Pequena Historia de um Amor Virtual
To: Marvin
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From: Mariah
;-)
Com minha eterna e Leal dívida à Beth
(Só o Diabo sabe como poderei pagar!)
;-)))
“Vem, por favor, que encharco lençóis...
Quem te ensinou meu rumo, se sequer te conheço?
Cheiro do cerco da abelha em flor?
Vem; porque sei exato teu toque!
Quem te disse a linguagem que careço, se de ti nunca ouvi palavra?!
Vem do suor fora de galope o cheiro teu?
Te pressinto...
À flor da pele te pressinto...
E me arrepia, o toque, a alma!”
C.A.
*>----- De um mundo ao outro *>-----
Há algum tempo freqüentavam o mais cult meio de comunicação do momento. Vinham sendo assíduos. Quinzenalmente, depois toda semana até que diariamente.
Da linguagem escrita e assim, órfã, iam descobrindo o poder de fogo. Invisíveis fios urdindo rede sem volta. Letras e letras numa bizarra escultura cibernética.
Palavras vasculhadas esgotando madrugada, risos, gestos de afeto e uma vontade contaminando sem aviso.
A fala era decodificada. O timing do que era dito, outro. A qualquer hora, trabalhando sobre um teclado e dentro de bits que viajavam pelo espaço sideral, era possível voltar atrás, apagar tudo, pensar novamente, redizer. Os sentimentos saíam afiados como poesia bonita.
– “To send or not to send?” – brincavam os dois, reescrevendo Shakespeare.
Ali, máscaras eram comuns. Um Baile a Fantasia com sentença sumária pra nudez.
Às vezes, ensaiavam o telefone rompendo um limiar que os deixava, talvez incomodamente, fora de qualquer um dos dois mundos.
Sempre, com cuidado, iam tecendo um relacionamento no mínimo peculiar, considerando o fato de que nunca se haviam encontrado.
O sonho, no entanto, passava ao largo da cautela.
Seja por excesso de sociabilidade, ou talvez por profunda solidão, o fato é que, não importando quão ínfimos fossem os dados “reais”, o menor gesto de agrado era brecha feita pra a expectativa, era deixa pra fantasia mostrar a cara de mulher fácil, vadia e debochada que tinha. E numa proporção injusta, as sensações corriam descomedidas, displicentes, como se não houvesse o risco de, a qualquer momento, virem a se perder em seu próprio espaço e desaparecer nas estrelas.
Às vezes, medo e mãos frias apareciam num ensaio tosco e inútil de algemar. Como calcular verdade, esperança, probabilidade?
Ela já havia encontrado outras pessoas. Algumas sem tato, algumas sem senso de humor, outras apenas gentis. Cumplicidade de desejo nunca havia traçado rastro.
Taciturno, abre vento às suas velas. Ela fala e se mostra, só ao sabor, sem se notar, como bando de primaveras que tanto houvesse tardado...
Ele vinha de terra de longe. Terra afeita a horizontes... Fazendo bom gosto em ir... ir... Só dando vastidão ao olho. Lá o vento era Minuano; pássaro Quero-quero; árvore frondosa Jequitibá e metro de solo ou leito de rio conquistado, sangue e pele de bisavós.
Tinha nome de rei estrangeiro, talvez daí o hábito à pertença... Tinha nome de rei, mas jeito manso de planície...
Vinha da terra de longe e se apropriava, posseiro, lhe roubando os nortes.
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*>-----Máscaras e malabarismos – Rasgando fantasias... *>-----
Um dia, plagiando o poeta luso, ele tira a máscara que não sabia. Lava as faces, esfrega as mãos e vê, com o coração partido, que se lhe aderiram.
Ele de amor dividido, dormindo ao lado e errante. Ela de tão disponível querer.
O real invade, feio, alienígena e non gratus. Há que espantar.
Tinha tanto pecado bom de pecar inda por vir.
Duelam fúria e sanidade.
Malabarista arraiano, o amor vai ateando nos dois fogo ferrenho de mesmo soprar e arder.
Desapropriação de corpo e alma sem porteira, cerca, cadeado ou cão de guarda feroz que desse impedição. Revés de gosto cigano que se entrega e sedimenta. Garimpando pó de ouro, fazendo folha, lingote, virando lavrantes...
Sessões fechadas, PCs desligados, arrancados os fios, linhas telefônicas banidas e nada! O link permanece lá poderoso como escárnio, roubando-lhes minuto a minuto do dia qualquer elementar ensaio de concentração em outra coisa...
Paixão dadeira que dispensa agrado maior. Molhada e teso andavam pelas ruas atônitos, cabeça virada pra qualquer primeiro que passasse, como se fosse ele ou como se fosse ela.
Se ensinam tão bem o que gostam, qual o gosto do real? – anda a mão pelo corpo sabendo ao outro.
Pioneirismo de imigrantes fronteiriços seqüestrados ao futuro.
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*>----- Sábias decisões *>-----
A cada encontro, põe seu vestido de maior primavera, se encharca de cor, de brilho e de cio, confere, uma a uma, das flores o viço e, a cada flor, corre pra janela, aflita com o atraso da lua. Deixa a porta aberta. E a voz dele, de toque puro feita, lhe sobressalta o coração.
Pata de cavalo chucro pulando cerca.
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*>----- Riachuelo (Distrito de Coxilha do Fogo – RS, que não consta no mapa-múndi) *>-----
Como ela era menos experiente, ele monta atrás. Pega garupa na escusa, toma as rédeas e coloca assim, vestido e melindre de mulher, sob seu governo e dentro de braço firme.
Pára na beira do rio. Fôlego escapulindo dos três.
– Vira para mim... põe tua perna aqui... por trás, em volta... isso. Tu tá bem?
– Senão tu vai te molhar, guria – sai, talvez de um sorriso, a frase.
O olho dele não largava o dela enquanto falava.
Solta das rédeas as mãos. O abraço estreita tanto quanto o freio e a brida dão largueza.
Agora é nele que ela monta.
Medo de travessia. Medo de rio ligeiro e manso.
Beira do medo.
Desfaz o abraço, afasta o corpo e desce as mãos... pescoço... colo... decote de vestido impróprio pra qualquer outra cavalgada.
– Tu tá queimando – sai a voz rouca já misturada no beijo de refrescar. Ali.
E na boca, ela saliva de pura inveja.
Pega da água do arroio que ensaiava curva desbarrancando de leve, levando flor e mato, deixando aqui e ali, em qualquer pedra, um musgo e molha o cabelo, a nuca e desce.
Banhava-a ele mesmo com suas mãos e a água alagando a roupa e trazendo flor e cheiro de mato pra pele, desbarrancando de leve medo e mãos frias.
A mão dele só dizendo pro corpo dela.
Ele salta, puxa-a que escorre justa entre ele e o bicho. Água, suor de bicho e de homem levantando ainda mais o vestido curto e sem modos.
–Vira...
Presa contra o bicho e ele por trás, dono de todos os comandos, no governo absoluto da hora. Bridão de bagual e anca de mulher. Ela já quase gozando ser presa. Ele tirando mais.
Sincronicamente respondendo às preferências e ao seu tempo de fêmea.
Jorrava, enfim, do brilho das telas antes frias e brancas fogo de lua amarela e imensa...
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*>----- FIM de madrugada *>-----
Tem margem do outro lado ainda sendo olhada. Tem rio pra descer ou pra subir. Norte, Sul, Sudeste. Horizonte e estrela pra ensinar bússola.
Tem mapa às pampas deitando chão. :-)
Ela tá exausta e já tá tão tarde. Vira-se para ele e digita:
> E a í , M a r v i n , c o n t i n u a m o s ?
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Muito bem escrito, coisas de casal !
um beijo !
... alma que transborda pelo espaço cibernético, novas vidas, novos corpos, novas peles, experiências virtuais que eletrizam o corpo real e alimentam novos sonhos às velhas necessidades, transcendemos irreversivelmente.
mariozinho · Rio de Janeiro, RJ 13/12/2008 12:32
Obrigada a todos que comentaram!
Boas Festas!
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