Todos os personagens dos contos que não consigo escrever doem em mim, andam à janela da minha cozinha branca, como penas de um raro pássaro caindo do telhado, entrando em minha vida nos momentos mais estranhos. Não sei o que fazer, senão olhá-los com a timidez de quem nada sabe dizer, senão da minha impossibilidade.
EgoÃsmo deve se isso. Calar-me sempre, negar a voz aos seres um tanto sombrios que reclamam, de olhos baixos, algumas palavras no meu caderno de histórias.
Às vezes, tomada de culpa, preparo os lápis, abro mesmo uma folha limpa, nua de toda emoção e os vejo ali e suas dores ou o riso misturado. A folha do caderno é um palco e eu, um outro personagem encerrado na seara da mudez.
No entanto, são poucos: o triste, a louca, o que de tudo se esqueceu, menos de uma imagem em uma estrada perdida. Não exigem, apenas surgem, pedintes. Vivem comigo e com a angústia do silêncio. O que fazer com eles, eu também não sei.
O que fazer com as histórias que não sei contar?
Ah, Saramar, minha querida! Seus poemas falam de um personagem. Os outros vc guardou para começar, talvez, agora a querer contar, aos poucos. E depois, com sua rara capacidade de escrita vc, certamente, sabe contar as histórias. Elas esperam sua hora. Ou esses personagens, quem sabe, nem queiram tanto sair de perto de você?;)
Compulsão Diária · São Paulo, SP 16/10/2008 08:11
Oi, Sara!
Teu ótimo texto poético me alça ao pensamento dos Deuses.
O pensar não é nada fácil... Eis a prova!
Bjs.
saramar, texto refinado e interessante. Remeteu-me diretamente à peça de Pirandello " Seis Personagens à procura de um autor", em que os personagens, que vivem conflitros internos de cada um, não encontram uma história onde possam vivê-los. Personagens interessazntes,e texto idem. Nos poemas, seu personagem é sempre o amor, desmesurado. Aqui, os personagens são vários. Que tal contar para um uma história, a cada semana?
danlima · BrasÃlia, DF 16/10/2008 08:34
Saramar
também já fui perseguido por personagens assim (rs)
é um tormento.
Um abraço
Oi Saramar
Esses seus personagens parecem fantasmas,
esperando um momento para se manifestar.
Acho até que todos temos.
bjsss
Saramar, minha querida poeta,
certa vez o colunista Alexandre Soares Silva escreveu no site Digestivo Cultural que Santo Agostinho, logo no inÃcio do Livro Um de suas "Confissões", dizia que, quando jovem, não chorava nunca pela própria morte espiritual em que vivia, mas que era capaz de chorar pela morte de um personagem de ficção saÃdo da Eneida de VirgÃlio. "Nada mais digno de compaixão do que o infeliz que derrama lágrimas pela morte de Dido, (...), sem se compadecer de si mesmo nem chorar a própria morte por falta de amor para convosco, ó meu Deus, luz da minha alma..."
Esse talvez seja o destino nobre de todos os personagens com que nos identificamos: ensaiar em nós a dor da própria morte, para que possamos viver a própria vida. Com todas as dores e delÃcias que isto implica. Talvez aÃ, a essência da arte. Belo texto, parabéns!
Bjs
Falta de coragem sua, Sara. Já te dei exercÃcios, cobrei conto e você me negou esse prazer. Mãos à pena, mocinha!
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 17/10/2008 21:16
Bunitu isso...
.......dos contos que não consigo escrever doem em mim, andam à janela da minha cozinha branca, como penas de um raro pássaro ............
Saramar,
Todos os personagens dos contos que não consigo escrever doem em mim, andam à janela da minha cozinha branca, como penas de um raro pássaro...
gostei muito do texto!
Saramar,
Ler você é sempre um doce e feliz aprendizado.
Beijos
Minha linda Saramar: você é sim poeta e contadora de história. Como eu gostaria de ter escrito este belo texto! Obrigada por nos apresentar seus personagens. Parabens. Grauninha
graça grauna · Recife, PE 18/10/2008 07:12Sara ,omha querida um texto maravilhoso que yenho a honra de deixar publicado.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 18/10/2008 07:47Ora Saramar, voce sabe muito bem que a critica que tem dentro de voce e´muito exigente consigo...Deixe-a de lado e conte os casos sem que ela saiba...beijos
victorvapf · Belo Horizonte, MG 18/10/2008 09:38
Saramar, belo texto. Uma reflexão do autor consigo mesmo. Quando fazemos estes questionamentos estamos filosofando. Nada disso nos exime da dor de nos sentirmos incapazes quando assim se manifesta essa realidade. E sabemos que quando damos vida a esses personagens, que são espectros a nos rondar, outros surgem para lhes ocupar o lugar.
Não há descanso possÃvel. Esses personagens maquinam contra nós, comunicam-se subterraneamente, e dizem: "agora é tua vez, a fila anda, eu já consegui a minha história".
Num poema retrato realidade semelhante da comunicação do autor e sua obra:
O POEMA ÓRFÃO
O poema escorrega
Da ponta do lápis,
Salta ágil ao chão,
Em meu rumo dá um passo
E fere-me num soco
Com a mão.
Mão que criara para os abraços.
Que mal-agradecidos
Os filhos são!
Critica-me os erros
De português,
A pieguice
E outros defeitos
Com que lhe fiz.
Caminha para a rua,
Mas antes me diz
E logo depois se vai:
Prefiro ser órfão
A te ter como meu pai!
jjLeandro
Saramar, essa sua inquietação me lembrou Clarice, que também tinha um medo enorme de escrever. E estava em crise constante com seus personagens, com os quais, aliás, ela chegava a discutir, ameaçar abandono... Clarice criou o metapersonagem (seja lá o que for isso!). No seu livro Um Sopro de Vida, ela escreveu assim: "Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto - e o mundo não está à tona, está oculto em suas raÃzes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras - quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo. (...)
O resultado de tudo isso é que vou ter que criar um personagem - mais ou menos como fazem os novelistas, e através da criação dele para conhecer. Porque eu sozinho não consigo: a solidão, a mesma que existe em cada um, me faz inventar. E haverá outro modo de salvar-se? senão o de criar as próprias realidades?"
beijo
Saramar,
Angustiante a sensação, mas, é a mesma que todo mundo que escreve sente, sempre, diante de uma folha ou uma tela de computador vazia.
Eu tenho uma solução infalÃvel: Se os personagens já existem por si sós - como aliás você mesma já sabe e viu - e ficam vagando por aÃ, o melhor remédio para quem não consegue ignorá-los, é deixar que eles se escrevam, também por si mesmos. Eles que se virem.
Faço isto sempre e juro: Não faço a menor idéia de onde os personagens e as histórias me vem.
Quando me atormentam, me predisponho-me a recebê-los como um bêbado escuta as abobrinhas de qualquer outro bebum. Escrevo o que eles tem a dizer, sem prestar a menor atenção no que significa, escrevendo como um Chico Xavier, maquinalmente, com a distração mais abobalhada deste mundo. E eles vão se chegando, as vezes numa balburdia de botequim, contando mentiras das mais cabeludas. DaÃ, depois que chegaram e deixaram as seus casos loucos comigo, expulso-os da cabeça e desembaralho - ou embaralho tudo, distrinchando friamente como um açougueiro.
Quando me dava a pensar no escreveria, era sempre ruim o que saÃa, lixo na certa. Nem tento mais. relaxei.
Faz isto: Desescreva-se.
Saramar · Goiânia (GO)
PERSONAGENS
Amiga Poeta Vocé acabou de contar.
Seu Trabalho é uma linda Poesia que já esta nos instruindo como resolver essa nossa questáo de honrar o que a imensidáo da cultura nos solicita e a gente náo esta preparado.
Vocé indicou esse caminho que de forma táo bela voce descortinou e abriu e que já iremos também trilhar.
O Overmundo é a Nossa Academis e sempre tem uma coisa assim boa e libertadora.
Muito Obrigado.
Parabéns.
Abracáo Amigo
Saramar, esses personagens que perambulam em nossos quartos e não abrem portas para que a gente consiga secifrá-los é um pouco
doido, um sufoco...parabens pelo texto.ab
Revisitando este belo texto. Com um abraço.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 19/10/2008 22:45
Saramar,
certamente você vai dar vez e voz a esses personagens que querem se fixar no papel.
É só esperar o tempo da maturação.
Já tive a preocupação de buscar saber como grandes mestres da escrita traziam à vida suas marias e seus joões.
Muitos, carregavam-nos daqui pra lá durante décadas.
Érico VerÃssimo polia ao extremo seus personagens até o momento de dar-lhes destino.
É uma questão de tempo, paciência e perseverança.
Você vai nos revelar muitos deles logo, logo.
Acredito.
Abraços.
Saramar, só primeiro parágrafo já vale pelo texto todo. Gostei da linguagem poética que você soube usar tão bem.
bjs
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