Prólogo
Tudo o que foi feito, feito está.
Não pode ser desfeito e nem refeito. Nem sequer mudado.
Isto é ilusão. Nem é mais ilusão. Inexiste.
Pois, já que foi feito, já causou efeito.
Se desfeito for, já não importa...
E se refeito for, já não será o mesmo.
Será outro diferente. Será novo.
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“Primeiridade”
Na cidadezinha mineira havia três praças em três níveis geográficos diferentes. A da matriz, a do meio e da entrada da cidade, mais embaixo.
O menino que passava as férias de meio de ano, iria ter com os seus tios-avós, já bem mais velhos. Casa antiga. Mais de cem anos, certamente.
Tio João lhe era o predileto.Magérrimo, pequeno, calvo e um belo nariz aquilino, peculiar à sua ascendência italiana. Tinha um tique: esfregava as mãos palma a palma, enquanto passava a língua pelos cantos dos lábios. Sinal de que já estava “altinho”.
Na praça do meio, na mesinha de pedra rústica, à sombra de frondosas, o menino teve seu batizado:
a primeira cerveja tomada com carinho e com pastéis. Ensinada a cada gole, lentíssimo. Pra aprender a saborear e ultrapassar o amargo.Sem cara feia. Sentindo o efeito do gelo pelas goelas.Puro prazer.
Estava celebrado o início de uma vida, à experiência de outra já há tanto vivida.
Saudades muitas,
tio João...
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O inesperado e concebido
O casal passava por dificuldades.
Esforço incondicional.
Filhos pequenos, vida complicada. Recomeço.
O menino adoecera na época do Natal: Hepatite.
E entendia perfeitamente o que se passava em sua casa. Tinha consciência plena e tranqüila que, naquele ano, não haveria presente algum.
Nem se importava com isso, pois sabia bem das vicissitudes pelas quais passava a família.
No dia 25 de dezembro, o menino levanta-se da cama pela manhã, pra ir ao banheiro.
Na volta, encontra no meio de sua cama, com as cobertas à surpresa, uma pequena caixa retangular, embrulhada pra presente.
Desembrulha-a.
Era um aeromodelo da Revell. Uma réplica perfeita de um helicóptero militar de 16 lugares, à ser montado. E que o menino adorava montar.
Fora o mais
importante e expressivo presente já recebido pelo menino, de seus pais, em qualquer tempo.
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Il tempo per scherzare (tempo pra brincar)
A festa natalina rolava solta na casa da “matriarca”, a avó.
A família toda junta. Verão paulista de dezembro.Calor de rachar.
Tios...Primos...Irmãos...Visinhos...Uma “italianada” do alem.
E muito vinho, idem cerveja. Heresia permitida num país pra lá de tropical.
Comidas então, nem se fala. Menu indescritível.
Como toda boa família católica de origem italiana, até o cônego Olavo foi convidado.
Da igreja do bairro. Da comunidade.
Tio Chico ( Francesco) era personagem Felliniano. ( pra quem assistiu, o “ceguinho” acordeonista do
“ E la nave vá” , quase igual). Autodidata de inteligência e cultura primorosas. Foi pra escola até o primário, Depois, trabalho.Alfaiate por ofício.
Contava que, entre outros tantos contos, quando criança em
Rivello, província de Potenza, na Basilicata, ganhava alguns tostões ajudando a tocar o fole do órgão da pequena capela. Era trabalho e diversão. Ao Brasil, veio com 20 anos.
Sentavam todos, os primos e irmãos da 3ª geração, ao seu redor, ouvindo sua estórias alucinantes e brilhantes...Das viagens de suas leituras...Dante...Boccaccio.Da vida rica.
Sempre muito divertidas, por mais tristes que fossem.
E enquanto o cônego Olavo cantava junto com o tio José “Padre”, a “Santa Lucia”, a avó enxugava as lágrimas da saudade dos tempos idos. Já todos meio embriagados de vinho, suor, cerveja, cantoria, lembraças e lazagna ao molho “triplo burro” (três manteigas), com "porpetas" e "prosciutto crudo con radice"
As crianças na marquise da frente do casario, sentados no chão, se esborrachavam de rir com a cena da
“Santa Ceia demodê ”.
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A face oculta
Na pequena "cova de palmos medidos" (
JCMN), onde mal cabia o exíguo caixão, os coveiros forçam aos cabedais, o encaixe estreito e forçado.
Dentro dele,
tia Zélia. Franzina tal qual sua derradeira barcarola.Somente seu vaso ja roto, do grande Oleiro.
Grande pedagoga. Enorme.
Intelecto, doçura e humildade exemplares, pelo seu mínimo.Deu sempre do seu máximo.À todos, sem distinção. Sempre.
Calou-se solitária com apenas alguns de seus “alguens”, ao seu lado.
Quem passou toda vida a ensinar e educar, aprende agora, a grande lição do sono eterno.
Com quem se encontrará ?...Certamente com Sonia, sua filha pródiga e única, grande pianista que partiu bem antes.
Manuel de Falla acalenta o sono. Uma de suas preferidas : Danza Ritual del Fuego ( El amor brujo)
e Chopin...Certamente, prelúdios.
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A inútil insistência do existir
É uma linha tênue...
Existir...Viver.
A vida é eterna. Atemporal.
Não depende da vontade do ser.
A existência é finita.
Tem sua curta jornada: começo, meio e fim.
O existir é tempo. Tem seu tempo.
Depende da vontade do ser, de viver, ou não.
Contudo, o tempo de viver é relativo à velocidade do existir.
O astronauta do futuro, agora no presente, viaja à velocidade da luz.
O seu tempo se alonga. Já não dura o mesmo tempo de seus observadores presos e estáticos, aqui na Terra ou onde for...
Um segundo torna-se dois. Ou três. Tudo no mesmíssimo instante. Num gráfico Cartesiano, forma-se a hipotenusa distorcida que prova a teoria misteriosa.
Hipotenusa, ora musa suprema e extrema do sonho...
extremo e latente....e insistente....da hipótese da transcendência atemporal do ser e existir.
Se o tempo tem a capacidade elástica de expansão através da mecânica...Burlando a cinética , terá o ser a capacidade de burlar a morte , com sorte , através da dinâmica ?
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Química, pura química...
Sobre tuas coxas escorre o néctar e o néctar lambuza meus dedos e os dedos escorrem por tuas coxas que produzem o néctar que lambuza minha língua que escorre a saliva nas tuas bocas cheias de néctar e de dedos que penetram em tua língua que lambuzam do meu néctar que penetram nas tuas bocas que misturam com seu néctar com a saliva dos teus dedos que penetram nas suas coxas que segregam no teu néctar de teus dedos em tuas coxas da minha língua com o meu néctar da saliva da tua língua que misturam com os dedos que segregam mais do néctar das tuas bocas em minha língua que passeiam no teu néctar e lambuzam os meus dedos que segregam em nossas línguas o meu néctar sobre as coxas que são tuas....
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À PROCURA DO TEMPO PERDIDO (ou a saga humana pintada por Marcel Proust...)
Olho para traz...vejo apenas três dias...o antes, ontem e hoje.
Sem nada para que me prenda ou de que me despoje
Somente relâmpagos etéreos que iluminam a névoa da lembrança
Dias poucos, dias íntimos e desprovidos de nenhuma esperança...
Ao sabor do nada e de imagens desconexas, penduradas no varal da nossa história;
Decantando os lençóis amarelados, cor sépia refletidos na umidade da memória...
Brisa outrora suave e morna que agora em vendaval se transforma
Gélido e cortante tão distante e antigo, que nossa face deforma...
Quão vaga e tênue é a branda visão que alucina, e paira?
Se no desvelo da noite negra surgem novos açoites
Querendo forçar-nos ao lúgubre manto intangível da noite
Aonde se vão os suores flácidos e miríades do que baila?
Sempre que outrem anseia, a dúvida amarga do estar sendo...
E, à sombra se deita sedenta por se estar querendo
Todo cantil que o passado exala e contamina a garganta
Na doce calma da eterna alma que se levanta...
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Epílogo
Gênova, Andrômeda e Deus...
O velho foguista , que torrara sua face vermelha há quarenta anos nas bocas das fornalhas, tinha as melhores “experiências” para contar. Os melhores “causos”. E entre uma pazada e outra carregada de carvão mineral, se derramava a conta-los :
- Foi nos idos de oitenta , quando conheci aquele homem. Foi na taberna "Alegretti" , no porto de Gênova.
Fazia muito calor e tínhamos atracado para descarrego.
Já não me lembro do nome do estranho...
Ele puxava de uma perna e falava meio engrolado por causa do defeito de nascença.
Era um sujeito muito estranho, de verdade. Pra dizer mais, dava um pouco de arrepio na gente...onde quer que ele chegasse não deixava de chamar atenção.
Tinha uma cara repuxada , quase parecendo feito de cera, os olhos esbugalhados mas pequenos...exprimidos. E um narigão pontudo e largo, como chaminé de navio invertida...
Tinha uma cabeleira comprida e rala, com aqueles fios muito finos....espigados....por onde a gente podia ver sua quase careca.
Era agitado....arrastava seu corpo de um lado pra outro feito louco...de repente parava meio torto com o pescoço avançado pra frente, e fixava o olhar meio morto...meio profundo....sobre o nada. Parecia uma ave de rapina, sabe ?...
Realmente era um sujeito estranho...mas, o mais visível é que ele tinha como característica principal... eram os dedos da mão direita....o indicador e médio ficavam sempre estirados e juntos , meio curvados para baixo , exatamente como a posição dos dedos do Cristo quando benziam !!!...sabe ? igual o Cristo das pinturas de todas as épocas...
E ele parecia que tinha ao mesmo tempo , vergonha e orgulho deste defeito....é que, contava ele que, quando criança zombavam dele por causa daquilo...porque não conseguia pegar quase nada e o que podia pegar, era com dificuldade....vivia deixando cair as coisas...e a mãe dele pra diminuir o seu sofrimento, dizia pro filho que ele era uma pessoa muito especial porque Deus lhe tinha dado para sempre o divino gesto da bênção...e que ele, como Jesus, o Cristo, iria tocar e abençoar...iria tocar e curar ! Dizia ele que, de tanto acreditar , curava de verdade.... Quem sabe....?...nunca vi...
Ele tinha olhares místicos e por vezes lúgubres, e dizia ter conhecido um casal de extra-terrenos muito altos e muito loiros, com cara de gêmeos , sem sorriso...mas muito calmos e serenos...diziam que vinham da distante Andrômeda...e estavam aqui para nos libertar das idéias completamente erradas sobre Deus....
para eles Deus não era o Pai e sim o Grande “Escravocrata” do universo;...e que nós, seres humanos da Terra, jamais evoluiríamos sob o Seu jugo....e que deveríamos nos libertar “Dele” se quiséssemos atingir os maravilhosos confins do universo....da sabedoria e da verdadeira paz....pois como todo pai que idolatra os filhos, também os escravizam....
“Blasfêmia !!!!” – gritavam uns , se exorcizando com todos os sinais...
Loucura !....este homem é louco!!!”E, de repente, ele sumia em meio à névoa...se arrastando por sobre a bainha de sua capa suja e pra lá de rota....
Nunca mais o vi por estas plagas...Deve ter ido para Andrômeda.
©J.E.Canônico-MMVIII