- Xi, acabou a luz!
Num repente as luzes despareceram, deixando um oco no meio das luzes da cidade. As ruas paralelas, muito mais movimentadas, reluziam intocadas e atraíam as pessoas como mariposas. Era um dia frio e os cachecóis debatiam-se na brisa fria e uniam-se em um coro mudo às luvas e aos gorros de cores vivas. E naquele quarteirão, em meio às luzes neon de bares e rendez-vous, aquele negrume se fazia presente. Ou, quem sabe, ausente.
- Puta que o pariu.
No apartamento 65 do prédio da esquina, Eugênio assistia ao último capítulo da novela com sua cachorrinha, Lilica. Ela, medrosa, tremeu com o estalo que a queda de energia causou. Eugênio não sabia o que fazer, seu programa naquele sábado frio seria assistir todas as novelas, os programas de reportagem ou as comédias, os filmes e dormir no sofá, roído pela solidão. Acabara um relacionamento há pouco e o que menos queria era ver a cara da rua. Infelizmente, foi obrigado a vestir uma roupa, despedir-se de Lilica e enfrentar o mundo, à revelia de suas lágrimas.
Próximo prédio, de poucos andares, no apartamento 27, um casal embaixo do chuveiro brincavam libidinosamente. A água escorria por entre os corpos e riscava seus rostos, de suor e xampu, mãos e bocas e línguas se enroscavam enfurecidas quando a escuridão e a água fria os separou, mais de susto e menos de prazer. Tércio se enrolou na toalha. Paulo foi esquentar a água para acabar o banho.
- Aêêêêêêê!
Na pequena viela no meio do quarteirão uma gritaria, quase animada, com uma ameaça do retorno da energia. Testes dos trabalhadores da empresa de energia. Célia sobe devagar a rua, assustadiça, no breu, e vê muitos vultos. Ora fervorosa à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, de quem é devota desde menina. A Virgem nunca lhe havia faltado, não seria agora. Porém, Roberto não pensava da mesma forma ao seguir a moça de formas tão atraentes, mesmo no escuro.
Seu Júlio, psdbista desde sempre, discutia à luz de velas com Arnaldo, petista ferrenho, os rumos da nação, enquanto jogavam buraco. Suas mulheres, Almira e Deuzita passavam café à moda antiga e fofocavam das vizinhas de cima, meninas que não paravam um minuto em casa, veja só se isso é coisa que se faça, onde estão as mães dessas garotas, meu Deus?
Um estalo e volta a energia. Os olhos demoram a se acostumar novamente com a luz. Um alívio e novamente os gritos animados das pessoas. Gente que se olha como se fosse a primeira vez, com um sorriso grande no rosto. Eugênio volta às pressas para casa, esperando ainda pegar o finalzinho de algo. Tércio, já vestido, começa a tirar a roupa novamente, com um sorriso maroto para Paulo. Célia entra num bar e pede uma cerveja. Roberto senta ao seu lado, começam a conversar, descobrem que são vizinhos. Casam-se dois anos depois. Deuzita e Almira voltam a procurar a receita de bolo de limão que haviam perdido. Lilica late, incansável. E o seu Arnaldo diz, radiante, ao seu adversário:
- Bati! Hoje você paga a cerveja.
Pequena historieta pensada num apagão.
Interessante teu texto e muito bom!
Gostei muito!
votando!
beijos
Celina,
Sempre estreiando minhas votações. Obrigado por me prestigiar sempre.
Beijo
Peterson, prazer imenso em desfrutar de seu inquestionável talanto. Votado! Abraços
Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 27/6/2008 04:08PÔ! Gostaria de ter visto ainda em edição. Teria duas diquinhas, mas agora só me resta votar, afinal de contas o texto merece.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 27/6/2008 09:41
Marcão,
Aceito as diquinhas! :)
Abração
Gostei da sua historieta. Um texto interessante, bem trabalhado.
Votos e abraços.
Boa história!
(ou boas histórias)
Gostei!
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Se não gostar,
ainda assim, comenta.
http://www.overmundo.com.br/banco/a-flor-e-o-asfalto
Abraço!
Quando a luz é cortada, ninguém sabe mais o que fazer. Já você aproveitou a oportunidade para pensar numa crônica..E o fez muito bem. Cabeça de poeta é isso!
Nanete Neves · São Paulo, SP 28/6/2008 20:46
Criativo!
Parabéns.Voto certo com um beijinho doce, Sílvia.
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