Vejo o outono transformar-se em inverno. Assim, num piscar de olhos, no instante de um bocejo. Da janela da casa toscana, espio os ciprestes que se inclinam solenemente à força do vento. Meus olhos alcançam os vinhedos logo ali, ramos nus, já desprovidos das folhas amarelas e vermelhas. Esplêndidas cores de um outono fugaz, que deslizam à terra sem dar aviso, sem despedida.
Quando vejo, é inverno. O jardim mais triste, mais austero. Ao longe, os picos das montanhas cobertos de neve. A lenha sendo consumida diariamente, crepitando sob o fogo, espalhando seu cheiro forte pela casa. Doce aconchego do lar, a manta no colo a aquecer as páginas do livro, ou sobre os ombros a embrulhar quem escreve.
Mas a melancolia bate à porta, espreita-nos por entre as frestas da janela, teima em querer entrar. Sensação de adeus, de coisas que não voltam mais, de um ciclo que se fecha, a ansiosa expectativa de um novo recomeço. Outra estação.
Não, nos deixe estar. Ainda um pouco, somente. Protegidos, escondidos em nosso refúgio. Casa no fim da estrada, depois da descida, virando a curva. Redoma fora do tempo e do espaço.
Letícia Ludwig Möller
Montepulciano, 17 de novembro de 2007
Letícia,
me emocionei com teu texto. Primeiro por que fala da Toscana, terra de meus antepassados (Pietra Santa - Lucca). Depois pela força do texto que me impressionou muito. Mas depois do inverno virá outra primavera e depois outro verão. E a vida vai continuar acontecendo... sob o sol da Toscana ou sob o sol de qualquer outro lugar...
beijos
Nydia
Nydia,
obrigada pelas tuas palavras tão generosas.
Gostei de saber que tens origem toscana. Estive alguns dias em Lucca, que é muito interessante como cidade para viver, mas não conheci Pietra Santa.
A Itália é minha segunda casa, lugar onde vivo há 3 anos (há 1 na Toscana). Mas agora em dezembro estou voltando, definitivamente, ao Brasil. É um período que tem suscitado em mim emoções fortes, belas mas inevitavelmente melancólicas e já nostálgicas.
Um beijo,
Letícia.
Letícia,
posso imaginar os sentimentos e emoções por que passa. Tres anos não são tres dias. Criamos laços... Mas viver é isto: este turbilhão de acontecimentos e sentimentos que se sucedem... Uma nova etapa de vida te aguarda. E em breve, se lembrará dai com uma doce saudade. E há sempre a possibilidade de voltar...
beijos
O texto é tão bonito e melancólico. Quase me senti dentro de um quadro que engana o olhar e não se sabe se vemos o outono ou o inverno.
Gostei imensamente.
beijos, votarei.
Saramar,
muito obrigada. Para mim é tão importante poder contar com a opinião de quem lê, saber o efeito causado, o sentimento suscitado, por aquilo que escrevo. Tanto mais por alguém cujos versos admiro.
Um abraço!
Nydia, novamente obrigada. Sim, a será certamente doce a saudade. E espero realmente um dia poder retornar.
Beijos.
Letícia, viajei nessa curva e cheguei até essa sua casa aconchegante, com lareiras que aquecem a alma... Uma para os picos das montanhas em neves... Hum. fui longe. Fui às minhas paisasgens do incosciente que de vez e smpre afloram o cosciente, das minhas lembranças que nunca as vivi. Louco isso, né?
Adorei!
Parabéns pela volta!
abrção
Letícia
Que texto maravilhoso, terno, doce...Momentos de estar sozinha, mas não em total solidão...sensação do silêncio...Tive dias assim, e o regresso..Ah o regresso...Bárbaro, bárbaro, bárbaro...
Momentos profundos...bjus
Muito bom, muito denso seu texto.
parabéns www.joaoayres.com
Poema em prosa. Pareces querer te ensaiar na poesia mas teme o vôo.
Um abraço
Belíssimo!
Deixou um cheiro de terra remota,
daquelas que só vemos em filmes cult.
Abraço
http://interludios.blogspot.com
Branca,
gostei de saber que vieste perder-te um pouco na suave ondulação das colinas toscanas. Nostalgia pelo que não vivemos? Um conceito que adoro, e que ganhou melhores contornos, para mim, quando li Stendhal.
Um grande beijo, e obrigada pela generosidade da leitura.
Letícia.
A todos,
Benny e Cíntia (queridos de sempre),
João, Júlio, Carlos,
agradeço imensamente pelo tempo dedicado à leitura destas linhas tecidas de antecipada saudade. Os comentários de vocês são um grande estímulo a seguir em frente e aprimorar a escrita.
Júlio,
aventurei-me na poesia uma vez por aqui, mas me sinto mais no meu chão com a prosa (o que aqui alguns já chamaram de “prosa poética”, ainda que não tenha tamanha pretensão).
Abraços!
Carlos,
a tua impressão de “cheiro de terra remota” é fantástica, talvez aquilo que eu queria expressar sem saber...
Obrigada de novo!
Leticia.
Simplesmente lindo teu texto. Escreves suave, doce. Tuas palavras têm o sabor dos frutos maduros. O lugar que descreves de maneira absolutamente bela, causou-me inveja, mesmo que tenha cheiro de adeus, de não poder adormecer minha alma por lá.
Lindo, Leticia.
Fico na espera de mais textos belos como esse presente que nos ofertas hoje. O mais divertido do teu texto, Leticia, é que essa redoma fora do tempo e do espaço, não me traz ao coração a imagem de uma triste paisagem de inverno, mais a de uma vitrine acolhedora como o conforto religioso de um altar.
Beijos
Noélio
Leticia.
Corrijo: mas a de uma vitrine...
Noélio
Noélio,
tuas palavras, tão bem ditas e cheias de sensibilidade, me emocionaram e alegraram profundamente. Recebe meu muito obrigada, pela leitura e pelo comentário belo e gentil. Deixei um recado em seu perfil.
Um grande abraço,
Letícia.
Muito, muito bom mesmo minha querida amiga Letícia, adorei. Meus sinceros aplausos e beijos.
Carlos Magno.
Carlos,
sinceramente obrigada! Muito bom contar com tua leitura.
Abraços,
Letícia.
Olá... agradeço a visita e o comentário da poesia do cotidiano, que vc acertadamente traduziu pela poesia doméstica. Tenho investigado sobre os meus motivos poéticos e estando participando do ENE( Encontro Natalense de Escritores) tenho me sentido mais á vontade em mexer mais nesta vertente.
Brisa de fim de tarde de dia nublado com janelas antigas e jarros em terracota é o que esta bela crônica nos remete e com uma sutileza e delicado cuidado na apresentação.
Um abraço e bom retorno ao Brasil, mas traga tb este ar que faz bem a quem lhe visita. Inté e Abraços.
Outro dia re-assisti "Sonhos", d Kurosawa... O primeiro sonho uma explosão de cores, dança milimetrada num cortejo nupcial, música minimalista, uma lenda como pano de fundo e aquele menino... Aquele menino era eu a olhar o mundo real-imaginado... Mas o mais surpreendente, sem dúvida nenhuma, é aquele do Van Gogh... E o que tem isso a ver com teu texto?... Uma sensação de que a Beleza está por toda parte e que não deve ficar retida àquilo que nossos olhos capturam... Deve ser compartilhada, como Kurosawa fez dividindo-os em sonhos... Como Letícia e sua melancolia que nos deu essa beleza de prosa poética... Saudades...
Pepê Mattos · Macapá, AP 25/11/2007 09:11
Ana Luiza,
acho fantástica a idéia de uma poesia do cotidiano, da poesia que surge em meio à simplicidade do dia-a-dia, sem turbá-la, ou que quebra a rotina, surpreendendo, fazendo pensar. Versos para além do transcendental, do puramente abstrato. Gostei muito das tuas poesias.
Um forte abraço,
Pepê,
obrigada pela visita e pela leitura sempre atenta, sempre sensível.
Gostei muito quando dizes “Uma sensação de que a Beleza está por toda parte e que não deve ficar retida àquilo que nossos olhos capturam...”. Benditos dias em que conseguimos retirar nosso olhar do automatismo e perceber a beleza que nos circunda – por toda parte, nas mais ínfimas coisas. Melhor ainda quando podemos compartilhá-la, transformar o que o olhar captura em prosa, em poesia.
Um grande abraço para ti!
Letícia, muito lindo seu texto! Já deixei meu voto, viu?
Também estou aqui, com "Contradança". Passa lá pra ler o soneto. Estou te esperando.
Beijos,
Márcia
http://www.overmundo.com.br/banco/contradanca
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