PARECE-LHE OBVIO ?

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georgesaraiva · Guarapari, ES
9/9/2008 · 160 · 10
 

“A Beleza é ‘a Fronte’,
O amor é a coroa;
Deixe-lhe coroar!”
V. Hugo

Encontrei pela manhã, num entorpecente grito de fealdade,
aquela certa moça de outrora; implorou-me por um
pouco de pão e algo para beber olhou-me friamente nos olhos, e, sorrindo, como se lhe fosse hábito comum, crível entre nós dois; éramos monges budistas num templo pantanoso, repleto
de indagações cosmopolitas e traiçoeiras do passado afetivo
um tanto desnatado de felicidades. Sorriu-me novamente. Não
hesitei. Detestava qualquer falta de escrúpulos – principalmente
débeis mentiras. Beijamo-nos. Convidou-me para subir a seu
quarto alugado, despreparado para acolher a tal deusa da espontaneidade.
Sublimes, subimos por escadas tão longas quanto
fora a perniciosa viagem. 3º andar, ap. 302; embriagamos
nosso tédio com palavras fáceis, e talvez duas garrafas de um
vinho qualquer, mantido pelo esquecimento de sua alcova sombria
e destituída de felicidade, e... Visitas, que, possivelmente
não me agradariam.
Discutimos Goethe, Rimbaud, Augusto dos anjos;
sentimo-nos velhos. Choramos, dormimos. Rebelamo-nos e
aceitamos contraditoriamente a falsa devoção, simplesmente
pelo prazer do ócio, do laço. Forrei-lhe de acácias, e criticamos
a afabilidade de Saramago, pois preferíamos Garcia Márquez. Entrelaçados num torpor sensitivo: violentamos Céu
e Inferno, elevando Dante à sodomia.
Ela deitou-se no sofá, em transe inofensivo, mas odiava
que os pés – por sinal horríveis, era o que dizia – dignos de
fetiche puro, a meu ver. Nos amamos.
_ “Odeio ‘fazer amor’”, bradou num rugido orgástico,
após tê-la masturbado a exaustão. Trepamos!
Gozamos entre o desespero e a despedida, e o que se
chama de soberbo. Adormeci, em seu colo maternal, suponho
que até sonhara. Esta moça – não me lembro a incógnita
do nome – roubou-me, tornou-me um pertence emoldurado,
“não sou aquilo que se vê”. Frustrei-me.
Uma cártula de Diazepan 10 mg. Combinamos subir ao
sino da igreja mais velha e declarar o nascimento da Ventura,
ou martírio: Paixão. E resgatar a promiscuidade de velhos tempos.
Sexo, sexo... Levantei-me em sonolência, ressaca, dores,
prazer; novidade entre confusão; confissões. Dez horas. Geladeira
entreaberta roubei-lhe a ultima garrafa de vinho, na verdade
quase vazia, tomei-lhe algum dinheiro emprestado. Um
bilhete incorporado ao engraçado abajur – nunca falei sobre
o quanto era engraçado aquele guarda-luz – “Je te Aime; não
me procure”, mas não tive coragem... Beijos, beijos e beijos.
Rabisquei algo:
“La beauté c’est ‘Le Front’,
L’amour c’est la couronne;
Laisse-toi couronner!”
V. Hugo

Sobre a obra

É claro que o óbvio insensatamente lhe cai bem. Literofilosofar pra que?

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informações

Autoria
George Saraiva
Ficha técnica
O blasfemador, cuspidor em santo de igrejinha e autodidata em matéria de sadomasoquismo.
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comentários feed

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Lílian Maial
 

Saraiva (esse sobrenome dá livro),

Impossível não haver nenhum comentário a este texto!
Alguém pode adorá-lo ou detestá-lo, nunca ficar impassível a ele!
Eu sorvi o texto com a mesma languidez com que vc o deve ter escrito, e com o mesmo risinho de canto de boca com que vc deve tê-lo batizado ao final. Parla!
Parabéns!
Abraço,
Maial

Lílian Maial · Rio de Janeiro, RJ 7/9/2008 18:46
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Ilhandarilha
 

Nada óbvio isso aqui!

Ilhandarilha · Vitória, ES 8/9/2008 20:40
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

belo trabalho.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 9/9/2008 12:09
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georgesaraiva
 

muito obrigado pela atenção. abraços a todos.

georgesaraiva · Guarapari, ES 9/9/2008 13:59
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Sérgio Franck
 

George, eu acho massa seu jeito de escrever. Firme o tempo todo, fixado. Só não entendi o que vc quis dizer com Óbvio. Caso seja sobre o seu texto, me aplique com um gole da fonte aí!

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 9/9/2008 16:37
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danlima
 

georges, bela volta ao over! Seu texto é absolutamente incrível, contemporâneo, um lirismo desmedido, um belo canto ao amor e ao relacionamento, com idéias, palavras e formas inovadoras. Gostei demais!

danlima · Brasília, DF 9/9/2008 17:02
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Wellington Coelho
 

George,
Seu texto não faz amor. Trepa na arte literária com um estilo próprio e "cavalga" ao lado de filósofos-escritores.
Prazer em conhecê-lo
abração e votos

Wellington Coelho · Belo Horizonte, MG 9/9/2008 18:46
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clara arruda
 

Chegando com atraso. manhã com picos de energia.
Aqui compareço para apreciar seu maravilhoso texto.
Parabéns meu menino.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 9/9/2008 19:09
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Raiblue
 

Prazer,Georges!!

Seu texto,literalmente,despertou-me um grande prazer!
Cru e autêntico, pulsante,despudorado,embriaga os sentidos e permite todo tipo de viagem... através de uma linguagem sedutoramente intensa e nua....
Lindo de viver e de se embriagar!!
Gostei demais!!!
Delioso de ler e ser absorvido por tds os sentidos...
Parabéns,Georges!!

um beijinho azul...
Blue

Raiblue · Salvador, BA 13/9/2008 20:40
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Compulsão Diária
 

Maganífico!! divertido. fino humor. citações no lugar e na medida! E de um lirismo bacanissimo. Sem pieguice e com afeto..tudo de melhor, George. gostei de cara e não foi à toa.

Compulsão Diária · São Paulo, SP 18/9/2008 12:03
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