Palavraprecipício

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Pedro Vianna · Belém, PA
14/3/2007 · 85 · 11
 

“Un pion pourrait se faire un bagage littéraire, en disant le contraire de ce qu’ont dit les poètes de ce siècle. Il remplacerait leurs affirmations par des négations.”
Isidore Ducasse


Não sei ao certo de que buracos
saíram estas noites que vagam por aí, como vírus,
apunhalando-me os nervos com tal violência,
feito uma nova vileza secreta.

Guardo um velho sonho , uma mordida seca e larga,
uma mão miúda, como a de minha mãe,
que me embala e me espanca,
jogando-me dentro de uma rede encardida,
coberta por um mosqueteiro.

Posso ver seus olhos outra vez...

Guardo uma cicatriz desconhecida,
feita de falta de trabalho ou de tempo.
Talvez uma tristeza de quem já não consegue ser nada.

Sofrer não é muito diferente de fugir.
Seria uma merda se um desconsolo ou outra coisa
pudesse ser adiada até o desaparecimento.

É fácil ser influenciado pela morte.
E penso sempre o mesmo,
se existirá a ausência de movimento,
se não seria melhor ficar em casa
mais tempo, mais vezes.

Claro que já não tenho mais sangue no coração.
É uma das condições que me fazem
calar sobre o que me cerca.
Não preciso estar triste para destruir seja o que for.

Meus amigos têm medo que eu morra,
eu que sempre exercitei a covardia,
a indiferença, o tédio,
a desgraça. Eu que perdi toda a dignidade.

Quando faz sol, as ruas vestem-se de pessoas
que evitam o sol com as mãos abertas.O sol é triste.
Parece uma palavra caindo do céu.

O mundo junta os pedaços,
junta as peças debaixo de meus pés.

O sol parou. Caras desconhecidas enchem-me o coração.
Projeto meu futuro esquecendo delas.
Saindo de um motel pra beber cerveja.
Mal disposto como quem está preste a nascer.

Alguém me abandona nisto.
O dia sobe como uma pedra. As pessoas desaparecem.

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Pedro Vianna
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Bia Marques
 

menino... que dizer desse verbo triste e desassossegado?

Bia Marques · Campo Grande, MS 12/3/2007 17:22
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Pedro Vianna
 

Bia, guardei este texto por um tempo pra ver no que ia dar. Pensei que talvez o tratamento em prosa fosse uma solução mais adequada. Mas creio que, mesmo que o texto fuja um pouco das caraecterísticas de minha poética, o resultado foi bom. Valeu o interesse...

Pedro Vianna · Belém, PA 12/3/2007 17:56
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Marcela Fells
 

De que buracos sairam as noites.... que facada vc deu no meu coração agora.. to chorando de boca aberta.. vou caçar um lugar pra me esconder.. mas eh bom demais essa angustia toda

Marcela Fells · Belo Horizonte, MG 12/3/2007 19:07
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Pedro Vianna
 

Marcela... por vezes a palavra arma um alçapão
para que caiam nosso sentimentos.
Que bom que o mecanismo funcionou...

Pedro Vianna · Belém, PA 13/3/2007 08:16
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Bia Marques
 

sem dúvida que é bom, mas a dor que comporta me motivou escrever ali em cima. abraço

Bia Marques · Campo Grande, MS 13/3/2007 14:58
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
ella
 

Pedro,
teu texto é um mergulho
no vazio da eistência.
Ou seria melhor dizer: no precipício?

ella · Cametá, PA 14/3/2007 13:52
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Carlos ETC
 

Cabra, botou pra lenhar agora...
Muito bons, seus versos!!!
Gostei demais!
Abraço!

Carlos ETC · Salvador, BA 14/3/2007 16:22
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Pedro Vianna
 

Ella,
o importante mesmo
é o mergulho.
Ou seria melhor dizer: a queda?

Pedro Vianna · Belém, PA 14/3/2007 16:35
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Pedro Vianna
 

Carlos,que bom que gostou.

Pedro Vianna · Belém, PA 14/3/2007 16:35
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Renato Torres
 

pedro,

é surpreendente o tom confessional dessa prosa poética, tão diversa mesmo do que já me foi dado conhecer dos teus poemas. sincera e sem floreios, é impossível não se identificar com essa angústia, sim existencial, mas para além disso, fincada numa necessidade legítima de compreensão de si para si.

abração,

r

Renato Torres · Belém, PA 24/3/2007 13:34
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Pedro Vianna
 

Renato, sim esse é um texto que sinto alheio. Como se eu fosse simplesmente a mão guiada por uma voz outra...

Pedro Vianna · Belém, PA 24/3/2007 21:17
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir

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