Sou
Pinguilim
Pirlimpimpim
de anseios e fissuras
Indeléveis purpurinas puras
piscinas azuis
onde boiam pirilâmpadas
estrelinhas cintilando no quengo
como bicadas de rouxinol
(Mas, como assim?
Do nada?
Pensei que no quengo
estrelinhas só cintilassem
na base da porrada)
-------------
Pinguilim
Blim blim de sininho
sem fadinha alguma na pista
Pisca pisca de funkão distante
gambiarrazinha
de árvore de natal
sem natal algum à vista
só tontura colorida de cheiros
na calma das risadinhas
roucas, fracas
como motorzinho à pilha
fracassando
fracassan...
fracas...
(Barulho de latas na cabeça
Chiado de fungadas tristes)
------------
Pinguilim
mesmo de dia vê
faróis e rouxinóis
Letrinhas da cama de folha de jornal
tremeluzindo as vistas
confundindo o estômago
e a vitamina mista
Vivo ou sonho?
Sono ou fome?
Frio ou calor?
Este bafão no meu cangote
é bicho, homem
ou lobisomem?
(Em noite de Pinguilim
todos os bafos
são baços desejos
de velhos gatos
ratos safados)
Ta ligado?
Atividade!
(Se ficar o bicho come
Se ralar o bicho some).
Tá ligado?
Por isto fui, Tia.
Mesmo no oco da noite
Sem ai nem ui
Pinguilim cambaleante
chupando o dedo
Fui!
Spírito Santo
Julho 2008
Dorme de dia que o povo olha,
não se comove muito, mas olha.
Se dormir à noite, dança, morre
uma'zeitona, uma branca afiada,
um fino estilete enferrujado,
mesmo uma meia-lua de pernada.
Até torção de estrangüela leva
Pinguilim resiste,
sobrevive, insiste,
parece não qué morrê sem estilo...
o povo olha, não se comove,
mas até vê
e nem é na tevê,
é só no meio da rua,
sem glamur algum
nem força qualquer na peruca.
Tá doido! Cuida o caveirão!
Inda é bicho homem,
Inda fora do rabecão.
Se ficá, os lobos comem!
Nem pintura de relevo é a baixeza,
desenho na pedrinha portuguesa nem.
Eita dor!
Haja desamor.
Spírito, me deu uma dor aqui dentro de pensar que aquele garotinho que a gente encontrou na frente da UERJ ( lembra? ele conhecia esse menino aí da foto) seja uma outra versão do Pinguilim. E o que mais me desespera é não poder caçar os velhos gatos ratos safados, fungadores de pescoços dos Pinguilins. Isso seria mesmo impossível, por isso vc fez esse poema lindo (como fez aquele outro e aquele outro e aquele outro...) pra deixar atestado o seu horror às coisas tenebrosas que acontecem com os meninos com quem vc convive, e pra nos fazer saber que não é à toa que os pinguilins cheiram cola, embora muitos ainda chupem o dedo.
Obrigada por me sensibilizar mais uma vez.
Bj
Ei Adro, não sou a dona do postado, mas que lindo o que vc escreveu sobre o que o Spírito escreveu. Vc tb sabe da vida de cão dos pinguilins, não é?
Bjs
Ah, pudesse a gente abrigar todos os Pinguilins com o mesmo afeto desperto do seu poema!...
Ah! Ize, nem sabes quanto.
De quando em vez estão aqui à frente de minha janela, em grupos, a planejar um presente diferente, que de futuro nem falam. Ao tempo em que trabalhei com a descentralização da cultura, um projetoaqui da cidade, num tempo em que pirão primeiro não era a receita pra farinha pouca, muito fizemos juntos com outros guris e gurias pra não perder as cabeças pras colas, pros craquis, pras marias e fadas azuis. Eram sonhos com tambores, cordas, até sapatilhas, quando nada tínhamos, íamos de carvão, resto de tinta, gogó, pé e mão.
Dava samba, rap, fanzine, foto na lata, capoeira, teatro, dança, grupo cultural, atitude e quetais.
Hoje... depois de três anos e meio de desmonte promovido pela atual gestão municipal das ações culturais com a participação popular, uma escola do lado do lugar da festa não pode abrir porque o tráfico está em guerra e lá farda é alvo.
Bem, eu faço aniversário em 3 de outubro... quem sabe?
Gente de Deus!
O que salva quase tudo (que nenhum Fred não me apareça) é que tem gente se indignando com isto (pelo menos assumindo publicamente). Por aí, quem sabe, vamos indo para algo melhor que esta coisa suja que o Brasil tem sido com os Pinguilins.
Abs fraternos
Pensei que no quengo
estrelinhas só cintilassem
na base da porrada
Spiriro Santo, você é demais; seu poema é demais; é um soco no estomago. E tem que ter "quengo" mesmo pra perceber o oco do mundo dos desvalidos..e haja fome e frio e miséria. Abraços de paz.
Da série 'barbárie também é cultura'
Você sabia?
Quengo vem de Quenga, do Kimbundo de Angola, provavelmente: Vasilha feita de metade de um coco-da-baía da qual se retira a carne, por extensão, 'Cabeça'
Como 'Quenga' virou prostituta (sei lá porque), Cabeça ficou sendo Quengo mesmo
Átila que nos acuda
açoite se necessário
se é filho da quenga
loló e coca no côco
toda rua é o calvário
Spírito, poema doce-amargo. quem sabe só alguém forte e capaz de amar a vida apesar dos horrores tenha pulso pra um poema desses. soco no estômago como disse a Graça. E um afago no corpinho ali no chão, que dorme durante o dia pra que alguém vele seu soninho perturbado por tanta fome e desamparo.
spírito, parabéns pela sensibilidade e pela qualidade dos versos.
abraço
excelente poema, gostei e votei.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 27/7/2008 19:03
Vemos esses pingulins,sofremos suas dores e tão pouco podemos fazer.Infãncias roubadas e os sonhos adormecidos nas caçadas.nas ruas com ou sem esquinas.Ador do desamparComo me comove e me entristece essa dura realidade.
Vou dar parabéns pelo belo texto que ele sirva de alerta.Publicado,com todo o meu carinho.
Eu não precisei ler pra votar. O título e a foto já me levaram à emoção. Li o poema, para dar o voto do coração.
Higor Assis · São Paulo, SP 29/7/2008 08:58Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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