Os ratos não encontraram qualquer alimento no barraco. Então roeram o rosto da menina, filha da comadre que morava parede e meia com a gente. Mamãe, triste, fez o vestido de anjo pra afilhada. Acendi o fogão de lenha até fazer carvão bem vermelho pro ferro de brasas. E chorei, calada, passando o vestido cor-de-rosa de cetim. A casa da comadre apinhada de vizinhos. Água na talha São João e café no bule branco esmaltado. Caixão pequeno, branquinho, todo enfeitado com flores de papel crepom. A mãe lamentava: ai, meu Deus, por que? As vizinhas confortavam-na: foi Deus quem quis, comadre! Foi Deus quem levou! Só eu não acreditava. E não entendia mesmo por que Deus queria tanto ao seu lado, uma menina com o rosto roído de ratos e todo enfeitado com flores de papel crepom.
Essa é uma das lembranças da minha infância, nos idos de 1959 na Cidade Livre, o local onde moravam os pioneiros, os trabalhadores que vinham ajudar na construção de Brasília, a nova capital do Brasil. Esse trecho faz parte da minha autobiografia, a ser editada ainda este ano.
Um conto muito bem escrito. Soube dar voz à personagem, isso é uma façanha. O ideal do conto: chegar direto ao ápice. Todo conto deveria ser, como por definição é, um micro-conto.
Excelente.
Abraços.
Assim se fazem muitos "anjinhos" por esse país maltratado. Poeticamente triste tua prosa.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 26/6/2008 17:56
Muito triste...essa de Deus que quer, que quis...não acho que Ele seria capaz de querer pra si e deixar uma mãe chorando o resto de seus dias por ter perdido "pra Deus" sua filha, seu útero e ventre...Acho que assim foi, pois assim teria que vir pouco tempo para fazer as pessoas acreditarem que anjos vem e vão, que vem para mudanças de uma família, às vezes o comportamento de uma vila, uma cidade, às vezes o mudo, ou o nosso mundinho que a gente cria...
Quanto ao texto, você talvez pensou certo, Deus não queria um rostinho assim e nem enfeitado...Deus quer Paz...
Sofrimentos podemos ter, mas a dor a gente escolhe como viver...
Sei bem disso, quantas perguntas fazemos, como queremos que o filho vá com dignidade, enfeitado, talvez para provar que ainda somos mãe até o momento da separação física...mas nada disso é importante, apenas que tivemos alguém especial entre nós e Graças à Deus, isso sim.
Sua autobiografia quero ter o prazer de ler, afinal somos todos lutadores pela paz e felicidade...bjus
Emocionada.
Walnizia, gostei do conto. Bem escrito, direto e gostoso de ler. . Quantas coisas que lembramos não é?
Bjsss
Pronto completou os pontos. Estou te editando.
Bjsss e parabéns!
Obrigado a todos pelo estímulo e pelos votos. Estou gostando muito de interagir no Overmundo. Abraços carinhosos a todos vocês, tão talentosos! Beijos.
Wall
Gostei muito.
UM VOTO CERTO e um beijinho doce, Sílvia.
Silvia, obrigada amiga, pelo carinho.
Abraços. Walnizia
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!