POEMAS SEM FACE
1
Não tenho cara ou rosto/
procuro o silêncio/
quando durmo mal ou bem/
e estou assim como estou/
cuspindo na cara dos outros/
ou ferindo quem estiver mais próximo/
com uma faca ou com um punhal/
e meu nome é agora martelo/
que bate no prego e contra toda e qualquer parede/
que tenha a necessária ou nenhuma vergonha/
de se ver espremida entre o tédio destas horas e o nada.
Não tenho mais nada em mim que preste/
nem mesmo este jeito de abrir a geladeira/
nem mesmo este nem mesmo neste buraco ou nesta fossa/
ou neste ou naquele lugar qualquer/
ou neste ou naquele demonstrativo de nada/
que gosta de torcer o nariz quando o sangue escorre por aí.
2 O passado comeu o resto do queijo/
enquanto o presente lambia os beiços/
com suas mãos repletas de angústia/
e de coisas que caíam nervitando em abandono.
Ele então julgou haver enlouquecido/
ao revirar os olhos para o lugar nenhum/
não ouviu e não sentiu mais nada em abismo/
e morreu engolido pela palavra bocarra.
3 caiu no chão como quem dorme/
o sono dos injustos e perdulários/
quando roubou de si mesmo o resto de vida qualquer/
fedendo mais do que nunca no ventre da palavra urina.
caiu no chão como quem vai/
ao não ir ao lugar algum quando tudo então se desintegra/
parece que gostava de se perder quando respirava a palavra ar/
vencido como qualquer lata de salsicha ao sabor dos ventos de ocasião.
4 não tenho motivo/
para viver ainda mais/
um tiro na palavra cabeça/
resolveria definitivamente a questão.
Não tenho mais questão/
senão tédio e mais angústia e mais tédio/
como dobrar todas as roupas por falta do que fazer/
no frio ainda mais frio de qualquer noite qualquer.
E precisa de face?
Ou, haveria uma face precisa?
Uma face qualquer
de modo algum
daria face
o que já em disfarçe
a própria face, o é.
Belíssimo poema, parabéns e um abraço.
bem dora, obrigado pelo belo comentário.
acesse www.joaayres.com
um grande abraço
joão ayres.
olá, joão, belo poema, bem consrtruída metáfora sobre a desintegração de um ser( ou seria des-entregação ao próprio destino, qual tragédia grega?) Lembra muito textos dos " malditos" franceses " especialmwente Lautrèaamont, também lembra Genet, temática forte. Muito bom seu poema!
danlima · Brasília, DF 21/4/2008 23:02
Muito agradecido e acho que em algum lugar nossas almas se comunicam.Acessei seu blog e adorei os poemas.
Perfeito uso da rima no primeiro. Questão complicada esta, pois já vi e vejo rimas destruindo poemas que acabam soando piegas.
Parabéns.
Acertaste-tem muito de genet e dos malditos franceses ali e tem muito de Camus.
olá joão, obrigado pelo elogio aos meus poemas e a visita ao meu blog. Estive relendo teu texto,. é realmente de uma força incrível, vi demais nele de "Nossa Senhora das Flores" de Genet, e também de Camus, como você lembrou, pinceladas existencialistas. Meus escritos seguem uma linha mais, diriamos, transcendental( afinal, o aque é isso?) apesar de eu edstar sempre cantando a afinitude, o tramnsitório e o efêmero. Quando entrar em votaç~zao, comparecerei. Poste mais trabalhos, este é muito bom!
danlima · Brasília, DF 22/4/2008 22:51João perdi a face,face ao belo poema.Um sincero abraço.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 23/4/2008 20:40
Gostei.Votei
Um bj doce,
Sílvia de BH MG Brasil
obrigado silvia
muita gentileza sua
bj
joão ayres
www.joaoayres.com
tirastes as faces do " poema de sete faces"
votado
Linda sua poesia!!!votado...
Estou fila de votação com esta musica, passe por lá e de sua opinião sobre meu trabalho e se gostar vote...
http://www.overmundo.com.br/banco/voce-pra-mim
beijos no core...
em MALDITA solidao?
poema macio feito um concreto rude.
adorei.
bjsssssss;
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