OSSOS DO OFÍCIO
Aníbal Beça ©
Manter as vendas da região Norte sempre no ponto mais alto da Empresa Franco-Brasileira de Medicamentos, era uma questão de honra para Armando Ibiapina, Misto de gerente e pracista que visitava desde drogarias, hospitais, consultórios médicos, até o mais humilde boticário perdido nas pequeninas vilas do interior da Amazônia.
Sustentar essa hegemonia era tarefa a exigir uma série de concessões. Vale dizer, pedidos dos mais inusitados da sua variada clientela. Os mais freqüentes, quando ele se dirigia para o interior, eram pedidos para que trouxesse encomendas desde vídeo-cassetes, radinhos de pilha e perucas Kanekalon da Zona Franca. No caso inverso, os clientes de Manaus, pediam-lhe do mais inocente quilo de farinha seca acreana a latas de mixiras (como chamam as carnes conservadas em gordura) de caças variadas.
Essa condição de mascate-mambembe, por certo não era de seu agrado, mas que fazer? O importante era permanecer no topo das vendas. Garantia de mais dinheiro e de uma posição mais simpática junto aos diretores de sua empresa. Portanto, como dizia sempre relembrando o Velho Guerreiro: “ajoelhou, tem que rezar”.
Estranhamente, dessa vez, quando foi cobrir a área de Tabatinga, nenhum cliente lhe pedira nada. Pela primeira vez estava chegando ao pequenino aeroporto atrasado. Um certo ar displicente, uma cara de pernoite, davam indícios de que a farra do outro lado da fronteira, no lado colombiano, havia sido animada entre cúmbias, merengues e salsas; sem faltar, a famigerada aguardente de anis. Armando, não só estava com cara de ontem, como havia personificado o próprio milongueiro: Don Armandito Del Brasil, “El borrachito”.
A funcionária da companhia de aviação – velha conhecida sua de outras viagens – estranhou seu atraso porque ele era tido como cliente padrão. Até aquele dia nunca atrasara.
- Aconteceu alguma coisa, sr. Armando? O senhor é o último passageiro da lista... estávamos só esperando pelo senhor.
E com uma voz aportunholada, sem que a jovem entendesse alguma coisa,
Don Armandito tentava se desculpar:
- Perdón, perdón... no se trata de ningun contratiempo o embarazco de atraso, sino de buena suerte. O que lo ha sucedido es que yo estoy muy contento por non ter sido aporrinhado com qualquer tipo de pedido. La mejor coisa es viajar sem bregueços dos outros.
Enquanto ele preenchia os formulários de embarque, aproximou-se uma jovem muito simpática e bonita:
- O senhor vai viajar para Manaus? Por favor... por caridade... o senhor é a única pessoa que pode me ajudar. Esta pequena encomenda está sendo ansiosamente esperada... e não vai lhe causar transtorno algum. Veja como o pacote é pequeno.... e tem uma pessoa lá, no próprio aeroporto, que irá apanhá-lo,,,
Não chegou a responder nem sim, nem não. O alto falante do aeroporto, pela terceira vez, chamava-o para o embarque. Apressado, pegou o embrulho. Só dentro do avião tomou consciência, de que aquele pacote não se tratava de nenhuma encomenda de cliente seu. Quem seria aquela moça insinuante? Estaria a serviço de quem?
As conjecturas passeavam em sua cabeça meio atordoada pela ressaca. Já pronto para o avião decolar, apertou o cinto, agasalhou o pequeno embrulho no colo. Não deveria pesar mais que dois quilos. A consistência macia despertou-lhe à curiosidade. Dado a colecionar aforismos, instintivamente, passou a lembrá-los: “A curiosidade é a mãe de todos os males”... “A curiosidade é uma das características permanentes e certas de um espírito vigoroso”.
Encorajado pelo segundo, passou a apalpar o embrulho e, disfarçadamente, levou-o até o nariz dando uma cafungada profunda. Suas mãos começaram a suar. Um frio intenso subiu-lhe a espinha. O sangue lhe fugia do rosto. Os passageiros olhavam-no naturalmente, e ele se sentia frágil, como um réu culpado. Bem que sua mulher já o havia prevenido. “Qualquer dia... qualquer dia...”
O pensamento aziago foi cortado pela presença da aeromoça. Solícita, prontificava-se a guardar o embrulho para a sua melhor comodidade.
Armando, já preso de um descontrole visível, agradeceu a cortesia e, em seguida, abraçou-se ao embrulho, não sem uma ponta de desconfiança pelo olhar de cisma que a aeromoça lhe atirara.
Aquele trajeto, tantas vezes feito sem nenhum problema, estava se configurando num vôo de turbulência interior. A chuva escorria pelo seu rosto, embora ele olhasse pela janela e o céu se mostrasse um céu de brigadeiro, limpo, sem nuvens. Mas grandes cúmulos escuros aproximavam-se, turvando-lhe e embaçando-lhe a vista. Novamente a curiosidade apossou-se de seu debilitado espírito. Da náusea à descoberta. Do medo à revelação. Com força, seu dedo indicador passou a perfurar uma ponta do embrulho que, por baixo da embalagem de papel, deixava entrever, pelo plástico transparente, um pó branco-acinzentado.
Compulsivamente, furou o plástico e levou um pouco do pó até a ponta da língua. Não sabia distinguir que gosto era aquele, mas lhe havia agradado. A última provada, foi interrompida pela voz do comandante anunciando a chegada ao aeroporto de Manaus. Procurou refazer o pacote, não sem deixar de dar uma última provada.
O percurso da sanfona à sala de desembarque, foi pontilhado de angústia e especulações sombrias. Em tantos anos de profissão, uma vida correta, tudo poderia desmoronar por causa de um pequeno pacote.
Mal retirara a maleta, dois agentes federais vieram ao seu encontro:
- O senhor é que e o sr. Armando Ibiapina?
Ele acenou afirmativamente com a cabeça.
- Queira nos acompanhar, por favor.
Num reservado próximo à saída, esperava-o outro agente. Presumivelmente, pelo tom de respeito em que os dois agentes o trataram, devia ser o delegado geral.
Armando não sentiu mais o chão. Suas pernas começaram a ceder.
- Onde está o embrulho?
Armando, com as mãos tremendo e gaguejando:
- Está aqui... aqui, mas juro...
Não chegou a concluir a frase. Foi enlaçado num abraço emocionado.
- O senhor nem sabe o favor que fez... não sei como lhe agradecer...
O delegado levou o embrulho ao peito, os olhos marejados:
- são os restos mortais da minha mãe.
Caro amigão amazônico, não sei se você já tem ou não livroS publicadoS, mas material tem de SOOOOOBra. Adorei este seu último escrito, na verdade ainda estou com os olhos marejados de tanto rir...Que confusão!!! Adoro este ritmo com conclusão inesperada... O coitado pensando que se tratava de cocaína, e alucinado começou a se viciar em algo que desconhecia, e achou que estava drogado, com todas as paranóias que surgem durante a viagem, literalemnte...risos. Bom, mas o desfecho...kkkkkkkkk. Parabéns nobre amigo, esse foi um dos que mais gostei e até alegrou mais o início de meu dia. Forte abraço do cerrado e ainda estou a rir...kkkkk.
adorei....
ah...
nem chegou a ser um osso duro de roer...
Grande conto
Um abraço
lendo para sua edição.Voltarei.Tenha um domingo cheio de alegrias...
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 8/6/2008 08:39
QUERIDOS CRISTIANO, EDIMO E CLARA a presença de vcs. aqui para leitura e votação me é muito grata. Obrigado, amigos.
Abraço amazônico
Que bom. Ver o trabalho. Ver o belo trabalho. Parabens amigo.
Elio Cândido de Oliveira · Ibiá, MG 8/6/2008 19:02
parabens meu amigo Beça, por mais essa preciosa colaboração. Acho que voê é movido à paixão pela ecrita. Eita cabra bom danado. Gosto desse humor.....Abraços e votos, Grauninha
graça grauna · Recife, PE 9/6/2008 02:39
Queridos Elio, Edimo, Grauninha, Clara e Celina obrigado pela visita, leitura e votos.
Beijos muitos
Fantástico! Lí num crescendo como o sofrimento da personagem até o final surpreendente. E não seria errado afirmar que Don Armandito provou da mãe do delegado... rsrsrsrs
Meu caro, quando eu crescer quero escrever como você! Votadíssimo!
Beijos.
Sandra querida, que bom que gostou. este conto se junta a outros doze com finais ditos anedóticos. A crítica uspiana torce a cara para esse gênero, mas gosto da ironia sardônica e do humor rascante. Que fazer? Fazer outrtos do mesmo jaez e ajuntá-los num volume. Antes vou colocando-os devarinho por aqui. Sinto muito, queridas cobaias... rsrsrsr
Obrigado pela leitura querida
beijos muitos
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