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Pequena Narrativa Sem Luz

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Peterso Rissatti · São Paulo, SP
28/6/2008 · 94 · 9
 

- Xi, acabou a luz!

Num repente as luzes despareceram, deixando um oco no meio das luzes da cidade. As ruas paralelas, muito mais movimentadas, reluziam intocadas e atraíam as pessoas como mariposas. Era um dia frio e os cachecóis debatiam-se na brisa fria e uniam-se em um coro mudo às luvas e aos gorros de cores vivas. E naquele quarteirão, em meio às luzes neon de bares e rendez-vous, aquele negrume se fazia presente. Ou, quem sabe, ausente.

- Puta que o pariu.

No apartamento 65 do prédio da esquina, Eugênio assistia ao último capítulo da novela com sua cachorrinha, Lilica. Ela, medrosa, tremeu com o estalo que a queda de energia causou. Eugênio não sabia o que fazer, seu programa naquele sábado frio seria assistir todas as novelas, os programas de reportagem ou as comédias, os filmes e dormir no sofá, roído pela solidão. Acabara um relacionamento há pouco e o que menos queria era ver a cara da rua. Infelizmente, foi obrigado a vestir uma roupa, despedir-se de Lilica e enfrentar o mundo, à revelia de suas lágrimas.
Próximo prédio, de poucos andares, no apartamento 27, um casal embaixo do chuveiro brincavam libidinosamente. A água escorria por entre os corpos e riscava seus rostos, de suor e xampu, mãos e bocas e línguas se enroscavam enfurecidas quando a escuridão e a água fria os separou, mais de susto e menos de prazer. Tércio se enrolou na toalha. Paulo foi esquentar a água para acabar o banho.

- Aêêêêêêê!

Na pequena viela no meio do quarteirão uma gritaria, quase animada, com uma ameaça do retorno da energia. Testes dos trabalhadores da empresa de energia. Célia sobe devagar a rua, assustadiça, no breu, e vê muitos vultos. Ora fervorosa à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, de quem é devota desde menina. A Virgem nunca lhe havia faltado, não seria agora. Porém, Roberto não pensava da mesma forma ao seguir a moça de formas tão atraentes, mesmo no escuro.

Seu Júlio, psdbista desde sempre, discutia à luz de velas com Arnaldo, petista ferrenho, os rumos da nação, enquanto jogavam buraco. Suas mulheres, Almira e Deuzita passavam café à moda antiga e fofocavam das vizinhas de cima, meninas que não paravam um minuto em casa, veja só se isso é coisa que se faça, onde estão as mães dessas garotas, meu Deus?

Um estalo e volta a energia. Os olhos demoram a se acostumar novamente com a luz. Um alívio e novamente os gritos animados das pessoas. Gente que se olha como se fosse a primeira vez, com um sorriso grande no rosto. Eugênio volta às pressas para casa, esperando ainda pegar o finalzinho de algo. Tércio, já vestido, começa a tirar a roupa novamente, com um sorriso maroto para Paulo. Célia entra num bar e pede uma cerveja. Roberto senta ao seu lado, começam a conversar, descobrem que são vizinhos. Casam-se dois anos depois. Deuzita e Almira voltam a procurar a receita de bolo de limão que haviam perdido. Lilica late, incansável. E o seu Arnaldo diz, radiante, ao seu adversário:

- Bati! Hoje você paga a cerveja.

Sobre a obra

Pequena historieta pensada num apagão.

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Peterso
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celina vasques
 

Interessante teu texto e muito bom!
Gostei muito!

votando!

beijos

celina vasques · Manaus, AM 27/6/2008 00:30
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Peterso Rissatti
 

Celina,

Sempre estreiando minhas votações. Obrigado por me prestigiar sempre.

Beijo

Peterso Rissatti · São Paulo, SP 27/6/2008 00:39
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Falcão S.R
 

Peterson, prazer imenso em desfrutar de seu inquestionável talanto. Votado! Abraços

Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 27/6/2008 04:08
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Marcos Pontes
 

PÔ! Gostaria de ter visto ainda em edição. Teria duas diquinhas, mas agora só me resta votar, afinal de contas o texto merece.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 27/6/2008 09:41
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Peterso Rissatti
 

Marcão,

Aceito as diquinhas! :)

Abração

Peterso Rissatti · São Paulo, SP 27/6/2008 15:35
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Sônia Brandão
 

Gostei da sua historieta. Um texto interessante, bem trabalhado.
Votos e abraços.

Sônia Brandão · Bauru, SP 27/6/2008 20:16
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Renato de Mattos Motta
 

Boa história!
(ou boas histórias)
Gostei!

Me faz uma visita
Se gostar, deixa um voto e um comentário
Se não gostar,
ainda assim, comenta.
http://www.overmundo.com.br/banco/a-flor-e-o-asfalto
Abraço!

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 28/6/2008 12:22
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Nanete Neves
 

Quando a luz é cortada, ninguém sabe mais o que fazer. Já você aproveitou a oportunidade para pensar numa crônica..E o fez muito bem. Cabeça de poeta é isso!

Nanete Neves · São Paulo, SP 28/6/2008 20:46
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silviaraujomotta
 

Criativo!
Parabéns.Voto certo com um beijinho doce, Sílvia.

silviaraujomotta · Belo Horizonte, MG 2/7/2008 23:27
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