Houve um tempo
em que minha mão marcava o cabo da espada
e as tiras de couro do meu escudo
sangravam por dentro meu braço
Quantas vezes morri exangue
sentindo o frio do punhal alheio
Fosse eu Aquiles Pátroclo Heitor
Leônidas destemido e os 300
seria eterno em feito e nome
Mas sou apenas um soldado raso
de alguma esquecida infantaria
lutando pela vida a cada passada
a cada olhada no horizonte das setas
Engoli o sangue e o farelo dos dentes
o pó das patas dos cavalos loucos
senti ao longe o cheiro da maresia
tremia em mim o corpo de guerreiro
(Penso que a dor que sinto
lancinante em meu ombro esquerdo
é a lembrança de uma espada fria
de algum batalha de Salamina
posso ouvir o barulho dos ossos
o clarão do golpe como um galope
e mergulhei no sono pesado da escuridão
sem paz ou guerra, apenas a escuridão.
Vagar no Hades, sombra sem memória,
arar a terra ser escravo
sentir na pela a impiedade do látego
melhor seria a esse triste destino)
Houve um tempo em que fui herói
e lutava, o corpo encharcado de suór,
a honra me bastava por estar ali
ser um entre os melhores.
Tristes tempos
estes em que vivemos
em que homens outrora heróis
já não mais guerreiam:
somos garçons flanelinhas lavadores de pratos
médicos professores advogados traficantes
motoristas ambulantes bêbados drogados
políticos vagabundos atores desesperados
vagamos a esmo por dias infindáveis
desacostumados e inquietos
engordamos em frente à tv
tentamos escoar nossa virilidade sufocada
em tristes jogos de futebol
lavando o carro sábado de manhã
fazendo compras em algum fashion-mall
reclamando na fila do banco
buzinando alucinados em todo sinal.
A violência explode.
Parabéns meu caro por versos metafóricos de extrema sensibilidade...o pensar o humano é excepcional e simples, mas....continuamos a engordar em frente a TV, massificações plásticas de ums er que já engoliu pó de dente em outros tempos. Parabéns e aguardo a votação. abços.
Cristiano Melo · Brasília, DF 24/5/2008 17:33Valeu, Cristiano, obrig pela atenção. Grande abraço
Fausto F · Rio de Janeiro, RJ 25/5/2008 19:08
Não concordo muito com essa nostalgia, mas voltarei para votar mesmo assim.
leandro, é a constatação do que ocorre no dia a dia. Viol~encia no trânsito, nas guerras, no tráfico, e por aí vai. O homem nasceu para ser guerreiro e caçador mas a vida moderna acabou com isso. As pulsões, porém, continam dentro de nós e devem ser trabalhadas de alguma forma. Obrig por sua atençâo. Gde abraço.
Fausto F · Rio de Janeiro, RJ 26/5/2008 19:47
Fausto, realmente,triste tempo em que vivemos. Tempo da acomodação, da alienação, do cada um por si. Heróis,
não temos mais tempo para cultuá-los.
Um abraço.
Lembrei-me de um poema que escrevi em abril deste ano - e lhe ofereço aqui. Muito indiretamente, trata também da desolação.
Abraços.
Os Cavalos Loucos
Os cavalos loucos cavalgam na lua
São cavalos cegos e tocam música
E cantam versos verdes e vermelhos
E cantam com um peixe na garganta.
Os cavalos loucos comem na minha mão
Comem milho e ouro cantando baixinho
São cavalos felizes e riem de mansinho
E gargalham com a chuva e com as árvores.
Um dia pegou fogo nos cavalos loucos
O carrossel girava, girava em chamas
Sobrou apenas a alma dos cavalos loucos.
Sobraram os olhos dos cavalos queimados
Os olhos doíam e choravam lágrimas de fogo
Os olhos de fogo eram a alma dos cavalos loucos.
gostei muito de sua poesia. Valeu. Gde abraço.
Fausto F · Rio de Janeiro, RJ 28/5/2008 20:08Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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