Espantoso é como a loucura dos itinerários da vida às vezes cai em nosso colo. Hoje, por exemplo, foi pela Reuters que uma pitada de existencialismo veio me temperar este abril aguado. Acontece que a Agência publicou notícia onde um certo Emad Zied, egípcio, 31 anos, foi preso por manter sua senhora em cativeiro domiciliar. Até aí tudo bem, mas sabem o motivo? Segundo Emad Zied, excesso de alegria.
Isso mesmo. O senhor Zied havia prendido sua esposa, Rasha, 20 anos, no apartamento onde ambos moravam porque ela era "alegre demais" para conviver com outros humanos, que não ele. Mas antes que vocês, defensores da liberdade incondicional, se animem a proclamar acusações raivosas contra o marido cuidadoso, farei aqui o papel de advogado do diabo. Sustento a tese de que Emad Zied é vítima.
Vítima, sim, meus senhores. De si, de Rasha... no fundo, uma vítima das circunstâncias, pois não é nada senão a contingência o grande drama dos seres que povoam a terra. Nós caminhamos sem saber, mas mesmo assim desejamos muito. Cultivamos nossas expectativas no sonho, que em muito pouco toca o real, para depois cobrarmos da vida um contrato firmado apenas em nossa cabeça.
Ora e não foi exatamente isso o que Zied fez? Delirou em Rasha A Mulher, aquela, a que lhe foi destinada. Foi construindo seu devaneio na realidade. Namorou, jantou com a família. Tomou coragem, pediu sua mão em casamento. Venceu sogro e sogra, melindrosos que a menina fosse infeliz ou passasse necessidade ou os dois ao mesmo tempo. Eles concordaram e, perfeição construída, realizou-se a cerimônia.
E, no casamento, o quanto Zied não trabalhou para prover o conforto prometido! Juntou dinheiro e montou residência na Itália, onde os dois viviam. Tapete persa, cortina de seda, armário embutido. Um lar forjado para a eternidade do matrimônio. Tudo isso que Rasha, a má, a perversa, a sem coração, colocava em xeque com sua alegria desbragada chamando a vida para bailar. Alegria é liberdade. Liberdade é perigo. Um perigo que o sonho de Zied não queria correr.
Por medo, Zied fez do amor o que a vida não suporta. Seu sentimento era a prisão imaterial concretizada no apartamento mimosamente arrumado. E é aqui que se revela o espanto dessa crônica sem brilho. Foi Zied que herdou a prisão erguida para Rasha. Imaginem-no agora olhando, pelas grades, o mundo livre e pensando que foi ele mesmo que se conduziu, por livre iniciativa, ao lugar que, dentre todos, menos queria estar: longe de Rasha e do seu lar.
Fizemos da vida uma tragédia e ainda reclamanos da crueldade... Bom, prefiro fazer da vida uma escola.
Boa crônica!
Agradecido, José!
Adrei!
O grande mal de todos os tempos é "cobrarmos da vida um contrato firmado apenas em nossa cabeça". O que vemos então é uma guerra de razões, onde querem vencer pela força, pelo grito e pelo jogo de palavras.
Concordo com josé.
Parabéns!
Esqueci-me de dizer sobre a image: perfeita a ilustração. Tem tudo a ver.
Edna Queiroz · Rio de Janeiro, RJ 29/4/2007 11:33
parabéns pela excelente crônica!
grande abraço
francinne
linda foto!!!!!
Francinne Amarante · Brasília, DF 29/4/2007 18:50Isaac. Nem preciso comentar não é mesmo? Abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 30/4/2007 07:53Bonita crônica, Isaac. A prisão como metáfora do casamento. A alegria como metáfora da liberdade. E ambas espelhos de uma relação de amor e paixão, permeada por convenções sociais e culturais, que verte e subverte. No primeiro caso, a alegria incontida de Rasha diante da vida verte sorrisos. No segundo, as amarras do amor de Zied, degradado pelas conveções, o ciúme e a loucura. Por fim, cabe-nos refletir sobre este pobre Zied shakespeariano que, de certa forma, é o mesmo que forja as tragédias de amor e paixão que habitam o coração da humanidade desde tempos imemoriais. Ou não? Um abraço. E parabéns pela crônica.
Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 30/4/2007 14:41Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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