OS POETAS DE LUA: O CONTRADITÓRIO (parte 2)

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Abílio Neto · Abreu e Lima, PE
29/8/2012 · 5 · 2
 

O compositor Onildo Almeida foi o troféu do crítico musical e escritor José Teles para difamar Luiz Gonzaga no JC (Jornal do Commercio) do Recife/PE, de 20/06/2012. A coisa foi tão vergonhosa que a direção do jornal não teve a coragem de colocar na íntegra o texto de 8 páginas na internet. O grosso da matéria foi destinado apenas aos assinantes e compradores avulsos do aludido matutino.

Uma foto exibida na reportagem, com a anuência de Onildo, traz a seguinte legenda: “Onildo Almeida era tratado de igual para igual por Luiz Gonzaga, a quem negou ceder parceria em várias de suas músicas, apesar de aceitar receber pitacos”.

E no texto da matéria, o jornalista paraibano acusador assim falou:

”A relação profissional de Onildo Almeida com Lua era igualmente diferente. Ao contrário do que acontecia com a maioria dos compositores, ele não era de ceder parcerias. Das 23 canções que Luiz Gonzaga gravou do compositor caruaruense, a maioria não leva o nome de Luiz Gonzaga: ‘Ele deu o tema em algumas, como Lá Vai Pitomba. Me disse que queria uma música sobre futebol e citou a frase que virou o título. Mas isso não tira mérito dele. Gonzaga pensava na música como um todo, compartilhava, dava pitacos’”.

Primeiro, temos que olhar o Sr Onildo Almeida como um homem contraditório ou de duas conversas. Quando ele foi procurado por Dominique Dreyfus com o fim de prestar um depoimento para o livro “A Saga do Viajante”, até hoje o melhor livro escrito sobre Luiz Gonzaga, disse o seguinte:

“Toda vez que ele (Luiz Gonzaga) passava por Caruaru, vinha me ver, pedia música, às vezes dava um tema... eu sentia que ele queria ser meu parceiro musical, queria arranjar um jeito de ter a parceria comigo, mas eu nunca ofereci e ele também nunca pediu. Mas aí ele gravava pouca coisa minha”.

Esta afirmação está na página 205 do livro citado. Se Luiz Gonzaga nunca pediu, então Onildo Almeida jamais teve a oportunidade de lhe negar parceria. Uma coisa se desmente com a outra.

A verdade é que das músicas que Luiz Gonzaga gravou do compositor caruaruense, as melhores são estas: A Feira de Caruaru (Onildo Almeida); Capital do Agreste (Luiz Gonzaga e Nelson Barbalho, porém registrada como de Onildo Almeida e Nelson barbalho); Sanfoneiro Zé Tatu (Onildo Almeida); A Hora do Adeus (Luiz Queiroga e Onildo Almeida) e Aproveita Gente (Onildo Almeida). O restante tem pouquíssima relevância na obra do Rei do Baião. Onildo pretendia que Gonzaga gravasse suas marchinhas de roda, não mereceu atenção em relação a essa expectativa e aí ficou ressentido. Eram algumas marchinhas como aquela chamada “Marinheiro” que Marinês gravou em 1961, que era de domínio público e Onildo adaptou e registrou em seu nome, obrigando depois o artista Caetano Veloso que em 1969 também a gravou com o nome de “Marinheiro Só”, a dividir com ele os direitos autorais da música, quando Caetano a havia registrado como folclórica. Mesmo assim, quando voltou do exílio em 1972, foi obrigado a ir até Caruaru para responder a ação judicial proposta por Onildo.

Sobre a música “Capital do Agreste”, imaginada por Luiz Gonzaga para homenagear Caruaru no seu centenário em 1957, Luiz queria que Onildo fizesse a letra para a sua melodia, mas Onildo não conseguiu porque não conhecia nada da história da cidade. É o próprio letrista da música Nelson Barbalho quem conta:

“Eu era funcionário público e funcionário público só trabalha a pulso. Então, eu passava o dia jogando sinuca. Um dia, chegou Onildo dizendo que Luiz Gonzaga queria falar comigo. Quando saí, Luiz Gonzaga estava me esperando na calçada. Fomos para o Café Majestic, sentamos numa mesa nós três, mais José Almeida, o irmão de Onildo. Eles, então, me explicaram o problema da música e eu aí comecei a contar a história de Caruaru. Nisso, eles me perguntaram por que é que eu não contava isso em verso. ‘Ué, porque eu não sei fazer verso’. Mas José Almeida começou a bater um ritmo de baião na mesa e Gonzaga cantarolou uma melodia e eu fiz 'Quem conhece meu Nordeste... E foi o primeiro verso que eu fiz na minha vida! Gonzaga continuou a cantarolar e eu, em cima da música dele:... Certamente há de saber/ Que Caruaru do Bonito/ Há cem anos veio nascer', e assim foi. Em uma hora a música estava pronta.”

Disse-me o velho Corró no fim da década de sessenta, que o poeta Nelson Barbalho abertamente falava na casa de sinuca que ficava em frente ao cinema de Santino, no centro de Caruaru, que a música “Capital do Agreste” era de Luiz Gonzaga (melodia) e dele (letra). Mas como a intenção de Gonzaga era realmente homenagear a cidade pelos seus 100 anos, ele não foi mesquinho (como esses que agora falam mal dele) e deixou que o famoso baião ficasse registrado em nome de dois filhos da terra: Onildo e Nelson.

Nelson Barbalho deixou muitos livros escritos, porém a maioria deles fala da história dos municípios pernambucanos. Nunca eu ouvi dizer que ele tenha deixado alguma obra que aborde as suas composições musicais. Porém um amigo dele, Newton Thaumaturgo, também abnegado historiador municipal, registrou em seu blog aquilo que havia lhe dito Nelson Barbalho, isto é, que a citada música era realmente uma parceria de Luiz Gonzaga com ele. Quem tiver ainda alguma dúvida sobre esse tema, basta clicar aqui. Quando aparecer uma imagem, dê um clique nela para ler melhor o que está escrito. Eu até deixei uma mensagem lá, mas o blogueiro não me respondeu. E nem precisava, após esse depoimento acima de Nelson Barbalho.

Eu que já escrevi uma pequena biografia de Onildo Almeida para o site da gravadora Revivendo, fiquei pasmo com essa sua mudança de atitude e também por se revelar um homem profundamente ingrato. Ele não seria nada sem o seu grande divulgador que foi Luiz Gonzaga. A cantora Marinês que gravou várias das suas músicas, faz cinco anos que morreu e hoje ninguém mais fala nela, que dirá das músicas de Onildo! Com Luiz Gonzaga “A Feira de Caruaru” chegou a mais de 50 países.

Luiz Gonzaga quando chegava a Caruaru, muitas vezes se hospedava na casa de Onildo e nunca deixou de visitar a emissora de rádio da sua propriedade, a Rádio Cultura do Nordeste, onde sempre dava entrevista. Ele até gravou música em seus estúdios. Quando Onildo viajava ao Rio de Janeiro, era na casa de Gonzaga onde ele ficava.

Ouvindo hoje um velho áudio que tenho em meu poder, resolvi compartilhar essa preciosidade (em termos de documento sonoro) e o pus no YouTube, ficando a imaginar como o ser humano às vezes se mostra pequeno e incompreensível: trata-se de uma gravação ao vivo feita no auditório da Rádio Difusora de Caruaru ainda no ano de 1956. É a primeira execução pública da música que iria ser gravada por Luiz Gonzaga em 1957: “A Feira de Caruaru”, de Onildo Almeida.

Ouçam que beleza de página sonora e percebam como o “Rei do Baião” tratava bem a quem hoje ajuda a difamá-lo.

Que pena, Onildo!

Sobre a obra

As meias verdades de uma reportagem publicada em 20/06/2012, de autoria do jornalista paraibano José Teles, escritor e crítico musical, quando a memória do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, foi enxovalhada.

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Autoria
Abílio Neto - pesquisador musical
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Eldo Meira
 

Caro Abílio. O ser humano deixa de ser ingrato na medida que descobre a verdade dessa frase que um professor do primeiro grau uma vez me disse: Uns nascem para ser estrelas, outros para serem estrelados. Parabéns pelo trabalho, Abílio e um abraço do tamanho do Rio Grande.

Eldo Meira · Carazinho, RS 30/8/2012 10:34
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Abílio Neto
 

Obrigado, caro Eldo Meira. Um abraço do

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 30/8/2012 10:52
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