PIEDADE
“Quando olhei a terra ardendo,
qual fogueira de São João,
eu perguntei a Deus
do céu – ai –
porque tamanha judiação.”
Asa Branca – Luiz Gonzaga/Zedantas
Piedade foi mais uma cidade que conheceu a fama após um desastre, sem razão pois para regozijo com o fastígio de sua história porque se tratou de uma desventura. Também não sobrou vivente em seus domínios para revelar ao mundo o cataclismo das águas que consumiu a cidade e ombreou-a a tantas outras destruídas por insignes tragédias: Sodoma e Gomorra, pela ira divina; Tróia, pela perversidade da guerra; e Pompéia, pelas convulsões intestinas da Terra.
Piedade minguava no fundo de um desfiladeiro oprimida por duas grandes serras e cindida ao meio por um filete de água – remanso para as horas mais abrasivas do dia, infelizmente mais memória do que regato. No agreste a água era saudade permanente em cada sertanejo e a chuva a dádiva maior que o céu podia oferecer. Obviamente, era um martírio a seca e o sol numa devastadora combinação para enlanguescer, tisnar e esturricar até a morte o que teimasse não ser efêmero como a estação das águas. Por isso, Piedade era feia com ruas tortas, onde só o vento nas horas tórridas perambulava levantando o pó almagre do estio. As casas tristes careciam de jardins e do odor perfumado de roseiras e jasmineiros, ou ainda da beleza das dálias e do colorido variado dos cravos. As mãos dos homens se calejavam em inúteis trabalhos, construindo desde a mais simples almácega ao mais formidável açude para a coleta do avaro líquido. Por sua vez, as mãos femininas esqueciam as rendas de bilro e os tricôs para – extáticas – reclamarem horas a fio em fervorosas preces diante de oratórios e altares o fim da seca.
A chuva quando chegava era mesquinha e não havia excesso capaz de engordar os rebanhos, amadurecer as frutas e tornar as plantações viçosas e abundantes; também não adiantavam os donativos deixados na igreja aos pés dos santos ou os despachos em terreiros de macumba como agrado pela parca precipitação; ela não se rendia a nenhuma oferenda, sendo capaz de se melindrar com tais subterfúgios e abreviar a estação num despótico castigo. Não obstante, o ínfimo que dava era suficiente e contentava os estafermos do lugar – homens e mulheres que se fartavam com o nada ou o quase nada, redobrando a capacidade estóica de suplicar mais chuvas nem bem caía a última do ano. E novamente preparavam maiores almácegas e maiores açudes para aprisionar as incertas águas das chuvas do ano vindouro. Fiavam-se na secular e inobservada crença de ser a escassez de hoje a abundância de amanhã.
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muito bom o conto , leandro. confesso que não li todo, quase um livro, e na tela fica difícil de ler, imprimirei e lerei com calma. você já publicou este conto?? muito bem escrito. parabéns!!
depois lhe passo um parecer do conto todo...
abs.
Não, Marcois, ainda não publiquei. Ele integra o livro de contos que tenho pronto para edição. Fico na espera de seu comentário.
abcs
fabuloso texto!!! você usa e abusa de um vasto vocabulário, e me assombra o peso de cada palavra no seu conto, me parece que este foi urdido e pensado para aqueles vocábulos e vice-versa. muitas das palavras tive de procurar os significados, mas você contextualiza de um modo tal que nos tornamos pouco a pouco íntimos de suas palavras. lembrou-me vagamente o graciliano ramos, com um toque sutil e leve de saramago.eu não conseguiria essa sua maestria com as palavras. você tem um estilo próprio e uma consistência narrativa impressionante, parece que sabe separar bem o prosador do poeta.
eu não sei fazer isso, minha prosa mistura-se com a poesia. gostei muito. parabéns!!( não estou querendo nos comparar, apenas aproximar uma distância quase infinita ).
grande abraço,
Grande Marcos.
Suas palavras são um incentivo, mas a distância que nos separa é apenas os 2 mil km de Araguaína a Recife, vc bem sabe. Realmente concordo com vc que cada um tem seu estilo, e muitas coisas concorrem para isso desde o temperamento da própria pessoa, passando por sua formação e o meio onde vive e o tempo em que vive ou viveu.
Mas o estilo é apenas a forma como se escreve, cada um tem o seu e isso não faz diferença na qualidade da obra. Os muitos estilos são ótimos para que o leitor, ao ler uma obra, além de não se cansar pela repetição não pensar que todos os livros são de um só autor.
Não percebo bem, talvez quem leia faça isso melhor, a diferença entre o prosador e o poeta. Mas deve sim existir, por mais sutil que seja.
Um grande abraço ao mestre de Pernambuco.
JJleandro,
Estou diante de um texto fantástico - vou ler com calma.São 16 páginas.
Mas o que falaria eu,um simples contador de causos, diante de versos como...
Piedade era feia com ruas tortas, onde só o vento nas horas tórridas perambulava levantando o pó almagre do estio.
Salve poeta!
Poeta!
Vc abusou do talento...
(vou comentar depois).
abraços
Excepcional, mestre Leandro! Excepcional!
Um lugar com esse nome, e com as características que descreveu imprime em minha mente flagelos... e flagelados. Riqueza enorme!
Só tenho uma pequena observação a fazer. O trechinho que você colocou no início do texto, da música Asa Branca, é da parceria de Luiz Gonzaga com Humberto Teixeira (não Zé Dantas). Assim você acaba magoando os Teixeiras do Ceará, povo brabo! (risos)
Grande abraço!
Caramba, Carlão, certeza? Vou pesquisar isso melhor e ver, se for, que me perdoem realmente, pq nasala de votação n tem mais jeito de corrigir o erro. Mas vale o registro. e como vale, Carlão
jjLeandro · Araguaína, TO 5/2/2007 11:45
Grande Arlindo
A sua fantástica arte, sobrenatural e no talento e nas coisas surreais que conta, são fantásticas e me encantam. Trabalha a língua o rigor de um físico quântico!
abcs
REALMENTE, CARLÃO VC ME AJUDOU A CORRIGIR O ERRO...
DOU A MÃO À PALMATÓRIA E QUANTOS LEREM, QUE TOMEM ESSE COMENTÁRIO COMO UMA EMENDA: A PARCERIA DA MÚSICA ASA BRANCA EM EPÍGRAFE NO CONTO PIEDADE É DE HUMBERTO TEIXIEIRA/LUIZ GONZAGA, E NÃO COM ZEDANTAS, OUTRO FENOMENAL PARCEIRO DO GONZAGÃO.
OBRIGADO, CARLÃO!
Tem nada, não... os Teixeiras são amáveis também! hehehe
Grande abraço!
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