Escavocando nas gavetas, na caixa de ferramentas, no saco de fotografias, procurando uma linha para escrever alguma coisa sobre o Bule-Bule, de repente puxo um próprio fio da barba do Poeta.
Imagino que esteja crescendo na platéia uma longa curiosidade sobre o Bule-Bule estaria escondendo naquela caudalosa barba branca. O homem vive agarrado na barba, a barba agarrada no chapéu de couro crú, como cupim encravado na madeira, mas com o rabo de fora.
Que tesouros ele guarda por ali, como quem joga debaixo do tapete uma saudade velhaca, uma esperança renitente, uma rima e um martelo? Há quem jure ter visto um cachorrinho de madame, um saci e um pedacinho de nuvem se perderem brincando nas barbas fagueiras do cantador. Barbas de mato seco que fazem do bule um pé de algodão andante, agalopando pela terra. Onde pára, muitos pés a sua volta, plantação de orelhas em pé.
Bule já gastou muita alpercata cruzando chão, levando no bolso um maço de notas musicais. Foi sempre um regador de esperanças, um semeador de alegrias. Seu talento, seu dom da mais fina ao bordão, deixa longe a nossa capacidade de reconhecimento ou retração.
Poeta, profeta, trombeta anunciando tempo bom, sem nunca perder o tom de cabra e cobra, mostrando a língua mesmo em hora de sol quente. Vale o jogo de cintura do garoto propaganda que há mais de vinte anos a gente vê na Tv, top model sem a menor preocupação com o tamanho do guarda-roupa.
Amigo, parceiro, solidário. Cidadão. Trabalhador de tempo integral.
E digam o que disserem sobre o que dá sombra ao bom papo do poeta, desde os que cismam que a juba é coisa pra travesseiro de moças, eu posso testemunhar que aquelas barbas brancas, com o devido respeito, guardam o gogó mais gostoso da Bahia. Gogó que faz eco na caatinga, nos sertões, do recôncavo ao planalto, dos botequins aos escritórios refinados, na trilha do rio, nos boulevars, nas manchetes dos jornais e nos varais do cordel.
Acompanhe o som das sete cordas, esse é o grande Bule-Bule. Vem com a bandeira branca no peito, pra encantar a paz.
Carlos Celestino Bonetti
APRESENTAÇÃO DO ARTISTA
Antônio Ribeiro da Conceição, nome artístico Bule Bule, nascido em 22 de outubro de 1947, na Cidade de Antônio Cardoso no Estado da Bahia, musico, escritor, compositor, poeta, cordelista, repentista, Ator e cantador.
Ao longo dos seus mais de trinta e oito anos de carreira gravou seis Cd’s (Cantadores da Terra do Sol, Série Grandes Repentistas do Nordeste, A fome e A vontade de Comer, Só Não Deixei de Sambar, Repente Não Tem Fronteiras e Licutixo), quatro livros editados (Bule Bule em Quatro Estações, Gotas de Sentimento, Um Punhado de Cultura popular, Só Não Deixei de Sambar), mais de oitenta cordeis escritos, participação em vários seminários como palestrante, varias peças teatrais e publicitárias agraciadas pelo Prêmio Colunista. Milhares de apresentações durante a sua carreira. Atualmente ocupa o cargo de Gerente de Cultura da Prefeitura Municipal de Camaçarí, diretor da Associação Baiana de Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia e da Ordem Brasileira dos Poetas da Literatura de Cordel. Recentemente foi premiado com o Prêmio Hangar De Música no Rio Grande do Norte junto com Margaret Menezes e Ivete Sangalo.
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