“Un pion pourrait se faire un bagage littéraire, en disant le contraire de ce qu’ont dit les poètes de ce siècle. Il remplacerait leurs affirmations par des négations.”
Isidore Ducasse
Não sei ao certo de que buracos
saíram estas noites que vagam por aí, como vírus,
apunhalando-me os nervos com tal violência,
feito uma nova vileza secreta.
Guardo um velho sonho , uma mordida seca e larga,
uma mão miúda, como a de minha mãe,
que me embala e me espanca,
jogando-me dentro de uma rede encardida,
coberta por um mosqueteiro.
Posso ver seus olhos outra vez...
Guardo uma cicatriz desconhecida,
feita de falta de trabalho ou de tempo.
Talvez uma tristeza de quem já não consegue ser nada.
Sofrer não é muito diferente de fugir.
Seria uma merda se um desconsolo ou outra coisa
pudesse ser adiada até o desaparecimento.
É fácil ser influenciado pela morte.
E penso sempre o mesmo,
se existirá a ausência de movimento,
se não seria melhor ficar em casa
mais tempo, mais vezes.
Claro que já não tenho mais sangue no coração.
É uma das condições que me fazem
calar sobre o que me cerca.
Não preciso estar triste para destruir seja o que for.
Meus amigos têm medo que eu morra,
eu que sempre exercitei a covardia,
a indiferença, o tédio,
a desgraça. Eu que perdi toda a dignidade.
Quando faz sol, as ruas vestem-se de pessoas
que evitam o sol com as mãos abertas.O sol é triste.
Parece uma palavra caindo do céu.
O mundo junta os pedaços,
junta as peças debaixo de meus pés.
O sol parou. Caras desconhecidas enchem-me o coração.
Projeto meu futuro esquecendo delas.
Saindo de um motel pra beber cerveja.
Mal disposto como quem está preste a nascer.
Alguém me abandona nisto.
O dia sobe como uma pedra. As pessoas desaparecem.
menino... que dizer desse verbo triste e desassossegado?
Bia Marques · Campo Grande, MS 12/3/2007 17:22
Bia, guardei este texto por um tempo pra ver no que ia dar. Pensei que talvez o tratamento em prosa fosse uma solução mais adequada. Mas creio que, mesmo que o texto fuja um pouco das caraecterísticas de minha poética, o resultado foi bom. Valeu o interesse...
Pedro Vianna · Belém, PA 12/3/2007 17:56
De que buracos sairam as noites.... que facada vc deu no meu coração agora.. to chorando de boca aberta.. vou caçar um lugar pra me esconder.. mas eh bom demais essa angustia toda
Marcela Fells · Belo Horizonte, MG 12/3/2007 19:07
Marcela... por vezes a palavra arma um alçapão
para que caiam nosso sentimentos.
Que bom que o mecanismo funcionou...
sem dúvida que é bom, mas a dor que comporta me motivou escrever ali em cima. abraço
Bia Marques · Campo Grande, MS 13/3/2007 14:58
Pedro,
teu texto é um mergulho
no vazio da eistência.
Ou seria melhor dizer: no precipício?
Cabra, botou pra lenhar agora...
Muito bons, seus versos!!!
Gostei demais!
Abraço!
Ella,
o importante mesmo
é o mergulho.
Ou seria melhor dizer: a queda?
Carlos,que bom que gostou.
Pedro Vianna · Belém, PA 14/3/2007 16:35
pedro,
é surpreendente o tom confessional dessa prosa poética, tão diversa mesmo do que já me foi dado conhecer dos teus poemas. sincera e sem floreios, é impossível não se identificar com essa angústia, sim existencial, mas para além disso, fincada numa necessidade legítima de compreensão de si para si.
abração,
r
Renato, sim esse é um texto que sinto alheio. Como se eu fosse simplesmente a mão guiada por uma voz outra...
Pedro Vianna · Belém, PA 24/3/2007 21:17Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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