Tio, por favor. Quando o senhor vai me levar pra casa?
Assim começa a história que as paredes daquele barraco me contaram. Mas esse começo, seria começo? Quase meio? Breve fim?
Não sei. Antes de continuar, gostaria de me apresentar. Sou aquele cara de todos os dias, sou o senhor mal vestido levado pelo braço, sou a criatura bêbada constantemente transladada do boteco para goma, da goma para o sono, do sono para...Sou o Tio e, desta história, sei tanto quanto você. Sei nada.
Manhã de 23 de março. Sara, como de costume, antes de sair para trabalhar, faz suas preces e pede para as quatro paredes vigiarem seus filhos. Josué, João e Ester. Sei que algum leitor detalhista pode estar indagando sobre a idade das três crianças. É sempre assim. Quando, onde, como, quem, por que. Dane-se. Enquanto seguimos as convenções narrativas, Ester brinca com um isqueiro. As paredes, pobres paredes, amigas que sempre trouxeram calor e proteção, agora são como um forno. Eu ouço gritos, Sara não, está distante com seu carro.
A subida é Ãngreme, ela pára. Os outros veÃculos passam xingando, seus motoristas buzinam incessantemente. Um pivete passa por perto e vê aquela mulher com uma carroça cheia de metais e papelão, o garoto se compadece e empurra, ajuda Sara a se livrar daquele grande obstáculo.
A carroça não sabe por qual razão é chamada de carro por Sara, vive discutindo com a mulher, e não é só questão de batismo não. O carro/carroça reclama do excesso de peso, das rodas desalinhadas, mas logo fica calma e se sente confortável ao entrar em contato com o corpo de sua guia, coberto por uma bermuda, evolvido numa camiseta “Maluf ama São Pauloâ€, onde seus seios ganham evidência a cada esforço, a cada ladeira. A carroça/carro tem certeza - Sara merece suas carÃcias, é com ela que a mulher divide seu suor. Quem dera ser moldura de espelho, ser cama. As paredes iriam presenciar belas cenas.
Sara tem sede, deixa sua companheira numa esquina, sob o olhar desejoso de outros habitantes das ruas. Ao entrar num boteco, para descolar um copo d’água, sente aquele cheiro de pinga, percebe o olhar dos clientes que bebem no local...Lembra do féla da puta, o miserável pai dos seus filhos...Não se esquece que quando tinha nove anos, foi levada da praça onde brincava.
Ao sair do bar, em meio a lágrimas, Sara pergunta em voz baixa: Tio, por favor. Quando o senhor vai me levar pra casa?
Assim começa a história que as paredes daquele barraco me contaram. As paredes, malditas paredes...
Continua...
Tocante. Sei que não é elogio para estas paredes e nem para o vigor agoniado de Sara. Primeira visita, espero a continuação e adianto minha boa supresa e admiração.
Compulsão Diária · São Paulo, SP 1/11/2008 19:25
Entendo a Compulsão, este texto é tocante mesmo, aqui vai meu protesto. Cadê a continuação?
Gostei e votei...
Obrigado pelos comentários. As paredes existem? As paredes se fecham? As paredes têm ouvidos?
DJ Cortecertu · São Paulo, SP 4/11/2008 11:44Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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