VINHO. POESIA. TEMPO.
ON MEETING LI GUINIAN DOWN THE RIVER
I met you often when you were visiting princes
And when you were playing in noblemen's halls.
...Spring passes.... Far down the river now,
I find you alone under falling petals. (Tu Fu)
Numa das minhas idas à Charing Cross Road, uma espécie de paraíso para quem sofre de queda incurável por livros, comprei uma tradução para o inglês de uma centena de poemas chineses, do poeta, tradutor e especialista em poesia oriental (leia-se, chinesa e japonesa), o norte-americano Kenneth Rexroth. Começava ali o meu encontro com a poesia de Su Tung P’o, Tu Fu e Li Ch'ing-Chao, entre outros. O livro é, desde então, um dos meus companheiros de viagens.
Tu Fu nasceu em 712 e morreu em 770, mas venceu o tempo. Venceu o tempo, ultrapassou a grande muralha e a imperfeição das traduções. O frescor da sua poesia manteve-se tão vivo quanto o aroma de generosa taça de vinho. Poesia integrada à natureza e vice-versa. 'Nas proximidades de tua casa, teu filho mais velho me cumprimentou respeitosamente, / perguntou pela minha saúde, pela minha família, pela minha terra natal./ Desculpa-me, criança, por não te haver respondido./ Eu escutava o murmúrio de um riacho que me conheceu quando eu era pequenino como tu...' (Em casa do meu amigo Tcheng-Tsé - tradução: Cecília Meireles.). Integrada e íntegra. Sublime lirismo. Em tempos de reflexão sobre o futuro do planeta, por que não beber nesta fonte?
Isto não significa que a poesia chinesa tire o pé da realidade. Não, ela também é o registro de problemas que insistem ao longo do tempo e que também não respeitam geografias ou nacionalidades: impostos, riqueza e pobreza, opressão, injustiças. Humor e ironia
também comparecem: 'Ugliness and beauty are opposites, / But when you’re drunk, one is as good as the other.' (Su Tung P’o - 1036-1101)
A queda pela poesia chinesa e, justiça seja feita, o período em que vivi em Portugal, acabaram por levar-me a outra paixão: o vinho. Entre um e outro verso é possível degustá-lo: 'I have wine and moon and flowers. / Who else do I want for drinking companions?' (Su Tung P’o); 'But now who will share with me / The joys of wine and poetry?' (Li Ch’ing-Chao). O vinho, a poesia, o tempo. Eternos. Boa parte das minhas noites na varanda do apartamento em Cascais, desfrutei da companhia do vinho e da poesia. Ambos embriagam:
'I drink two cups, then three bowls, / Of clear wine until I can’t /Stand up against a gust of wind'. Versos femininos de Li Ch’ing-Chao (1084-1151).
Numa das minhas idas ao Recife, fui conhecer a bela Livraria Cultura que a cidade ganhou. Lá, dei de cara com outra boa safra de poemas chineses - Li Po e Tu Fu - traduzidos para o português por Cecília Meireles. Recomendo.
Se a preocupação com o futuro do planeta é real, olhar para trás e ouvir o que o tempo consagrou - o que disseram certos poetas -, pode nos dar alguma esperança. É lá que estão algumas das respostas. Não é passadismo e sim a constatação óbvia de que não se pode matar a raiz de uma árvore e esperar que, em troca, ela devolva frutos. É bom lembrar que se a democracia americana tivesse compreendido o sonho visionário de Walt Whitman, o mundo não teria dado em Bush.
Tu Fu e a poesia chinesa merecem um brinde.
JÁ CONHECIA O TEXTO DO SEU SITE, MAS NÃO PODERIA DEIXAR DE COMENTAR AQUI: TEXTO DE MESTRE, MEU CARO AMIGO!
Alfredo Nobre · Teresina, PI 5/7/2007 11:37Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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