Juro dizer a verdade somente a verdade nada mais que a verdade. Porque o relato que se segue é um fato: vi com estes olhos e ouvi com estas orelhas que a terra há de comer com mostarda e katchup. E democratizo porque não sou egoísta e pra contribuir com o nosso já fornido repertório do folclore político.
Sempre fomos muito curiosos e metidos a saber, por isso o que quer que fosse que se nos apresentassem, oferecessem , convidassem, sugerissem, aceitávamos e enfrentávamos. Se nos pusessem James Joyce na frente, embora preferíssemos James Dean, topávamos sem resistência. Se nos dissessem vá ver um Bergman, Fellini, Godard, íamos com muito gosto, como de resto fomos naquele dia ver um Buñuel. Fomos eu e minha esposa, e entramos no cineclube quase já na hora de o filme começar, e mal sentávamos quando o gerente - era um cineclube, não se deve tratar assim tão burocraticamente esses sacerdotes; talvez cinemaníaco, talvez organizador, ou um cara que está ali pau-pra-toda-obra...Então o cara que estava ali pau-pra-toda-obra postou-se diante do público e pediu atenção pra avisar que o filme, por problemas técnicos, seria interrompido lá pela metade. Agradeceu, saiu, e nós já íamos nos acomodando quando percebi na minha frente uma figura conhecida. Fiquei pasmo, cutuquei discretamente minha esposa com o cotovelo e disse:
- É o general!
- Quem?
- O general!
- Que general?
- Fala baixo. O Galardão! E sua esposa.
- Aqui?!
- Xiii. É, aí, na frente.
A luz se apagou, o filme começou e eu fui me esforçando pra me refazer do susto e me concentrar. Olhava pro filme, olhava pro general, pra ter certeza de que a silhueta que ali estava era mesmo o Galardão.
Foi então que aconteceu o que me motivou a revelar essa fofoca digna daqueles registros secretos guardados por décadas pelo SNI. Como prometido, lá pela metade o filme foi interrompido pra os ditos ajustes técnicos. Nesse momento, as luzes se apagaram e o general, olhando pra esposa, a dele, soltou um lamento com voz de carabina enferrujada:
- Hum, não estou entendendo nada...
Não sabem como me foi difícil segurar o riso. Tive que prender os beiços entre os dentes pra não explodir em gargalhadas. General x Filme do Buñuel, cá entre nós, devia se travar ali uma batalha sanguinolenta. Ria com a barriga, enquanto minha mulher me tapava a boca e ela mesma se continha.
Mas o que há de tão engraçado? Se o leitor não está entendendo, é porque deixei pro fim algumas informações, pra fazer suspense. Vivíamos os idos de 86, a distensão já se tinha distendido e no comando do país bigodava o José do Sarney – ora, ora, vejam vocês, como o mundo dá voltas; como é mesmo, como se disse, que a história se repete numa valsa farsa! Maneiras que inda restavam na atmosfera resquícios, resíduos, mofos e miasmas e inda era um prazer inenarrável, imensurável, aporrinhar, estocar, rir, debochar dos milicos, pra fazer o fígado desopilar da repressão que nos impuseram por mais de 20 anos.
Saí de lá com o mistério fustigando minha cabeça. Meus Deus, o que fazia o Galardão, sisudo militar reformado, num cineclube, assistindo a um filme do Buñuel? Não que eu duvide do potencial intelectual dos homens da caserna, mas que era um fato inusitado, lá isso era. Só no dia seguinte dei tratos à bola, liguei alhos com bugalhos e compreendi, como um Sherlock: o filme do Buñuel era O Anjo Exterminador, na época, fazia sucesso aquela série do Swazenegger, O Exterminador do Futuro,... Atraído pelo título, o general Galardão, velho caçador de comunistas, acabou num cineclube vendo o Buñuel, ...o Buñuel exterminando a burguesia!... Elementar!
Vasqs · São Paulo (SP) ·
PIADA DE CASERNA NO CINEMA
Texto gostoso de ler, pois faz lembra o meu tempo, em que tanto amavamos o James Dean.
Sarney foi muito importante quando da vortação das Diretas Já, sempre lembraremos.
Parabéns pela memória que junto lembra lembra tambem carinhosamente nossa gente querida.
Parabéns.
Abração Amigo
Vasqs
Parabens !!!
Andre Luiz Mazzaropi
Olá Vasqs,
Cheguei! Li e achei interessante seu texto.
Depois eu volto para tomar uma coca-cola.
Bjos
Patty
Fiquei pasmo, cutuquei discretamente minha esposa com o cotovelo e disse:
rsrsrsr quer comprar o Cisnema Icarai, eu te ajudô, com a guarda que mete a torrada nas ruas, nos camelos...Elementar!
bjsorridentes!kkkkkkkkk
Foi uma verdadeira piada de caserna! O bug esta comendo o meu voto de 8 para 1. Aabraços.
raphaelreys · Montes Claros, MG 26/4/2009 06:42
Votado com louvor. Belo texto. Deveria publicálo em via impressa tb. Parabéns!
Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 26/4/2009 11:36
Vascqs ó Vascqs!
Sua pena é mesmo tão pura que espana até os sarneyntos bigodes de um bajulador de milicos (bajulador do poder, e metido a poeta- caçador de marimbondos - Maribondos de Fogo; perdoai-o ó Musas!).
Êta pena perversa!
Não fica nem vermelha ao nos botar (ái que sobeja!) um caçador de comunas encâodescido pela luz de um Buñuel.
Arre, Vascqs! Quando nos brindará com um livro inteiro dessa prosa magnífica?
Grande abraço, e lembranças à Patroa (rs)!
Então Raphael, essa coisa do voto, está estranho, não está?
O Bruno me quer na imprensa, o Wancisco num livro, é muito prum ego só. Vocês (todos) são muito carinhosos, obrigado.
Vasqs
legal o texto
tudo se repete mas ninguém se compromete.
bjs
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