Hoje não quero saber de poesia
de bicho-chão, de bicho-flor
de pedra no meio do caminho
nem quero ir para Passárgada
muito menos saber de ser
amigo do rei.
Hoje quero tocar na ferida
enfiar o dedo na dor
de ver meu irmão
sem casa
sem água
sem nada
sem pé no chão
arrastado por barro
cegueira
desilusão
sem mãe
esposa
a filha de colo ainda
esmagados todos sob o peso do aluvião.
A cidade afundada
o mar vai virar sertão
o rio agora é rua
a rua agora é rio
o político ri de quê?
o famoso explode a cabeça
na boate
no uísque
no esctasy alucinado
pouco se lixando
para a morte afogada.
A Luana é uma vaca
como Michael Jackson disse da Madona
rebanhos de vacas insensíveis
vivendo seus mundinhos inacessíveis
à solidariedade, ao olhar, ao gesto
da mão que salva.
As águas estão vindo
subindo as plataformas continentais
como cavalos anabolizados
desabando os barrancos vermelhos
os rios de sangue da cidade mentirosa
das favelas, das esquinas com despachos
despachos para quem?
das granadas anônimas
dos fuzis esgarçados
das vielas podres
fétidas solidões das ruas
dos catarros, dos mendigos,
das camisinhas explodidas
por debaixo das torres de iluminação
que não iluminam porra nenhuma!
dos caveirões negros blindados
impotentes nas subidas das ruelas
a rajada
o sangue
o soldado
o bandido
quem é o bandido?
quem é o mocinho?
nosso século confunde tudo
as cachaças
as cervejas
deixe de frescura!
mas você mesmo é um fresco!
bombom de churrasco mal-cheiroso
uma excrescência andante
paixão por dinheiro
imoralidade perversa
deflorar a criança
esmagar a infância
na escola
no beco
no baile funk
tá quase tudo dominado
Ipanema brilha à noite
Copacabana fede
as marquises são casas
as casas são marquises
onde ninguém se entende
a garota se vende
o gatilho distende mais uma vida
na cabeça que rola no asfalto
assa no microondas
última invenção high-tech
das terras altas do Brasil
o olhar assassino
cordão de ouro nos dentes
pistolas cromadas brilhando
fuzis e lança-rojões paraguaios
e fingimos que tudo isso é normal
nos acostumamos
esperamos que alguém nos salve
Deus, o político-olhar-de-tubarão-branco
o Lula, presidente iletrado,
que se orgulha de nunca ter lido um livro,
bibliotecas fechadas em Brasília
ler pra quê
os cumpanheiro querem é o paraíso!
barracos nas encostas
silicones nas bundas e peitos
Maiame é logo ali
a Barra é uma beleza
de escrotidão
de macaquice
de rolexes falsos
de cabeleireiros da moda
de guardas
seguranças
que não seguram nada
querem a tv de graça
(tem que levar vantagem em tudo, certo?)
de lcd, de cabo, de loja
de mp80,
a música nos ouvido
estourando os miolos
num idioma que não se sabe
o que importa é o barulho
que anestesia
que cala o outro
que cala o assassino que eu sou
assassino do dia
assassino do livro
do que ainda resta de poesia
poesia numa hora dessas?
Mas hoje não quero poesia
quero o gosto de sangue
o gosto de barro de Santa Catarina
nome de santa não salva?
evito o olhar da menina
que meigamente me questiona:
até quando?
Grande Fausto F, abraço do colega poeta Marco Plácido.
Comentário Poético:
"HUMANA IDADE
O Poeta
sofre
pela
humanidade
Sentimento
de
saudade
foi
que
me
fez
escrever
poetizo
para ver
até onde
posso sentir
por
todos
tudo
que sabemos
ser
falta de
humanidade!".
Fausto,
Revolta explodindo...
grande poema
bjs
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