Paralisados como dantes

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Rafael Biazin · Campo Mourão, PR
10/1/2007 · 19 · 2
 

Todo dia havia aquele farfalhar de talheres, vindos da cozinha, que alertavam a vinda do almoço à mesa. O aroma forte de comida italiana, e aqueles murmúrios de quem já se postou no seu devido lugar, com taça cristalina abarrotada de vinho seco e extremamente forte. Aqueles assuntos rotineiros não podiam faltar: O pai que comenta sobre a cotação da bolsa de valores. A mãe que comenta sobre religião e os afazeres domésticos do dia. E o filho que permanece calado durante todas as refeições, como de costume.
O que essa modesta e pacata família não sabe, é que suas vidas correm como um rio que tende a voltar suas águas espumosas no mesmo lugar. Uma vida monótona em que sair da rotina seria um grave e assustador problema. Afinal, eles queriam mudar? Não era exatamente 15 anos que estavam assim? Petrificados nas mesmas atitudes?
O pai levantava às 06h30min, para checar seus e-mails, preparar a sua roupa de trabalho (que era o mesmo modelo, sempre: calça preta de linho, camisa azula clara, colete de lã preto, um sobretudo de camurça também preto e um mocassin, que não lhe caía bem sobre hipótese alguma), servia-se de um café amargo e algumas bolachinhas de chocolate suíço. Escovava os dentes de porcelana, penteava os fios de cabelo que plantavam de sua cabeça achatada e escutava alguma música clássica. Tudo isso antes de pegar seu Peugeot 206, e cortar a cidade de São Francisco de lado a lado, até chegar ao seu escritório de advocacia no centro da “Chinatown”.
Ali, naquele conjunto de paredes que fechavam um escritório de decoração vitoriana e cafoníssima, ele se encerrava em um longo e rotineiro dia de trabalho. Escutando pessoas de todas as espécies a reclamarem/debocharem de algo que lhes tornaram, por ora, inútil.
A mãe acordava ao mesmo horário do pai, isso não podia não acontecer, era um ritual sagrado! Preparava um café da manhã digno de uma família obesa (com nariz de suíno), e se servia de tudo que havia na mesa até sua flácida e gigante barriga se sentir completa (e vai pão com bacon e ovos para que esta se complete!). Esperava que todos da casa se satisfizessem com o banquete e anunciava, formalmente, ao empregados que a mesa já podia ser retirada. Tomava uma ducha, escovava os cabelos e, após isso, se dava ao luxo de comer torradinhas provindas de uma província ao leste da França.
E, assim permanecia o seu dia monótono e gorduroso de sempre. Afinal, era assim que ela queria terminar os batimentos cardiovasculares: ingerindo exorbitantemente gordura, até que estas, por sua vez, impossibilitassem o coração de manter suas funções vitais.
O filho tomava seu café rechonchudo e se preparava demoradamente para ir à escola. E, assim, era o seu dia costumeiro e didático de sempre.
E qual o final de uma família assim? Qual a mudança brusca que acontecerá para que esse ciclo vicioso de afazeres se transforme em uma vida renovada? Absolutamente, nada acontecerá, a família continuará nessa vida mórbida. Tirando os dias santos, em que eles diversificam indo a um parque de lazer fritar ao sol modorrento de verão, TUDO permaneceria sob a luz da eternidade repetitiva e ofuscante da falta de ativação de algum sensor aventuresco que cada ser humano possui escondido dentro de algum órgão “sem importância”. Tudo permaneceria assim, paralisado como dantes.

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Rafael Biazin
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Marcelo Candido Madeira
 

Que viajem, li numa tacada só, legal o texto!

Marcelo Candido Madeira · Rio de Janeiro, RJ 10/1/2007 21:12
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fernando apple
 

Nossa, me sinto perdido dentre tanta exatidão! Não estou mais acostumado com fatos/relatos ainda mais dessa forma que você explora, como dantes, parabéns.

fernando apple · Palhoça, SC 11/1/2007 02:38
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