seu sonho
Distinguindo o murmurar tristonho
Dos amantes perdidos, já sem asa,
Arrojados ao solo do malogro
Quando tudo perderam, com a vida
Que ofereceu sua chance como jogo
De falsas opções cobrando a dívida...
Como é triste a estória dos amores
Que tudo apostaram sem futuro
Na fusão do ser, ó meus senhores!
E tudo enfim perderam, como soe
Acontecer na vida de um ser puro
Que crê no amor eterno, ah! como dói!
O sentido do ser (de Alma Welt)
“A poesia é o autentico real absoluto.
Quanto mais poético, mais verdadeiro”. (Novalis)
Encontrar o sentido de viver
Não é tarefa simples, corriqueira...
Percebo que a humanidade inteira
Vive a esmo acreditando ser
E existir sem ao menos suspeitar
De que possa ser parte da ilusão
Que a vida edifica em pleno ar,
Onde ser ou não ser é tudo em vão.
Questionar a existência do real
Já é parte da construção possível
Do universo em seu plano ideal
Que é o sonho lúcido em poesia
Como termo verdadeiro e mais tangível
Que o divino com o ser reconcilia...
(sem data)
Sonetos (de Alma Welt)
Escrever sonetos infindáveis
É a minha missão e minha meta
Embora haja quem ache memorável
Outros hão que achem-me pateta.
Mas sei que registrando em poesia
Tudo o que vivo e sinto a cada dia,
Nada perderei da quintessência
Do existir em alma e consciência.
"É um vicio, isso sim!"- dirão alguns.
"Porque então não contas o teus podres
Ou ao menos confessas os teus puns?"
Mas eu não levo a sério tais reclamos,
E tratando como se fossem meus amos,
Lhes sirvo o melhor vinho dos meus odres.
O ananque das coisas (de Alma Welt)
A graça de viver é o mistério
Maior que podemos conceber
Já que não levando-nos a sério
É que descobrimos nosso ser.
Tudo é paradoxo e enigma
O contrário explica-nos melhor
O justo se denota pelo estigma
E o mal cria o bem ao seu redor.
Assim jogados neste mundo
É fácil em labirinto nos perdermos
Pois a vida é o dédalo profundo.
O ananque das coisas rege a vida,
Impondo-nos seus controversos termos
Em meio a tanta luta e tanta lida...
Cabra-Cega (de Alma Welt)
A Poesia que coloco no papel
Será sempre a imagem verdadeira
Daquilo que projeto sob o céu
Enquanto brinco a louca brincadeira
Que é este estar às cegas nesta vida
Como aquele jogo dos infantes
Cuja eterna tensão durava instantes,
Do tatear e o reencontro, comovida.
Assim, também cego é o soneto
Que me faz percorrer sombria senda
De dores, emoções e algum tropeço,
Quando, afinal, na chave do terceto,
Inaudito como o fecho de uma lenda,
Toco meu próprio rosto... e o reconheço.
(sem data)
Como Florbela (de Alma Welt)
Não me perderás, ó meu irmão
Pois perdida de te amar eu já estou,
Como dizia a Florbela desde então,
Num tempo que o vento já levou.
Sei que evitas dramas, caem mal,
E às tragédias loucas da paixão.
Nisso não és nada original
Pois é do ser humano essa aversão.
Mas não pude a sensação mais evitar
De inafastável taça em nosso horto
Desde que flagrados fomos no pomar
Pois de já dentro de mim ela arrancou
Teu pequenino membro, como aborto,
E então algo pra sempre me faltou...
(sem data)
A Vindima (de Alma Welt)
Estás em mim, irmão, sou toda tua,
E o êxtase de amar já me ilumina.
Não ousarão nublar a minha lua
Os que me vêm ao sol desta Vindima,
Irradiante pela graça deste amor
Que brilhou na minha face desde cedo,
Quando guria nova o destemor
Em quem talvez se espere tanto medo.
Não haveria para nós aquela carga
Atribuída aos pares desde Adão
E Eva, que provaram fruta amarga...
Vê, o fruto se fez doce de saída
E jamais culpa e pecado caberão
A quem de tanto amar nasceu perdida!
03/08/2002
A Moratória (de Alma Welt)
ou O sono dos amores (de Alma Welt)
De noite as fragrâncias do jardim
Trazem sonhos de antigos moradores
Desta casa tão vivida, e o jasmim
Como os elos perdidos dos amores...
Tais anseios não morrem, não têm fim
Conquanto adormecidos na memória
Das coisas que já eram mesmo assim
Ao pedirem paz ou... moratória
Por sofridas perdas e fracassos
Que são como os acertos, no final,
Pois tudo são caminhos e são passos
Já que a morte deixa tudo inacabado,
Sonetos em que o fecho é sempre igual:
Gozo e dor a reflorir sobre o gramado...
17/08/2006
Amor guerreiro (de Alma Welt)
O amor triunfante que concebo
Não é a minha teima ou meu consolo
E não venci reservas de um mancebo
Com a insistência de um monjolo,
Mas colheita ideal de uma procura
Em que a nota terá sido a liberdade
E o desafio além de uma saudade
Da fonte virginal que a alma cura.
Terá sido privilégio ou coincidência
Tê-lo encontrado aqui perto de mim
Mas nunca comodismo ou indulgência
Pois o preço a pagar pela ousadia
De assumir e cantar um amor assim
Faz de mim guerreira e... não vadia.
(sem data)
De sonhos, pipas, corações (Alma Welt)
Arrastados na corrente dos eventos
Vão os corações, de cambulhada,
Sonhos empinando-se nos ventos
Como pipas infantis na madrugada.
Bah! Depois sempre a derrocada,
Enroscados em fios ou altos galhos,
Pendendo, ali, patéticos frangalhos
Como triste ilusão abandonada.
Como custa renovarmos nossos sonhos
E empinar novas pipas encarnadas
Com os mesmos propósitos bisonhos!
Subir cabeceando, ah! subir
Esperando que as alturas alcançadas
Nos chamem, como a mãe, para dormir...
(sem data)
Vida em verso (de Alma Welt)
Constato que possuo dupla vida
Revendo-me mais nítida nos versos
Que continuam a vibrar depois de lida
E perpetuam lances bons e os adversos.
E ao rever esta já vasta bagagem
Que refaz meu percurso depurado
Eu percebo que nada foi bobagem
E o que a letra grava está gravado
E passa a ser a vida verdadeira
Pois o fato e o gesto se perderam
Na fugaz e vã vida primeira.
Eco de mim mesma que me encanta,
Sou ninfa cujos dons emudeceram
Mas ao tornar-se pedra vive e canta...
(sem data)
Obrigado, Bússola! A Alma, onde estiver, agradece...
ABRAÇO!
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